Enfim, Berlim.

Quinta feira, dia 8 de Maio. Duas semanas viajando e chegou a hora de arrumar a mala e partir para o “primeiro” destino da viagem.

Acordo ansioso, como sempre, esperando a loja ligar dizendo que as lentes haviam chegado.

Na noite anterior havíamos ido tomar umas cervejas na minha despedida da Polônia, mas voltamos cedo, pois Wojciech trabalharia e eu tinha 300 km de estrada pela frente.

Vão-se as horas e nada da loja ligar. Ligamos e eles dizem que vai chegar. Que o carro está numa cidade vizinha.

Decido colocar as malas no carro e levar Wojciech até o seu trabalho. Enquanto ele está lá, fico dando uma volta na cidade esperando a ligação. E ela não acontece. Mais um dia em Poznan sem as lentes e a sensação de tempo perdido é enorme.

Fico muito bravo e triste, mas ficar bravo e triste não resolveria nada.

Wojciech volta do trabalho e vamos até o estúdio onde seus amigos ensaiavam para tomar uma última cerveja e tentar se divertir um pouco.

Os integrantes da banda, Piotr, Bartlomiej (Se diz Bartuomiei) e Damianek fazem uma Jam session e cantam, ironizando, que eu não deveria ter comprado o carro. Depois me enchem de perguntas sobre a viagem e decidimos que usarei suas músicas nos vídeos e que eles vão compor uma música especial para a viagem.

Na volta os trams estão cheios de jovens indo para uma festa que acontecia perto do apartamento. Wojciech me explicou que era fim de semestre e essa era uma tradicional festa que acontecia logo após os exames finais e que todos iam desestressar e ficar muito bêbados. Mas nós decidimos ir para casa dormir.

No dia seguinte mais uma vez acordo ansioso. Esse tinha que ser o dia, com ou sem lentes.

Me levanto e Wojciech havia saído. Mando uma mensagem e ele me diz que tinha ido resolver algumas coisas no correio. Pergunto das lentes e ele diz que já havia ligado e que não havia previsão. Quase soco a parede de tanta raiva. Respiro fundo e tento esquecer.

Peço que ele ligue e avise que não poderia esperar mais do que até o meio-dia pelas lentes, pois tinha que estar em Berlim antes das 18h, ou perderia o lugar onde ficaria lá. Ele então me manda uma notícia num site polonês. Não entendo nada, mas vejo uma foto de um corpo coberto próximo à linha do tram que havíamos pegado ontem. Pergunto o que aconteceu e ele diz que era um amigo dele. O rapaz foi tentar atravessar a linha voltando da festa, completamente bêbado e foi atropelado. Morreu.

Ele volta bem triste para casa e eu não sabia se ficava triste junto ou se ficava bravo com a loja. Me senti um egoísta em não conseguir compartilhar a dor do meu amigo, bem ali do meu lado.

A loja liga e avisa que as lentes chegariam as 15h. Falo para ele manda-los à merda e digo que vou para Berlim. Pego minhas coisas e desço. Wojciech me dá um abraço meio melancólico, batemos uma foto juntos e ele bate umas fotos minhas no carro. Entro e vou-me embora. Mais uma buzinadinha como tchau.

Eram 11:30h quando saí. Logo de cara já virei uma rua errada e me perdi. O GPS, para variar, não funciona. Ao tentar me achar, paro num posto de gasolina para reabastecer. Saio e pego uma rua qualquer e de repente estou de volta exatamente na rua do apartamento. Que sorte. Dessa vez não erro mais o caminho e logo chego à estrada.

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Na estrada não tem muito o que fazer. É uma reta só, chata, entediante e sem ninguém para me fazer companhia. Sem rádio, a solução é ir cantando sozinho, meio que como um louco falando sozinho. Não me importo.

Acostumado a ser ultrapassado, vejo algumas pessoas virando a cabeça para ver melhor o carro. Algumas crianças apontam, alguns jovens dão risada e os mais velhos ficam surpresos. Dois carros com placa russa passam por mim. O primeiro vai batido e no segundo pude ver a passageira com a câmera na mão batendo uma foto minha. Tento fazer um joinha, mas o motorista não quis colaborar e logo acelerou.

Após uns 200km chego na primeira fronteira internacional da viagem. Atravesso uma ponte, deixando a Polônia para trás, e sou recebido pela Alemanha. E logo de cara começo a ver carros da polícia parados nos cantos da estrada.

Mais 100km e chego em Berlim. Sem GPS, tento me lembrar de cabeça como era chegar, já que tinha “estudado” o caminho antes. Não sei se foi por sorte ou por capacidade, mas chego sem errar.

Subo até o apartamento e sou recebido pelo Erik, que conheci em dezembro passado. Ele me diz que Tina, sua namorada e que eu conheci quatro anos antes, estava no trabalho. Logo eles iriam para sua cidade natal, próxima a Dresden, resolver pendências da festa de casamento.

Logo ele vai embora e eu fico então sozinho no belo apartamento deles. Antes de ir, ele me empresta o seu “bilhete único” e com ele eu vou até a Alexanderplatz procurar alguma loja de eletrônicos para comprar as lentes que esperara por dias em vão.

Uma das lentes não tinha. Justamente a que eu fiz tanta questão de esperar em vão. Tudo bem. Decido levar outra O filtro que já havia comprado não serve mais. Compro outro filtro. Mas pelo menos, em menos de uma hora, resolvi o problema que estava esperando por três dias. Volto ao apartamento e descanso. Não sem antes passar num mercado, comprar comida e, claro, cerveja. Afinal, estava na Alemanha! Faço o meu carbonara, tomo minha cervejinha e posso, finalmente, deitar e usar a internet sem preocupações.

Para o dia seguinte havia combinado de encontrar uma ex-colega de trabalho que está morando em Potsdam, cidade vizinha à Berlim. Encontro a Gabi na Alexanderplatz e vamos numa “alternative-tour” pela cidade, como dizia o site. O guia, um britânico que o seu sotaque todo cheio de pompas, fala com propriedade dos grafites da cidade, dos becos e ruelas. Nos leva até o bairro de Kreuzberg e depois até a East Side Gallery, onde termina o tour. Ele me pergunta o que faria com os vídeos que fiz e conto sobre minha viagem. Ele gosta da ideia, mas mesmo assim me passa o seu e-mail e diz para que eu solicitasse sua autorização do uso da imagem. Justo.

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Eu e a Gabi andamos mais um pouco e decidimos almoçar. Kebab, claro. Ela devora o seu e eu, incrivelmente, não consigo terminar o meu. Estranho.

Apesar do sol, já estava ficando tarde e Potsdam não é assim tão perto. Nos despedimos e eu volto para o apartamento. Não sem antes comprar mais umas cervejinhas. Nem preciso relembrá-los onde estava.

Aproveito para assistir a final da tal Eurovision. Para quem não sabe, a Eurovision é uma competição musical muito popular e tradicional na Europa. Descobri que artistas como o Abba e Julio Iglesias foram alçados à fama após vencerem a competição. Mas o programa em si é, para mim, muito brega. Não havia assistido nenhuma das qualificatórias e mesmo a final só peguei a parte da pontuação. Queria ver quem iria ganhar enquanto tomava minha última cerveja.

E foi bem ridículo. Na final estavam Ucrânia e Rússia. E o sistema de pontuação é mais ou menos assim: cada país dá votos de 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10 e 12 pontos de acordo com o que eles acharam melhor. Eu não sei se quem vota é um corpo de juízes ou se é através de SMS e ligações. De qualquer forma, cada representante do país vai ao vivo anunciar em quem eles votaram para 8, 10 e 12 pontos. E cada vez que a Rússia recebia pontos, era uma chiadeira só. Fora isso, havia os “complôs”. Belarus, país ao norte da Ucrânia e que é fortemente influenciada pela Rússia, “doou” seus 12 pontos para eles. E a Rússia retribui e dá os seus 12 para eles.

Mas no final quem ganha é um cantor austríaco que incorporou uma Drag Queen barbuda. Não ouvi a música. Aliás, não ouvi nenhuma e nem fiz questão de tanto. Achei legal ele vencer. Numa época em que vemos a xenofobia na Europa voltar a níveis do início do século passado, essa mensagem de tolerância não passou despercebida.

Desligo e vou dormir. Dia seguinte estava sem planos.

Acordo e ligo o computador. Tento falar com Jorge, um amigão meu venezuelano que morava em Vilnius também. Ele havia me dito que estava em Berlim e então combinamos de nos encontrar.

Vamos até o Reichstag, o portal de Brandenburgo. E enquanto isso vamos falando do Brasil. Cara interessado pelo nosso país. Fazemos algumas comparações com a Venezuela e ele me conta melhor sua situação na Europa.

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Apesar de ter mestrado e doutorado, cada um em uma grande instituição europeia, ele não tem conseguido nem emprego em telemarketing. Isso tem drenado todo o seu ânimo e percebo que ele não estava tão sorridente quanto a quatro anos atrás.

Ele está de favor a quase um mês na casa de um amigo letão, que o liga para que vá até o apartamento lhe entregar as chaves. Ele parte e eu vou até um museu ao céu aberto sobre o Muro. Aproveito para fazer vários vídeos e fotos legais de um lugar que não é exclusivamente visitado por turistas. Depois volto para o apartamento.

Na volta encontro a Tina, finalmente, e Erik. Haviam acabado de voltar de viagem. Conversamos um pouco sobre a viagem deles no Brasil, ano passado, e sobre a minha. E logo chegam seus amigos. Lech e Tania são namorados. Ele nasceu na Alemanha Oriental, ela, na Ocidental. Hoje moram em Berlim.

