Ljubljana, parte dois.

A marcha da maconha começaria ao meio dia, na praça em frente ao parlamento. Na noite anterior fomos dormir por volta das 5 da manhã e sabia que Boris não estava afim de ir e eu teria que me virar para ir.

Acordo meio dia e mando uma mensagem para Nikola perguntando se ele iria. Ele me responde positivamente, mas que chegaria por volta das 15h. Boris acorda mais tarde só e diz que vai visitar uns familiares, mas que me deixaria no centro.

No centro, mesmo que tarde, espero dar de cara com uma marcha, pessoas gritando, polícia ao redor olhando feio. Mas chego na praça e as poucas pessoas que foram estão sentadas no gramado, bebendo cerveja e fumando, enquanto num palco montado no centro um DJ “anima” a festa.

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Já meio decepcionado, arrumo a câmera e começo a filmar. Olho ao redor e não vejo nada de diferente entre esse protesto e um sábado a tarde normal. Penso em ir até um grupo de pessoas e fazer algumas perguntas, mas o clima era óbvio que não havia protesto nenhum.

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(A tal “Marcha da Maconha” que não era marcha)

Nikola vem ao meu encontro e comento com ele sobre a minha decepção. Ele me explica que havia 3 anos que não era realizada a marcha e que esse ano alguns patrocinadores, entre eles a Organização Estudantil de Ljubljana, deram gás ao evento, que mesmo assim não se transformou em protesto, mas sim numa festa, com pouco ou nenhum discurso político.

Decidimos dar uma volta pela cidade enquanto vou entrevistando ele. Nikola me conta sobre sua vida, a de seus pais, como chegaram até a Eslovênia e tantas outras coisas. Andamos muito e fazia muito sol. Apesar da temperatura oficialmente não ser mais que 20 graus, a sensação era bem maior.

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(Nikola)

Para dar uma refrescada, andamos pelo parque Roznik (rôjník) e depois voltamos até o centro. De volta à praça, a marcha estava em vias de acabar e o clima era o mesmo. As mesmas pessoas, nos mesmos lugares fazendo as mesmas coisas que horas antes.

Maja veio nos encontrar e decidimos ir até Metelkova para ver se lá estava mais animado.

Não estava. Apesar de ser Sábado à noite, o lugar estava quase vazio. Nem se comparava com a noite anterior. Eles me explicam que muita gente volta para suas cidades nos finais de semana e que, apesar de mais vazio que o normal, era esperado que não estivesse cheio.

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(Metelkova)

Boris vem nos encontrar, Maja vai embora, e ficamos os três por lá mais um pouco. Alexander, o fã de futebol que conheci no dia anterior, está lá e vem conversar comigo. Me apresenta outro amigo, David, que tenta me dizer que está indo à uma cidade brasileira em Agosto. Depois de umas cinco tentativas, entendo que a cidade é Pirenópolis, em Goiás. Realmente não é fácil nem para nós, quanto mais para eles falar essa cidade.

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(Alexander, à direita)

Ele toca numa banda de música tradicional eslovena e eles firmaram um acordo com um grupo artístico de Pirenópolis e farão um intercâmbio. Os brasileiros virão até a Eslovênia e eles até o Brasil. Claro que ele me pergunta sobre violência e tantas outras coisas e eu acalmo ele. Digo que vai se divertir e que poderá ter problemas somente quando for voltar, pois não iria querer.

Não demoramos muito em voltar. Deixamos Nikola em sua casa e voltamos até o apartamento. O sábado que muito prometia foi salvo pela boa entrevista que fiz com Nikola, porque a marcha em si foi fajuta demais para o meu gosto.

É domingo e Boris tem que, mais uma vez, visitar parentes. Eu havia combinado de ir encontrar Daniela, uma gaúcha que havia entrado em contato comigo meses antes, quando leu sobre minha viagem num site, e que estaria em Ljubljana mais ou menos quando eu estaria.

Encontro ela na rodoviária e damos uma volta pela cidade. Ela me conta que está viajando há mais tempo que eu ainda e que no total seriam três meses. Depois, voltaria ao Brasil por três semanas e depois iria, de mala e cuia, até Seul, onde iria dar aulas de português numa Universidade.

Aproveitamos que é o primeiro domingo do mês e muitos museus são de graça. Dica que a Maja havia me dado no dia anterior. Vamos até o Museu de Arte Moderna, que eu nunca manjei nada, e depois no Museu Nacional. Por fim, vamos encontrar Maja no museu onde ela trabalha, o City Museum.

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(Maja e Daniela)

Maja faz um tour guiado conosco, que coincide com o fim do seu expediente. Saímos os três e vem ao nosso encontro Darko, que era o rapaz que Daniela encontrou no Couchsurfing e que iria dormir em seu apartamento. Maja então nos leva até o Castelo e vai nos contando sobre a história da cidade, do Castelo e outras coisas.

No Castelo, ela encontra um amigo que também trabalha lá, Igor. Darko encontra um amigo também que, por coincidência, é amigo do Igor. Todos riem com a coincidência e alguém comenta “que mundo pequeno”. Não perco a oportunidade e solto a