Fizemos um jantar meio catadão de tudo que tinha no apartamento e lá vou eu fazer as primeiras entrevistas oficiais da viagem. Ligo a câmera, aponto para eles e começamos a jantar. A conversa flui naturalmente e muitas boas perguntas e respostas vão surgindo. Gostei da interação e do jeito como tudo foi saindo. Fiquei feliz.

A uma da manhã Lech e Tania vão embora e Tina e Erik precisam ir dormir. Todos, menos eu claro, trabalham no dia seguinte. Aproveito para checar como ficou a imagem e o áudio e vou dormir.

Na segunda vou a Potsdam encontrar a Gabi de novo e conhecer a pequena cidade que outrora fora tão importante à Alemanha.

Pegamos uma senhora chuva ao descer do ônibus e corremos até o refeitório da universidade. Me passei por estudante e filei um bandejão alemão. E encontramos um amigo dela búlgaro, Adam. Contei sobre minha viagem e, mais uma vez, a reação foi de extrema surpresa. Combinei de encontra-lo em Sófia quando passar por lá. E se ele estiver por lá também, claro.

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Nós três andamos ao redor do Neu Palais, que fica logo atrás do refeitório. A chuva continua, mas fraca, e não consigo usar muito a câmera. Decidimos ir até o Orangerie e o Palácio de Sans Souci. Um complexo enorme em um parque só. Muito verde, gostei, mas tenho que ir. Vamos até a estação central e um abraço de despedida. Nesse caso eu sei que voltarei a vê-la em breve. Moramos na mesma cidade, trabalhamos juntos. Nada de melodrama.

Volto até Berlim numa bela jornada. Sinto que as pessoas no trem olham para mim. Acho estranho, porque em Berlim foi onde me senti mais “só mais um na multidão”. Me lembrei que em São Paulo, sempre que pego alguém olhando para mim, tenho a estranha sensação de estar com o zíper aberto. Nesse caso as pessoas me olhavam tanto que eu me sentia sem calças. Fiquei olhando pela janela e desisti de tentar achar um motivo.

No apartamento chego um pouco antes do que Erik e Tina. Eles haviam combinado com um outro amigo de vir para eu entrevista-lo, mas infelizmente ele teria uma reunião e não pôde ir. Erik chega e diz que Tina quer nos encontrar num restaurante libanês que sempre quis ir, mas nunca havia achado uma desculpa. Nada melhor do que um meio libanês para convencê-la.

Jantamos muito bem, voltamos ao apartamento. No dia seguinte eles iriam trabalhar cedo e eu iria só mais tarde para Praga. Abraços, agradecimentos e um pouco de tristeza. Mais um, aliás, dois, de muitos tchaus que terei que dar.

Antes de ir dormir combino o horário que devo chegar em Praga no dia seguinte, 20h, e vou à cama com a cabeça a mil, pensando na estrada, no novo país e nas novas pessoas e entrevistas que faria.

Durmo bem.

A segunda semana.

Assim como na quinta, dia 24, acordei também as 10 horas, exatamente uma semana depois. O carro estava pronto. O que não estava pronta ainda era a minha ansiedade em dirigir o carro por mais de 300 km pela primeira vez.

As malas já estavam arrumadas desde a noite anterior. Saio do quarto e vou lavar o rosto. Aviso Tomek que já estava tudo pronto. Comemos alguma coisa e logo tenho que ir. Não sem antes dar um abraço em Krisztina. Grzegorz eu já havia abraçado um pouco antes, pois tinha treino e teve que sair antes. Os dois, apesar da timidez inicial, gostaram dos abraços – acho.

Antes de sair, Krisztina pede para bater uma foto comigo, como se precisasse pedir. Descemos e Tomek bate mais fotos comigo no Lada e comenta “sabe como é minha mãe, ela gostou de você e quer fotos suas no carro”. Dou risada e faço caras assustadas para a câmera, como se estivesse sofrendo ao dirigir. Tomek então vai até o seu carro e eu vou atrás. Ele iria me guiar até a estrada.

Assim que chegamos, ele encosta e dá o sinal para eu continuar. O nosso tchau foi uma buzinadinha e agora era só eu, ali, com a Lubenica (lembrem-se, lê-se “lubenítsa”). Pego a estrada e vou sentindo o carro em velocidades mais altas. Fico surpreso com a estabilidade do carro. Apesar do tremilique (ou seria trimilique?) de antes, quando o carro entra em velocidade de cruzeiro, fica mais macio.

Ia vendo até onde o giro do motor ia quando aumentava a velocidade. Afinal, eram só quatro marchas e eu não queria ficar pisando fundo e gastando horrores de gasolina. Vi que entre 80 e 90 km/h ele se comportava bem e o motor não gritava tanto. Entre 2800 giros a 70 km/h e 3500 a quase 100 km/h, percorri os primeiros 350 km da viagem, entre Zabrze e Poznan.

A primeira metade era até a cidade de Wroclaw (lê-se “vrôtsuav”), que era até a pista dupla ia. De lá peguei uma estrada local que seguia até Poznan. Uma paradinha num posto para uma água, banheiro e olhada no mapa. Comprei um em caso o GPS do meu celular, que não é nenhuma maravilha, falhasse. Não tinha muito como errar ainda assim.

O tanque estava na metade. Tanque pequeno, só cabiam 40 litros e eu já havia rodado mais de 200 km. Consumo fraco também, não mais do que 12 km/l. Como ainda faltavam mais 180 km, decido colocar mais uns 10 litros, para garantir.

As pessoas do posto estranharam muito ao verem um Lada e mais ainda quando desceu dele um rapaz moreno, narigudo, cara de árabe. Me senti uma celebridade, tipo um ex-BBB, que todo mundo sabe quem é mas não lembra direito o nome.

Sigo meu rumo, dessa vez pela estrada local. Campos e mais campos de flores amarelas iam aparecendo. Nunca fui um expert em botânica, então confesso que continuo sem saber – e tampouco interessado em saber – que flor era. Só sei que a estrada era muito cênica, calma e gostosa de dirigir.

Fiz um stopmotion da segunda parte da viagem aqui.

Em Leszno, uma cidade a uns 80 km de Poznan, encostei o carro e liguei para o meu amigo, conforme o combinado. Coloquei no GPS do celular onde precisava ir e, apesar da localização ficar indo e vindo, segui meu caminho. Enquanto estava parado, um moleque de não mais de 15 anos deu um tapa no carro enquanto caminhava com uma amiga. Olhei feio e ele fez uma cara de pavor, pois devia ter achado que não havia ninguém no carro. Otário.

Uma hora mais tarde, 17h, já estava em Poznan e exatamente no ponto onde havíamos combinado. O GPS havia sido de bom uso, afinal.

Encosto num posto, onde vejo uns caminhões estacionados. Paro logo ao lado de um Fiat 126, fabricado na Polônia durante a época comunista. Muito popular, é cultuado entre os admiradores de carros “comunistas”, por assim dizer. Não estava lá aquela maravilha, mas a cor era praticamente a mesma da minha Lubenica.

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Wojciech (lê-se “vôitchiérr”) chega logo em seguida com Marcin (lê-se “mártchin”). Eles sobem no carro, não sem antes fazerem algumas piadas a respeito dele, e vamos até o apartamento. Estaciono, subo, largo as coisas num dos quartos e vamos comer.

Era feriado e no dia seguinte também seria. Assim como nós, eles emendam quando cai na terça ou quinta. Então, infelizmente, não haveria porque ir até a loja comprar a câmera ou até a prefeitura iniciar a regularização do carro.

Assim sendo, abrimos a primeira cerveja e fomos conversando muito sobre os meus planos. Marcin estava muito interessado e me perguntou mais coisas do que eu perguntei a ele. Queria saber todos os detalhes de como era a vida no Brasil e ficava surpreso ao ver as semelhanças que os dois países possuem.

Wojciech já estava mais afim de festejar. Havia quatro anos que não nos víamos e éramos com companheiros de baladas na Lituânia. Ele queria de todo jeito que essa noite fosse como a quatro anos atrás e logo trouxe a vodca.

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Praticamente desde que havia voltado ao Brasil que não tomava mais vodca, pura principalmente. Não pude recusar e logo já haviam ido três. Já estava mais para lá do que para cá. Hora de sair e ir conhecer o centro.

Poznan é a terceira maior cidade do país e é um dos principais destinos dos estudantes estrangeiros que vêm fazer intercâmbio. Querendo voltar ao clima do passado, Wojciech nos levou até a festa “oficial” dos intercambistas. E logo de cara já percebi que o passado continuava no passado mesmo. Um calor infernal, as pessoas se acotovelando e eu ali, perdido e bêbado sem entender nada. Em 20 minutos já não aguentava mais e fomos embora.

Pedi para irmos a um lugar mais tranquilo, sem tantos estrangeiros assim. Fomos então num bar meio rock and roll, sei lá. Não havia lugar para sentar e nos encostamos num canto, perto de uma mesa, e ficamos conversando. Nisso, um casal ao nosso lado ouviu um pouco e começaram a puxar conversa comigo. Por um tempo fiquei falando com eles sobre a minha viagem e eles adoraram. Quem não curtiu muito foi o outro casal de amigos deles que não trocaram uma palavra comigo e me olharam feio do começo ao fim.

Quando voltei do banheiro, comentei que estava muito frio – e estava mesmo, -1 grau para Maio é frio até para eles – e usei uma palavra em polonês que é usada simplesmente o tempo todo “Kurwa” – que é o nosso equivalente ao caralho, mas pode ser puta, merda e tantas outras coisas. No mesmo instante, o amigo do casal, um careca alto pra cacete, levantou e colocou o dedo na minha cara, começando a falar um monte de coisa que eu não entendi. Fiquei completamente sem reação e sem entender. Os amigos o puxaram de volta e eu então pude perguntar o que tinha acontecido. Eles não conseguiram me responder muito bem, mas nisso meus amigos já estavam me puxando e dizendo que já deu o que tinha que dar. Infelizmente eles estavam certos. Até agora não entendi e talvez seja melhor não entender mesmo o que aconteceu.

De volta à rua, decidimos então tentar o nosso último bar antes de irmos embora. Era um bar que para mim parecia muito esses botecos com cara de sujo mas que é chique, que nem tem aos montes na Vila Madalena. Lá eu disse que não queria mais nada, mas meu amigo trouxe uma vodca. Recusei. Ele então ofereceu ao casal que estava ao nosso lado. Eles foram puxando conversa e nisso o rapaz vem até mim e diz que eu sou indiano. Ele era indiano. Eu disse que não, sorri, e falei que era brasileiro. Pronto. Aí foi a moça que delirou. Ela era brasileira. A festa tava feita.

Depois de uns quarenta abraços que o hindu fez questão de me dar, conseguimos, finalmente, ir embora. Não sem antes ser parado por mais um polonês, dessa vez morador de rua, que ao descobrir que eu era brasileiro, abriu um sorriso desfalcado de dentes e disse “communist?”, quis brincar e disse que sim, já que ele havia sorrido, e ele ficou feliz e tentou me falar que ele também era e que na época do comunismo não vivia na rua. Infelizmente não tive como dar muita atenção, já era tarde, estávamos cansados, com frio e fome.

E então, finalmente, após uma semana, comi o meu primeiro Kebab. Que saudades. Sem cebola, é claro.

O dia seguinte foi inútil. Todos de ressaca, eu mais ainda por conta do cansaço da viagem e ainda tentando me acostumar ao novo horário. Após o dia inteiro em recuperação, um amigo italiano, Nicholas, que namora uma polonesa e mora na cidade e que também conheci quatro anos atrás, me liga e diz que iria jogar boliche com uns amigos e queria me rever. Decidimos ir então e o dia não foi assim de todo mal.

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No sábado, meus amigos decidem me levar até Gniezno, a uns 50km de Poznan e que foi a primeira capital da Polônia. Finalmente uma viagem histórica e não alcóolica.

Cidade agradável, pequena e bastante turística. Fomos num museu de história e fomos convidados a ver um filme em 3D sobre a história da cidade. Não entendi e nem consegui ver nada, já que o meu estrabismo não permite ver filmes em 3D, mas foi legal mesmo assim.

De volta a Poznan, Wojciech mais uma vez queria aprontar e chamou os amigos. Um deles, Mateusz trouxe uma vodca caseira feita de ameixas e que tem por volta de 60% de graduação alcóolica. Desastre anunciado. Uma, duas, três. Ufa, a garrafa acabou. Chegam mais amigos e mais uma garrafa de vodca. Ainda bem que estávamos em mais pessoas, então foram “só” mais duas doses antes de partirmos.

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Antes de irmos, Mateusz me conta que tem uma moto polonesa de 1962 e que gostaria de me mostrar. Infelizmente ele mora numa cidade um pouco longe, mas prometi que tentaria ir.

No caminho até o centro eu estava bem mal. Queria ser legal, mas eu podia ter dito não. Agora já não dava mais. Era só não beber mais nada que em pouco tempo já ficaria legal.

No centro, paro num quiosque e peço um energy drink qualquer. Já que tinha que ser legal e aguentar até o fim, eu precisava de alguma coisa pra me dar um tapa na cara. Saio do quiosque e meus amigos entram no bar ao lado, que era famoso pelos shots de vodca com coisas coloridas dentro. Me recusei a sequer entrar no bar.

Fora dele fui parado por dois moradores de rua, que pediram um cigarro. Pedi desculpa, disse que não falava polonês e eles então me explicaram em inglês. Dei um trocado e eles ficaram felizes e engatamos uma conversa. Sinceramente, uma das melhores que tive até agora.

Enquanto meus amigos “riam” de mim de dentro do bar, eu estava lá fora, salvo de beber mais e tendo uma conversa interessante sobre a vida na rua e o mundo das drogas, se é que dá para chamar assim, da Polônia. Cumprimentei-os, desejei sorte, e entrei no bar. Mas só para usar o banheiro.

Na rua novamente, meus amigos decidem ir ao mesmo bar dos estudantes estrangeiros que havíamos ido dois dias antes. Insisti para que não fôssemos, mas fui voto vencido. Pelo menos dessa vez eu não estava levando cotoveladas de graça. Mas ainda assim a merda era a mesma.

Um dos nossos amigos some, enquanto Wojciech fica circulando pela pista, tentando achar alguém. Eu fico mais para trás, com o casal de amigos dele, Rafal e Ewelina. Depois de mais de uma hora lá dentro, eles decidem ir embora e o nosso outro amigo ainda não tinha dado as caras. Dou uma circulada pela pista, encontro Wojciech e peço para irmos. Ele concorda, vamos até a chapelaria e a blusa dele havia sumido. Mais meia hora enrolando, ele volta para a pista e eu volto para puxar ele. Até que fica decretado, vamos embora. Eu subo a rampa do lugar e quando olho para trás, ele não subiu junto. Tento voltar, mas sou barrado. Tinha que pagar para voltar e eu estava sem um centavo no bolso.

Vou até a rua e encontro o nosso amigo perdido, que estava mais perdido que cego em tiroteio. Bêbado, tinha brigado com um dos seguranças da festa, que o expulsou e estava ali esperando a nossa boa vontade de ir embora.

Eu, cansado e irritado com o meu amigo, decido ligar para ele. Não atende. Mando mensagens, não responde. Começo a ficar muito irritado. Estava cansado e com muito frio e fome. Marcin me paga um Kebab e eu dou uma acalmada, mas ainda sem respostas de Wojciech.

Após uma hora, ele finalmente decide sair. Estava tão bravo que poderia ter dado um soco nele, mas nunca fui disso e vou continuar não sendo. Ele tenta me explicar que foi insistir um pouco mais a respeito de sua blusa e que acabou encontrando uma menina, xavecou e eles combinaram de sair no dia seguinte. Fingi ficar feliz por ele, mas no fundo eu queria era que ele fosse à merda mesmo. Ele paga o taxi de volta, meio que como um pedido de desculpas. O taxista, ao nos deixar, notou o Lada e comentou com o meu amigo que fazia tempo que não via um em tão bom estado.

No Domingo, mais um dia inútil. Wojciech sai cedo – 13h – para ir encontrar a menina da noite anterior e ficamos eu e Marcin no apartamento. Aproveito para editar o stopmotion, escrever um pouco, fazer as contas dos gastos e tirar o atraso da internet. Wojciech volta no final da tarde e Marcin precisa voltar a sua cidade, próxima a Poznan. Ele nos dá uma carona até o centro e lá damos uma volta até chegarmos a beira do rio Warta, onde há um centrinho cultural feito de contêineres reaproveitados. Faz frio, então não conseguimos ficar muito e logo voltamos para o apartamento. Conversamos mais um pouco e dessa vez vamos dormir cedo, afinal, segunda finalmente estava aí e havia coisas a serem feitas.

Segunda, acordamos cedo e vamos até o órgão de registro de carros da cidade. No posto de informações a moça nos diz que o processo é simples, basta o responsável pela casa, seja o dono ou locatário, provar que eu moro no lugar que é possível então registrar o carro em meu nome. O processo levaria não mais do que 20 minutos, desde que o oficial responsável estivesse de plantão, o que não era o caso desse dia. Ela falou para retornamos na terça que ele estaria lá. Ficamos felizes e vamos até o centro almoçar.

Ele quer me mostrar o estádio do seu time e vamos até lá para um tour guiado. O estádio é grande, bacana, bonito. O segundo maior do país. Recebeu jogos da Euro 2012 e é motivo de orgulho entre os torcedores do time, Lech Poznan.

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Vamos até a loja de câmeras onde havia encontrado os preços dos produtos que queria e, para minha infelicidade, quase tudo precisaria ser trazido, o que levaria, no mínimo dois dias. Decido fazer o pedido e esperar. Em Berlim havia pesquisado e os preços, por incrível que pareça, eram maiores por lá.

Voltamos até o apartamento, pois seu time iria jogar, infelizmente não no estádio que havíamos a pouco visitado, mas sim numa cidade chamada Bydgoszcz (lê-se “bidgoshtch”). Seu time vence por 2 a 1 e continua firme em segundo lugar tentando vencer o campeonato.

Tomamos algumas cervejas, damos risadas de alguns vídeos bizarros poloneses e brasileiros e vamos dormir tão cedo quanto a noite anterior.

A terça começa um pouco mais tarde que a segunda. Vamos até o local de registros com o Lada e meu amigo pede para dirigir. Sofre com a direção dura, a embreagem funda e o freio lento, mas chegamos inteiros. Retiramos as placas e fazemos o registro. A funcionária, ao saber que um italiano, com carteira de motorista brasileira estava se registrando na Polônia para comprar um Lada, não se conteve e riu baixinho. Era uma situação muito absurda para ficar impassível. Os três rimos um pouco e documento temporário em mãos, o carro finalmente era oficialmente meu. Trocamos as placas e voltamos até a loja de câmeras para ver como andava o processo.

A câmera havia chegado, mas não as lentes e as baterias. Compro a câmera, os cartões e tenho que ficar mais um dia para esperar os outros produtos.

Era aniversário de Wojciech e decidimos ir tomar umas cervejas na beira do rio com alguns de seus amigos. Patinhos no rio, muitos jovens bebendo e se divertindo. Mas ele tinha que trabalhar no dia seguinte bem cedo então não demoramos a voltar ao apartamento.

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Os aniversários aqui são bem tranquilos, pelo jeito. Tão tranquilos que nem sequer têm música para cantar. É só “feliz aniversário” e “que você viva mais 100 anos”. Achei meio triste.

No dia seguinte Wojciech sai cedo para trabalhar e eu fico no apartamento. Decido dar um tapa na casa, já que eu tinha tempo livre e queria retribuir toda a ajuda. Aproveito para também procurar em outras lojas da cidade os produtos que queria. Encontro uma lente numa loja e aviso meu amigo. Ele diz para eu o encontrar no restaurante onde trabalha para almoçar e que depois iríamos até a loja.

Chego ao restaurante, super chique, e ele me traz umas tostadas com rosbife e rúcula. Apesar de não gostar de rúcula, como mesmo assim e no contexto ficou muito bom. Depois vamos até a loja, num shopping afastado da cidade, e ficamos sabendo que não tinha lente coisa nenhuma. Decido comprar os filtros UV e um monopé, que estavam baratos. No caminho de volta, passamos no estádio do outro time da cidade, o Warta Poznan. Um estádio bem simples para um time bem pequeno e que ganhou notoriedade por conta de sua antiga presidente ser uma celebridade no país, inclusive saindo na revista Playboy local. O time ganhou o machista título de “time com a presidente mais gostosa do mundo”. O machismo é internacional mesmo.

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Voltamos ao apartamento e descansamos um pouco. Eu aproveito para arrumar as minhas coisas, na esperança de que iriam ligar da loja e avisar que os produtos chegaram. Não ligaram.

A noite cai e é muito provavelmente minha última na Polônia. Peço para irmos ao centro beber uma cerveja. Não podia ir sem uma despedida. Foram altos e baixos, mas foram duas semanas bem intensas. Nem sequer havia começado a viagem oficialmente e já estava me sentindo uma nova pessoa. Tantas pessoas novas me apoiando, ajudando, acreditando na minha ideia que até então é somente uma ideia, nada de concreto.

Nesse momento eu os deixo por aqui e vou me arrumar para ir me despedir da Polônia. Amanhã tudo recomeça. País novo, língua nova e finalmente a viagem propriamente dita começa.  Até a próxima.

A primeira semana.

Na quinta, dia 24, acordei tarde. Apesar de ter ido dormir cedo, foi bem difícil pegar no sono. Fiquei deitado por dez horas e não dormi nem a metade delas. Já não havia dormido direito as duas noites anteriores também. O nervosismo era grande.

Levantei as 10h e fui comer alguma coisa. Ligo o computador e vou beliscando alguma coisa. Minhas malas estão espalhadas pela sala, tudo ainda um pouco de ponta cabeça. Apesar de estar tudo lá, não conseguia fechar as duas malas e dizer “pronto, agora vai”. Faltava alguma coisa. Sempre falta.

A ansiedade vai crescendo. Meu pai chega ao meio dia e almoçamos. Um amigo vem visitar de última hora para me dar um abraço. As despedidas, que já duravam quase uma semana, estavam acabando. Dou um abraço no meu amigo e um beijo na minha irmã e começo a colocar as coisas no carro.

Apesar de ser só cinco meses, a sensação de “a última vez” para tudo é estranha. Tranco a porta, fecho o portão e me pego pensando quando vou fazer isso de novo. Uma coisa tão boba quanto isso, mas que nesse momento toma uma proporção exagerada. Me lembrei de quatro anos atrás, quando fiz o mesmo antes de ir morar na Lituânia e vi o Peter, meu cachorro, pela última vez antes dele morrer, menos de um mês depois que parti. Não era o mesmo, mas ao mesmo tempo era um pouquinho.

Penso na namorada. Nos meus pais. Na minha vó, meus tios, primos, amigos, ex-colegas, inimigos. Eram só cinco meses, por que tanta preocupação?

Vamos seguindo pela cidade. Pegamos minha mãe no centro e o caminho até o aeroporto nunca foi tão curto.

Chegamos e foi um abraço rápido, mas que me arrancou algumas lágrimas. Agora era eu e o meu destino. “Um vazio se fez em meu peito e de fato eu sinto em meu peito um vazio”, já diria Cartola. Foi inevitável fazer o check-in cantarolando, de uma forma um pouco melancólica porém, essa música que sempre achei tão linda, mas que naquela hora me machucava a alma.

Quinta a tarde, aeroporto cheio, fila enorme para passar pela imigração. “Imagina na Copa”, pensei ironicamente. Foda-se a Copa, falei baixinho. Alguém ouviu talvez, não sei. Foda-se. Desculpem os palavrões. Estava nervoso.

Pergunto para uma funcionária se com o meu passaporte italiano eu poderia pegar a fila dos estrangeiros, que estava literalmente vazia. Ela diz que sim e eu vejo a cara de ódio das pessoas ao meu redor. Eu também teria ficado. Me odiei um pouquinho, mas nunca fui santo.

Assim que passei pela policial federal que educadamente me disse que o que eu havia feito não era errado, me fazendo voltar a gostar de mim, sou parado por uma argentina perdida, procurando seu voo. Em menos de uma hora já estava falando o meu reconhecido portunhol. Descobri que ela estava no portão errado e gostei de mim um pouquinho mais. A angústia ainda estava alta, mas começando a aliviar.

Sento e decido ligar para minha namorada. Talvez não deveria ter feito isso, talvez teria me arrependido para sempre se não o tivesse. Choro um pouco mais e desligo o celular. Apesar de estar ainda no Brasil, já me sentia fora dele. Não fazia mais sentido ficar com o celular ligado.

Embarque, avião cheio, lugar no corredor. Quis matar a funcionária que me colocou lá. Eu tinha pedido janelinha, cacete. Janelinha, sempre janelinha.

Fico esperando para ver quem seria a pessoa que sentaria do meu lado. Nunca fui de ficar encanado em sentar do lado de alguém legal e não foi diferente. A porta fecha sem ninguém se sentar ao meu lado. Não odiava mais a funcionária.

Dez horas de voo, três filmes assistidos, umas 30 músicas ouvidas, mais duas séries. Sono que é bom, nada. Chego em Madrid as 6 da manhã.

Dou uma enrolada no aeroporto até as 9h. Decido ir para o centro. Pergunto, dessa vez com o meu “êfpaniol mafdrifdlenio” como chegava onde pretendia ir e descubro uma alternativa mais barata da qual eu havia pesquisado pela internet. Ir de trem, ao invés de Metro. A passagem era 2,50 euros e não os 4,50 do Metro. Compro a passagem de ida e volta. Vou para o trem. Lá eu descubro que a linha do trem não passa pelo Aeroporto T1, onde pegaria o outro voo, e me sinto a pessoa mais idiota do mundo.

Chego em Nuevos Ministerios, acho a loja que havia pesquisado os preços anteriormente e os preços estavam um pouco mais baratos que pela internet. Já não me sentia mais idiota por ter perdido 2 euros.

Já tinha feito o que precisava fazer e ainda tinha muito tempo de sobra antes do outro voo sair. Dou uma volta nas ruas próximas da estação. Vejo muitos mendigos, em sua maioria estrangeiros, mas havia alguns espanhóis. Duas senhoras me param e querem que eu responda uma pesquisa, digo que não sou espanhol mas elas dizem que o meu espanhol era bom o suficiente para responder a pesquisa. Fico feliz e aceito, mas infelizmente eu tinha que ser morador de Madrid. Valeu pelo “elogio”.

Compro um salgadinho, pão e jamón. Afinal, estava na Espanha. Jogo tudo na mala e vou para o aeroporto. Ainda tinha mais 3 horas até o meu voo. Sento em frente ao balcão da companhia e faço o meu almoço.

Vejo vários muçulmanos indo para o Marrocos. Depois franceses voltando para Paris. Mallorca, Pisa e finalmente aparece “Cracovia” na telinha do balcão. Chegou a hora. Faço o check-in e vou até o portão.

Um atraso de leve para sair que é compensado durante o voo e as 20h estou em solo Polonês. No voo de 3 horas finalmente consegui dormir. Mas foi aquele sono da exaustão, fora de controle. Não é um sono gostoso.

As 21h chego no Hostel, largo minhas coisas, tomo um banho e só me aguento acordado para avisar que cheguei. Era a primeira vez que tinha internet desde que havia saído, 28 horas antes. Desmaio.

No segundo dia acordo cedo. Meu amigo, Tomek, que havia conhecido 4 anos antes na Lituânia, está dormindo na cama abaixo. Ele chegou enquanto eu dormia e não quis me acordar. Aos poucos todos vão acordando no quarto e ele levanta. Trocamos um abraço e fomos tomar café.

Falamos sobre o que faríamos no dia e sobre os meus planos com o carro e a viagem. Saímos umas 11h e fomos andando até o centro. Lá encontramos Kasia, outra amiga da época do intercâmbio em Vilnius.

Sentamos num restaurante e, finalmente, peço a primeira cerveja da viagem. Já era mais de meio dia, então não me senti mal. Um pouco depois chegam Beata e Gosia, outras amigas que não via a 4 anos. Ficamos por lá mais um tempo e decidimos ir comer Zapiekanka.

Fomos até Kazimiersz, o bairro judeu sem judeus, de Kraków. Comemos e fomos até um bar-barco no rio Vístula, bem ao lado da Torre Wawel. Um pouco depois chegam Samuele e Asia, mais amigos de 4 anos atrás. O encontro estava completo e as cervejas iam rolando.

Aos poucos chegam mais amigos de Tomek, que eu não conhecia, e os meus amigos iam embora. Ficamos só eu, ele e seus amigos. Mais cerveja e um convite para ir até a casa de um deles assistir a luta de Viktor Klitschko.

Mais cerveja, pizza polonesa e boxe. Já eram 2 da manhã e eu não fazia mais a menor ideia do que estava acontecendo.

De volta ao Hostel, 3h, e bora dormir. No dia seguinte iríamos para Zabrze, sua cidade, onde eu compraria o carro.

Acordo de ressaca no terceiro dia, mas não tinha tempo para passar mal. Tomo um banho, café, como, pego as coisas e corre pra rodoviária. 13h e já estamos na nova cidade. Charmosa, especialmente num Domingo ensolarado.

Já fora da zona turística que estive desde que saí do país, as pessoas já começaram a olhar mais. Já não era mais um entre tantos turistas.

Chegamos até o apartamento do meu amigo, num tradicional bloco de prédios da época comunista. Apartamento pequeno mas muito confortável. Conheço seus pai, Grzegorz, um professor de educação física e treinador de corredores, e sua mãe, Krisztina, professora de matemática. Peço um tempo para deitar e descansar antes do almoço e então a ressaca, que estava escondida atrás de uma agitação, reaparece. Começo a passar um pouco mal.

Tomek me traz uma sopa de tomate com arroz que estava muito gostosa, pena que eu estava mal. Tento ao máximo comer, mas o enjoo não me deixou comer tudo. Decido tomar um banho e deitar. As 15:30h saímos para encontrar o Lada.

A casa onde ele estava era em Ruda Slaska (se lê Suonshka ou algo do gênero). Em 20 minutos estávamos lá e foi inevitável ver aquele carro verde estacionado na rua. Descemos e antes de avisar que chegamos, demos uma inspecionada. O carro não estava tão lindo quanto nas fotos, mas ainda estava muito bonito. Alguma ferrugem aqui, uma parte solta ali. Faltava um outro negocinho aqui também, outro lá. Era hora de ver por dentro.

Chamamos o dono e veio um polonês de não mais de 35 anos e bem forte. Cumprimentou a todos e Grzegorz começou a fazer as perguntas enquanto Tomek ia me traduzindo.

O carro havia sido dado a ele como parte de um pagamento de um serviço e que o antigo dono era o único até então. Ele mesmo nunca havia usado o carro então não sabia bem do seu estado. Entramos e demos uma volta no quarteirão. Para mim o carro andou como um carro novo. Suave, sem trancos e balanços. Gostei.

Voltamos ao lugar de partida e começamos a discutir as condições do carro, preço e documentações. O dono nos disse que precisava trocar o óleo do carro e também que havia uma revisão obrigatória a ser feita. Combinamos que ele a faria na manhã do dia seguinte, segunda, e que nos encontraríamos depois para fechar negócio. Ele ofereceu um desconto interessante e fiquei empolgado com a ideia.

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Voltamos para o apartamento e descansamos um pouco mais. Grzegorz então começou a procurar outros carros na internet e tentou me fazer mudar de ideia em comprar o Lada. Expliquei que sem o Lada não havia viagem, pelo menos não nos moldes que eu queria, e que se fosse com um carro qualquer, seria uma viagem qualquer. Ele riu e entendeu.

A irmã de Tomek, Anja, e seu namorado, Arek, chegam ao apartamento, trazendo Zula, sua vira-lata pretinha. Converso um pouco com eles sobre a viagem e após o susto inicial, eles acham a ideia interessante. Logo Tomek me avisa que seus amigos querem nos encontrar para tomar umas cervejas e na hora meu cérebro disse sim, mesmo com um não gritante do meu estômago.

Encontramos seus amigos, Adam e Kasia. Tomo minha primeira cerveja e me arrependo profundamente de o ter feito. Doo a minha outra a Tomek, que não hesita em aceitar.

Voltamos por volta da meia noite e fomos dormir. O dia seguinte seria muito importante.

Na manhã do quarto dia acordo muito nervoso. Ainda estava muito cansado da viagem, da ressaca e do sono atrasado. Mas, de novo, não havia tempo para passar mal. Dessa vez Tomek tinha que ir trabalhar, afinal já era segunda-feira, e seu pai e eu iríamos encontrar uma aluna dele, que seria nossa intérprete.

Pegamos Monika no centro de Zabrze e fomos até Ruda Slaska. No caminho explico para ela sobre a viagem e mais uma vez, após o susto inicial, ela gosta da ideia.

A negociação foi rápida. Sentamos, Lux, o nome do dono do carro, preencheu umas fichas e ia conversando com Grzegorz sobre os documentos e seguro. Enquanto isso Monika ia, meio sem entender muito bem o assunto, me traduzindo tudo. Negócio fechado, documentos e chaves em mãos, era hora de, finalmente, dirigir o Lada pela primeira vez.

Já comecei me embananando todo com a chave. Depois com o ajuste do banco e, por fim, em engatar a ré. Mas deu tudo certo.

Não tenho uma experiência muito grande em dirigir carros velhos, como contei nas minhas experiências automobilísticas. Ao tentar virar o volante pela primeira vez, me senti abrindo a escotilha de um submarino afundado da segunda guerra mundial. De repente o Fusca 1973 que eu tive pareceu uma Ferrari. Pelo menos não era tão barulhento quanto o Fusca.

Vou seguindo Grzegorz e Monika até a loja de peças automotivas. Compramos óleo e filtro novo e então vamos até um posto de gasolina. O carro estava na reserva sabe-se lá desde quando.

Depois de encher o tanque fomos até a oficina mecânica perto do apartamento de Tomek. Quando Grzegorz anunciou que precisava trocar o óleo de um Lada, todos os mecânicos gargalharam. Quando souberam da minha viagem, então, teve um que quase mijou nas calças. Me senti um lunático.

Ergue o carro, tira o óleo. Enquanto isso dão uma checada na parte de baixo do carro. Todos comentam que, para um Lada de 33 anos, o estado era muito bom. Mas uma saliência num dos pneus chamou a atenção e ficou decidido que precisaria ser trocado.

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Baixa o carro, troca o pneu. O estepe estava em melhor estado e foi para o lugar do anterior. Abre a tampa do motor e começa a inspeção. Chega Zbginiew, um mecânico mais experiente.

Lanterninha aqui, fuçadinha ali. Zbginiew encontra um vazamento no carburador. Não faz uma cara boa e me diz, em inglês, “change it”. Pairou a dúvida no ar: onde encontraríamos um carburador de Lada 1981? Ele me diz que iria abrir e checar se havia jeito e que enquanto isso poderíamos ir para casa. Monika, a essa altura, não fazia a menor ideia do porque estava lá.

Mais uma vez no apartamento, Grzegorz nos deixa com Kriszitna e vai trabalhar. Eu, Krisztina e Monika conversamos sobre o estado do carro, a viagem, comidas típicas da Polônia e tantas outras coisas. Comento que Zapiekanka e Pierogi eram meus favoritos e logo tinha a mesa três tipos diferentes de Pierogi. Me senti querido.

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Grzegorz volta e dessa vez é Krisztina que tem que ir trabalhar. Professores nunca têm um horário fixo de trabalho, seja no Brasil ou aqui na Polônia. Em pouco tempo nos ligam da oficina e vamos os três de volta para lá.

Zbginiew me mostra o carburador e o miolo velho. Coloca um novo, limpa bem as ferrugens que estavam nas peças e diz “now, good, no change”. Ele percebe que eu fiquei interessado por um carro branco que estava estacionado e me pede para entrar nele.

O carro é um Syrena. Feito na Polônia nos anos 1960 e 1970. Pergunto se é dele e ele diz que não, mas que havia tido um e que ia todos os anos passar o verão em Varna, Bulgária, uns 1500 km dali. “Mecânica simples, quebra, fácil de consertar”, me disse, em seu inglês interessante. Descemos.

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Enquanto isso, Tomek chega, voltando do trabalho, e seu pai e Monika partem. Já eram 16h. Pergunto sobre os freios e se era possível testá-los. Ele me diz que sim, mas só no dia seguinte.

Zbginiew me dá uma aula de mecânica antes de irmos embora. Agradeço muito, pago pelos serviços até então e vamos embora. Tomek já estava começando a ficar nervoso. Seu time iria jogar em poucos minutos e ele não queria perder o jogo por nada.

Corremos até o apartemento. Deixamos o Lada e subimos. Comemos algo rapidamente e desce de novo para ir ao bar. Sem carro, claro. Lá encontramos Adam e Kasia novamente.

O bar era um antigo restaurante brasileiro. Havia um mapa do Brasil em mármore na entrada que ficava meio sem sentido com o restante da atual decoração. Pegamos uma cerveja e a partida começa.

O jogo foi entre Górnik Zabrze e Pogón Szczeczin. Foi lá e cá e acabou 2 a 2. O jogo foi fora de casa e contra um time em melhor situação no campeonato, então não foi um resultado de todo ruim. Nós quatro vamos embora.

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Decidimos fazer o mesmo da noite anterior e comprar umas cervejas para beber em frente ao prédio. Dessa vez não estava mais passando mal e bebi mais. Eles pedem para ver o carro e Adam me diz “que belo abridor de garrafas você comprou”. Rimos bastante, tiramos algumas fotos com o carro e fomos tomar nossas cervejas.

No dia seguinte, o quinto, acordamos cedo novamente e levamos o carro de volta ao mecânico, para fazer o teste nos freios. Dessa vez era outro mecânico e que sabia falar um pouco de inglês. Deixo as chaves e eu e Tomek voltamos ao apartamento a pé.

No apartamento, Grzegorz nos espera e Tomek vai trabalhar. Logo Grzegorz também precisa sair e eu fico sozinho por lá por algumas horas. Aproveito para fazer contas e cálculos dos gastos e para escrever um pouco sobre a viagem. A internet não funciona direito e não consigo abrir o blog. Decido então só escrever e tirar o atraso.

Grzegorz vem e vai do apartamento algumas vezes enquanto eu fico no sofá escrevendo e assistindo um pouco de TV polonesa. A ansiedade em ter logo o carro é grande.

No final da tarde Tomek volta do trabalho e decidimos ir até Gliwice, uma cidade vizinha, para assistir o jogo entre Real e Bayern. Lá, sua irmã e o namorado nos encontram e jogamos uma longa conversa fora.

Já estamos no sexto dia e nada do carro ficar pronto. Tomek vai trabalhar cedo e me avisaria caso o mecânico desse o ok. Mantenho a esperança de poder ir a Poznan ainda na quarta-feira, mesmo que no dia seguinte fosse feriado e não mudaria muito os planos quanto à documentação.

As horas passam e nada do carro. Tomek me diz para ir pessoalmente lá, já que o rapaz que estava cuidando do carro agora falava inglês. Faço isso e quando chego lá, encontro Grzegorz, que teve a mesma ideia. O carro estava finalmente pronto.

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Voltamos até o apartamento e enquanto arrumava minhas malas, Krisztina pediu para que eu fosse somente no dia seguinte, para evitar pegar a estrada a noite. Não precisei pensar duas vezes e aceitei.

A noite vamos até Katowice, outra cidade da região, a capital da Silésia. Lá encontramos Olia, uma ucraniana que vive por lá a uns anos já. Conversamos sobre a situação na Ucrânia, minha viagem e tantas outras coisas. Apesar de eu ter que pegar a estrada no dia seguinte, não resisti e tomei umas cervejinhas.

No dia seguinte acordo um pouco mais tarde e chega a hora de deixar Zabrze e partir para Poznan. A primeira aventura oficial com o carro. Mas essa eu conto só depois.

Cheguei

Após quase 30 horas de viagem, cheguei na Cracóvia.
Foram 10 horas até Madrid, mais 10 horas por lá esperando o próximo vôo até onde estou.
Aproveitei para comprar os microfones para a câmera e um hd externo para guardar a enorme quantidade de material que vai sair dessa viagem.
Cheguei aqui, tomei um banho e desmaiei. Só agora consegui ter uma mínima lucidez para escrever algo, mesmo que só isso.
Mas raiou o dia por aqui e no final dele falo mais como andam os preparativos para a compra do carro.

Experiências automobilísticas, parte final – Século XXI

Continuando a “saga” – se é que dá para chamar assim uma experiência automobilística de alguém que nunca teve um carro – chegamos no século XXI.

Seguindo a deixa da terceira parte, em 1999 trocamos o Tipo mpi 1996 por um Escort GLX verde 1997.

O Escort foi, sem dúvidas, o melhor carro em termos de motor que já tivemos. Tinha o famoso “Zetec Rocam” 1.8 16v e 116 cv. Quebrou a série de carros 1.6 que já durava uma década.

Esse motor era ágil e extremamente econômico. Fazia 18km por litro na estrada e tranquilos 12 na cidade. E era um 1.8!

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A cor e o modelo eram iguais esse.

Com ele fizemos duas grandes viagens. A primeira, no mesmo ano que o compramos, fomos conhecer o Pantanal sul-matogrossense e chegamos até a dar um pulinho em Puerto Suarez, Bolívia. Era a primeira vez que colocava os pés em outro país desde que havíamos voltado da Itália, 6 anos antes.

A segunda viagem foi para a Chapada da Diamantina e Abrolhos. Porém o carro não chegou até a segunda parte da viagem. Explico.

No dia das mães de 2001, viemos a São Caetano do Sul, onde mora minha vó materna. Na volta estava aquela garoa deliciosa que só o bom paulistano, seja ele de São Paulo ou não, conhece. Aquela garoa que não molha, suja. E estávamos na Farah Maluf, tentando chegar na Marginal. O farol estava fechado e meu pai vinha seguindo. Os carros estavam parados logo a frente. Ainda faltavam uns 50 metros para chegarmos ao primeiro carro parado no farol, um Corsa, e meu pai parou de acelerar, na tentativa de esperar o farol abrir e não precisar parar o carro. E o farol abriu. O Corsa saiu e meu pai não freou, mas o Corsa logo parou. O carro havia morrido. Meu pai freou então e o carro deu aquela deslizada na gosma que se forma na pista quando garoa em São Paulo. De repente 50 metros pareciam 50 centímetros. Batemos.

Não foi uma batida forte, mas foi uma batida. Lembro de descer do carro e ir correndo ao carro da frente para ver se tinha acontecido alguma coisa com o motorista. Não havia, ainda bem. E então se seguiu aquela chatice toda de ligar para seguro, esperar vir o guincho. E estávamos a 130km de casa. Bora esperar o táxi da seguradora e umas boas quatro horas mais tarde conseguimos chegar em casa. Que dia das mães.

O carro foi consertado. Tudo OK. E no meio do ano fomos, com o carro recém saído da funilaria, para a nossa aventura baiana. O carro suportou tudo muito bem. Chegamos até Lençóis sem maiores problemas e conhecemos a absurdamente maravilhosa Chapada.

Ainda tínhamos mais uns 10 dias e decidimos tomar o rumo para Abrolhos. A estrada que leva Lençóis até a capital é a BR-242 que, somente agora descobri, se chama Rodovia Milton Santos, em homenagem ao, pasmem, Geógrafo Baiano nascido em Brotas de Macaúbas na Chapada Diamantina, e não, como o atento leitor deve ter pensado, ao ex lateral esquerdo do Botafogo Nílton Santos.

A estrada era, assim como boa parte da malha viária nacional, um tanto esburacada. Corre um poquinho, freia, desvia do buraco, corre mais um poquinho, pega um buracão, freia, desvia do próximo, corre mais um pouco. Após algumas centenas de quilômetros rodados, o carro superaquece e pára. Não liga mais. Pânico.

A cidade mais próxima estava a dezenas, se não centenas, de quilômetros de distância. Qualquer posto de gasolina também. Toca meu pai pedir ajuda para algum carro ou caminhão passando e nós esperando por lá.

Algumas horas depois, meu pai volta dizendo que um táxi estaria vindo nos buscar e que o carro seria rebocado. Esse táxi nos levou até Santo Antônio de Jesus, onde dormimos e fomos para Salvador no dia seguinte. O seguro havia reservado passagens de volta para São Paulo. Que chique, apesar dos pesares.

O carro voltou de cegonha dias depois e foi direto para o mecânico, o mesmo que havia consertado o carro alguns meses antes. E ele identificou o problema. Uma mangueira – não me pergunte qual – havia sido colocada de forma errada junto a uma parte da funilaria que, com o balancê-balancê da buraqueira fez com que a mangueira fosse cortada e consequentemente fizesse o carro superaquecer. E bateu o martelo: motor fundido.

Meses parado e, apesar do seguro chique pagar as passagens de volta, rebocar o carro por mais de 1500 km, ele não daria um carro extra até o nosso ser consertado.

Qual a solução que meus pais acharam para não ficar sem carro? A mais óbvia de todas. Comprar um Fusca 1973!

O fusca foi onde eu realmente aprendi a dirigir. O fusca que você dava seta para a direita, ele dava seta para a direita, você dava seta para a esquerda e ele dava seta para a direita. O fusca que se você colocasse a primeira com um pouco mais de força, engatava a ré. O fusca que a maçaneta da porta do motorista só abria por fora. Resumindo, ele era O fusca.

Pela segunda e última vez na nossa história automobilística, tivemos dois carros. O Trovão Azul – e engana-se quem pensa que era porque ele era rápido, até porque não era, mas sim pelo fato de emitir um barulho constante semelhante ao de trovões – ficou conosco por uns bons anos, tapando os buracos quando algum outro carro nos deixava na mão e, bem, nos deixando na mão sempre que precisávamos.

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A cor era um pouco mais escura e ainda tinha insulfilm nas janelas.

Minha irmã mais velha, que na época da nossa nova aquisição estava em vias de tirar a habilitação, teve a honra de herdar o coche. E fez bom uso. Os trajetos Tremembé-Taubaté nunca mais foram os mesmos.

Mas havia um pequeno problema. A grana era curta e a gasolina era cara. Enquanto esteve conosco, o Trovão Azul nunca nos ouviu dizer “Completa gasolina, por favor?” num posto de combustíveis. No máximo era um “põe 20 de gasosa”. Nunca tivemos nem ideia do quanto ele consumia, mas ele era um beberrão, sem dúvidas. Íamos pelo cálculo base de 10 km/l, que ele nunca fez, mas a gente tinha uma confiança de que ele faria algum dia. E com esse cálculo base que íamos abastecendo ele, sempre deixando ele na reserva, que por sinal não acendia a luz – estava quebrada.

Numa fatídica noite, minha irmã voltava de uma festa e sentiu o Fuqueta dar aquela tossidinha. Das duas uma, ou havia chegado sua hora e ele teria um infarto fulminante, ou estava precisando de gasolina. Ela parou no primeiro posto que viu. Chegou o frentista e perguntou “quanto, moça?”, minha irmã abriu a carteira e, um pouco decepcionada, respondeu “50 centavos, por favor”. Diante da incrédula face do frentista, que após abastecer os míseros 50 centavos em gasolina retornou ao carro, recebeu de volta a chave e ao invés do clássico “obrigado e até logo” teve como diálogo final um “boa sorte”. O carro chegou em casa, a dignidade talvez tenha ficado no posto.

Ela o levou para Campinas quando foi fazer faculdade e fiquei uns anos sem vê-lo. Só retornou quando eu já estava habilitado e minha irmã o trouxe de volta após ficar cansada de ter um carro parado na garagem. Foi a minha vez de usufruir da miríade de possibilidades que um Fusca 1973 poderia me propiciar.

Em minhas mãos ele raramente quebrou. Só alguns pequenos incidentes como engatar a ré sem querer e andar para trás na avenida mais movimentada de Taubaté, sem querer claro, e uma pane elétrica que fez com que a seta para esquerda se tornasse seta para direita, me forçando a sempre virar a direita, porque me sentia mal em querer virar a esquerda e não poder indicar. Sim eu sou um nóia da seta, eu assumo.

Mas foram poucos meses comigo, já que eu só voltava para o interior nos finais de semana – já havia “voltado” a São Paulo para a faculdade – e nos meses de férias. Logo meus pais venderam e nunca mais tive o “meu” carro.

Após o Escort, que praticamente nunca voltou da oficina, meu pai teve o seu primeiro carro 0km da vida. No final de 2001 comprou o recém chegado e aclamado Focus. O motor era ainda mais forte que o do Escort. Era um Zetec Rocam 2.0 de 130 cv (ou algo do tipo), mas não tinha o mesmo consumo que o anterior.

O Focus era sedan e pela primeira vez, além das quatro portas, tínhamos vidros elétricos atrás também. Glória! E, para melhorar ainda mais, o carro vinha com CD Player de série, nosso primeiro rádio assim. Era muita alegria para um adolescente só.

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O Focus era igualzinho esse.

Com ele fizemos viagens para Minas Gerais, passando pela Serra do Cipó, Conceição do Mato Dentro e Diamantina, para Brasília e Chapada dos Veadeiros e para Abrolhos, que queríamos ir desde o problema com o Escort.

Em 2004 um novo carro zero, dessa vez mais um lançamento, a Ecosport. Muita banca, pouco carro. Meu pai ficou bem decepcionado. Achava que era um jipe e era um Fiesta mais alto.

Em 2008 veio o Honda Fit, quebrando a sequência de Fords. Carrinho pequeno mas muito gostoso de dirigir. Tivemos alguns problemas, especialmente quando o bloco que sustentava o motor quebrou e o motor afundou. Mas tirando isso, foi um carro legal.

Em 2011 fizemos nossa viagem mais longa dentro do Brasil. Saímos de São Paulo e fomos até Carolina, no sul do Maranhão. Visitamos a Chapada da Mesas e depois o Jalapão, em Tocantins. Mais de 5 mil km em um mês.

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Nós, menos eu, em Carolina – MA. E meu pai de sunguinha. Pelo menos não é branca.

E nosso atual carro, trocado ano passado, um Nissan Versa.

 

Um carro só meu, em meu nome, comprado com meu dinheiro, nunca tive. E pretendia continuar assim por um bom tempo. Mas chegou a hora. Sempre há uma primeira vez e essa é a minha. Vou comprar um Lada 1981 na Polônia e dirigi-lo por 10000 km entre 22 países no Leste Europeu.

Nada mau para um primeiro carro, não?

Experiências automobilísticas, parte 3 – A volta ao Brasil.

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Assim que o Collor vazou e o malfadado plano que levava seu nome foi finalmente expurgado da política econômica nacional, nos sentimos a vontade para voltarmos.

Apesar da boa vida que tínhamos na Itália, não havia muita perspectiva em crescer e, afinal de contas, o nosso país é e sempre foi o Brasil. Por isso meus pais não tiveram que pensar muito em voltar quando as coisas por aqui começaram a se ajeitar.

Minha mãe pôde voltar ao antigo emprego, pois a licença não havia expirado ainda. Meu pai conseguiu um emprego temporário numa pesquisa coordenada pelo SEADE, graças a um amigo da época de faculdade que trabalha lá. Anos depois eu estagiei no mesmo SEADE por quase dois anos.

Enquanto isso, os dois começaram a estudar para concursos públicos. E nesse tempo o nosso carro foi um Gol azul bem, mas bem velho. E como esse carro deu problema.

A nossa sorte é que morávamos num morro e sempre que o goleta encrencava, era só empurrar ele que o morro ajudava a fazê-lo pegar no tranco.

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O goleta era bem parecido com esse, só que bem malhado. Lembro que o tom de azul era igualzinho esse. O ano era 1983.

Esse aí não durou muito não. Ainda bem. Meu pai ficou tão de saco cheio de ter que sempre estacionar ele de ré na garagem para deixar mais fácil o tranco no dia seguinte que vendeu aquela caixa de fósforos azul e arranjou um melhorzinho.

O “melhorzinho” era um Verona 1990, cor-de-burro-quando-foge. Aí nós entramos no seletíssimo hall de proprietários de carros dos anos 90. Estávamos dando um passo acima no nosso nível de vida.

Eu lembro tão bem do Verona, mas tão bem, que até a placa eu ainda lembro. YY-2937. E nós já estávamos em 1994.

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O Verona era igual esse, duas portas e essa cor meio prata, meio dourada, meio cor nenhuma.

Com esse carro na garagem, meus pais conseguiram passar juntos no mesmo concurso e começaram a trabalhar para o governo estadual. O escritório não era em São Paulo, era em Taubaté, a uns 130 km de onde morávamos. E por uns bons meses eles fizeram bate e volta todos os dias para irem trabalhar.

Em 1995 eu já estava prestes a fazer oito anos e nós arranjamos uma casinha na aprazível cidade vizinha a Taubaté, Tremembé. Uma rua sem saída nos cafundó da pequerucha cidade que, à época, mal tinha 35 mil habitantes. Ou seja, movimento zero e uma chance única de crescer brincando na rua.

E foi assim que cresci. Chegamos no começo do 1995 nessa ruazinha e só fui sair de lá dez anos mais tarde, quando retornei a São Paulo para fazer faculdade.

Mas voltando ao Veroninha, ele infelizmente não durou tanto assim. Em 1996, meus pais estavam procurando uma casa para comprar, já que a casa que estávamos era pequena e não tão confortável. No final da mesma rua havia uma casa em construção que estava abandonada a um certo tempo. Meus pais fizeram um rolo, compraram a casa e deram como parte do pagamento o nosso querido Verona 1990 cor-de-burro-quando-foge.

O carro seguinte foi um velho companheiro que meu pai adorava, uma Belina. Mas era uma mais nova que a antiga, perdida no acidente com o fusquinha da Polícia. Era uma Belina Del Rey 1988, azul metálico. Carro grande e bacana que ficou com a gente por uns anos.

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Em 1997 mudamos para a nossa nova casa. Mais ainda no final da rua sem saída, a casa era rodeada de terrenos e não tínhamos vizinhos ao redor. Era tão, mas tão silencioso e calmo que eu, que sempre tive sono leve, acordava com o barulho dos mugidos das vacas, dos coaxares dos sapos e dos cachorros de rua se atracando em brigas. Rapaz, como esses cachorros da minha rua brigavam.

Falando em cachorros, a Giulinha – que pode ser vista sendo segurada pela minha irmã na parte 1 do post – já estava com quase 8 anos. No ano anterior ela havia dado a luz a 12 filhotes. Nós pegamos um para nós, o Peter.

O Peter adorou a nova casa. Um jardim enorme. Um portão com vãos grandes o suficiente para que ele criasse uma técnica para pular e ficar na rua o quanto quisesse. E nós, morando no final de uma rua sem saída numa cidade de 35 mil habitantes, nunca nos preocupamos em ficar segurando ele em casa. A verdade é que até tentamos, mas ele soube escapar bem e sempre que ouvíamos o portão balançando, eles já estava do outro lado, saltitando em comemoração à sua liberdade.

Ele era um cachorro forte. Apesar de nanico, ele era forte mesmo. Com menos de um ano de idade, ainda na casa antiga, ele contraiu o vírus da Parvovirose e incrivelmente sobreviveu. No ano seguinte, na casa nova, ele tinha uma mania um pouco besta de ficar saltitando em frente ao carro quando meus pais chegavam do trabalho ou sempre que a gente saía. Ele sabia reconhecer o ronco do motor (ou como éramos os únicos que chegavam até o fim da rua, ele devia se ligar que era a gente) e pulava o portão para vir ao nosso encontro.

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Ele e sua carinha de coitado quando queria alguma coisa.

Mas numa dessas vezes, ele saltou e tropeçou. Meu pai não conseguiu frear – ou nem percebeu que ele havia ficado parado no meio do caminho – e passou por cima dele. Eu lembro de ouvir seu choro da sala e de sair correndo desesperado para a rua ver o que havia acontecido. A Belina havia passado por cima dele e a sorte foi que nenhuma das rodas o acertou em cheio.

O resultado foi uma pata quebrada e uma concussão. E manda ele de volta pra veterinária, Doutora Ingrid, que no dia seguinte nos ligou implorando para que o levássemos embora, pois ele estava tumultuando seu consultório. O baixinho, mesmo lelé da cuca e com a pata avariada, queria treta com os outros cachorros por lá.

Depois desse trauma com a Belina, meu pai arranjou um Tipo 1996 mpi, aquele único Tipo nacional. Adeus Belina, olá Tipo.

O Tipo, ou como meu pai gostava de chamar, “A” Tipo – pois na Itália era uma palavra feminina – era quatro portas. Finalmente o nosso primeiro carro quatro portas! Liberdade, ainda que tardia!

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A cor não era esse azul calcinha igual o da foto. Era um verde bem escuro. E era um belo carro, confesso. Tinha espaço de sobra atrás, para comportar as minhas pernas de um garoto de 10 anos, que não parava de crescer. E um rádio pioneer que, para mim, devia ser o melhor rádio do mundo.

Lembro de as noites descer até a garagem, entrar no carro e ficar ouvindo a rádio 89, que normalmente não pegava em Tremembé, mas com o alcance do tal rádio pioneer, pegava. Foi aí que conheci Pearl Jam – que na época tocava Soldier of Love e Last Kiss, por conta do disco lançado em 1999 para ajudar os refugiados da guerra em Kosovo – e tantas outras bandas. E também me tornei fã dos Sobrinhos do Ataíde.

Com o Tipo fizemos nossa primeira grande viagem em família. Fomos até Maceió para a virada do ano de 1997 para 1998.

Apesar do carro aguentar bem, ele já estava começando a desvalorizar demais e meu pai decidiu trocar de carro novamente em 1999. O escolhido foi um Escort 1997 verde.

Daí em diante eu conto na próxima parte. Essa já tá grande o suficiente.

 

 

Meu “primeiro” carro.

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Depois de falar um pouco sobre como foi a experiência na Itália, acabei percebendo que havia me esquecido completamente de falar sobre o meu “primeiro” carro.

Como disse, minha paixão por carros começou por lá. O Senna ganhando tudo na F1 e eu ganhando tudo nas minhas corridas imaginárias no chão do meu quarto. Tudo bem que uma vez ou outra eu batia o carro em algum acidente super fenomenal. Mas era só pra quebrar a monotonia de vencer toda corrida. Afinal, eu era só um ser humano.

Mas o meu sonho ainda estava para virar realidade.

Confesso que eu não lembro bem como que aconteceu, mas aconteceu. Havia um carro abandonado na casa de um dos nossos primos e eu, depois de muita insistência, consegui a autorização deles para brincar nele. Finalmente poderia sentar no cockpit, colocar meu capacete personalizado com as cores que escolhi e sentar o pé no acelerador.

Bem, não foi bem assim. Se eu alcançasse o pé no acelerador, não conseguia alcançar o volante. E sentado eu não conseguia ver nada a frente. Então inovei. Fui o primeiro piloto a dirigir em pé. Isso mesmo! O acelerador eu adaptei, era controlado pela mente. O freio? Nunca precisei.

Infelizmente eu era tão rápido, mas tão rápido, que nunca conseguiram bater uma foto minha. Nas únicas que têm, estou ensinando minha irmã a dirigir o bólido. Mas deu para ver que o mal não era de família. Ela sempre teve o braço duro.

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Aqui, como podemos ver, o carro – um Fiat 500 de mil-novecentos-e-bolinha – está prestes a entrar no pit stop. Nesse momento eu estava dando as instruções para que minha irmã pudesse manobrar o carro a fim de ajudar os mecânicos, que por azar do destino, não apareceram na foto.

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Já nessa – e infelizmente última foto registrada – eu vou para o banco traseiro para ajudar minha irmã a sair com o carro. Como disse, ela era muito braço duro. Mas eu sempre fui um irmão legal e incentivei ela. Percebe que eu sou tão legal que até troquei de capacete com ela, para que ela realmente se sentisse como uma campeã.

Foi um dia memorável.

Alguns meses depois infelizmente tive que encerrar minha promissora carreira automobilística devido a uma cirurgia que fiz no olho por conta do estrabismo de nascença. O Brasil perdeu talvez o seu melhor piloto.

Desde então me foquei como comentarista. Continuo muito promissor.

Mudança nos planos, mas só do Blog.

Estive pensando se cubro a viagem em português, minha língua materna, ou em inglês e assim podendo alcançar mais pessoas. Então decidi que farei nas duas línguas.

Esse Blog será só em português enquanto o antigo Lada Road Trip será só em inglês. Todas as publicações aqui serão traduzidas para o inglês e colocadas no blog “antigo”.

E se você ainda não curtiu a página no Facebook (que continuará nas duas línguas), vá lá e curta!

https://www.facebook.com/ladaroadtrip

 

Obrigado =)

Experiências automobilísticas, parte 2 – Itália.

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Em 1989 o país passava por um turbilhão de coisas. A ditadura havia acabado quatro anos antes mas muitos brasileiros ainda não sabiam o que era votar para presidente. A nova constituição de 1988 já estava em vigor, substituindo a antiga de 1967, aditivada pela repressão dos AI’s. Mas ainda assim a liberdade não era sentida na pele. Somente indo às urnas e escolhendo o presidente é que grande parte desses brasileiros sentiriam-se livres de verdade.

O primeiro presidente eleito diretamente pelo povo brasileiro em 29 anos foi Fernando Collor. Collor, até onde estudei, porque lembrar eu não lembro, era jovem e foi o “escolhido” pela grande mídia brasileira para ser o presidente. Tanto o foi que conseguiram.

Não quero entrar em polêmicas, portanto não vou exprimir completamente minha opinião sobre ele. Ele ter sido o presidente é simplesmente um fato importante que mudou completamente a vida da minha família.

No post anterior comentei que em 1989 minha mãe era funcionária pública e meu pai era dono de uma pequena loja de materiais de construção. Numa época de hiperinflação e instabilidade econômica severa, a construção civil não viva, nem de longe, um bom momento.

Assim sendo, a loja inevitavelmente faliu. Meu pai e seu cunhado venderam o que puderam e com a pouca grana que fizeram disso, investiram na poupança. Inclusive a Brasília Marrom foi fruto da concordata da loja. A pessoa que assumiu o ponto deu ela como pagamento.

Com o pouco dinheiro na poupança, quase nenhum em mão e uma Brasília Marrom indesejada na garagem, foi assim que entramos em 1990. E o Collor, atento à nossa situação bastante confortável, assumiu a presidência e implantou o inesquecível Plano Collor. Literalmente, de um dia para o outro, a nossa situação foi de péssima a insustentável.

Sem dinheiro em espécie, com o pouco guardado na poupança bloqueado, meu pai desempregado e minha mãe com um emprego que não pagava o suficiente para sustentar ela, marido e mais duas crianças, fomos lançados a sorte dos neo-pobres do Plano Collor.

Vendemos a Brasília, o que nos deu um alívio por algum tempo. Tempo suficiente para que meus pais traçassem o plano de fuga. Em 1989, uns parentes italianos vieram conhecer o Brasil e meu pai, autodidata em italiano, foi o guia deles.

Esses parentes eram primos de segundo grau da parte da família da minha vó que não veio para o Brasil no começo do século passado. Minha avó nunca se naturalizou brasileira e por conta disso, meu pai nasceu já com duas nacionalidades.

Com a amizade em alta, ao saberem da situação no Brasil, esses primos entraram em contato conosco para saber da nossa situação. Estarrecidos com a nossa condição, ofereceram ajuda. E que ajuda.

Primeiro pagaram uma passagem para todos nós, eu, minha irmã, meus pais e minha avó, irmos visitá-los na Itália. Uma vez que estávamos lá, eles fizeram a proposta: nos arranjariam uma casa perto deles, um emprego para meus pais e toda a assistência necessária até que pudéssemos andar novamente com nossos próprios pés.

Meu pai nem voltou, já ficou por lá. Nós voltamos e enquanto minha mãe pedia licença do emprego e colocava a casa para alugar, eu e minha irmã íamos nos acostumando com a ideia de irmos morar num país novo.

Antes de irmos, recebemos uma carta de meu pai dando as boas novas. Já havia arranjado emprego numa fábrica de móveis, alugado uma casa perto e inclusive comprado um carrinho para nós. Que rápido!

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(Na foto está meu pai, em frente ao carro. Um Autobianchi A112, de 1975, salvo engano)

No final do ano já estávamos todos juntos na nossa nova cidade, Pasiano di Pordenone, na região do Friuli, nordeste da Itália.

Meu pai em seu novo emprego, minha mãe fazendo uns bicos de diarista, eu e minha irmã fazendo novos amigos na escola. Estávamos bem, felizes, livres. Só ficou a saudade do nosso país tropical, nem-tão-abençoado-assim por Deus, mas muito lindo por Natureza.

Na Itália que comecei a me interessar por carros. Lá eles vivem isso. E eu, esponja como toda criança, fui absorvendo essa cultura.

Entre pôsteres do Rijkaard e De Boer da minha irmã, eu tinha os meus de Fórmula Uns, Ferraris, Maseratis e afins, nas paredes do nosso quarto compartilhado.

Minha paixão pela F1 e, claro, pelo Senna, começaram lá. Lembro que tinha alguns modelos Bburago de F1. O meu favorito era um verdinho que, hoje sei, era da Benetton. Mas tinha o Williams azulzinho também. No entanto arrebentei todos contra a parede, simulando corridas de verdade e os acidentes. Que arrependimento.

O Autobianchi, apesar de pequeno, era um puta carro. Viajamos muito com ele nos finais de semana. Passamos um Natal em Munique, fomos até Salzburgo e até a umas cavernas na Eslovênia, tudo isso com neve, sem correntes, e deu tudo certo.

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(Nós no Autobianchi em alguma das nossas viagens)

Meu pai inventou de querer ter dois carros (#ostentação) e comprou um carro mais novo. Uma Duna 1987. A Duna é o Prêmio, aquele Uno sedan que teve no Brasil por um tempo. Apesar de mais novo, maior e mais potente, o carro só deu problemas e durou pouco tempo. Não deixou nenhuma saudade.

Enquanto isso o Autobianchi nos aguentou firme e forte. Inclusive meu pai tentou trazê-lo ao país quando voltamos, em 1993, assim que o Plano Collor finalmente acabou. Mas infelizmente não deu.

Hoje em dia, esse carro é item de colecionador na Itália e em muitos outros países por onde foi vendido.

A marca Autobianchi foi comprada pela Lancia.

E então, após dois anos e meio no velho continente, voltamos ao Brasil.

Na próxima parte falarei sobre a volta e os carros que passaram pela minha vida até hoje.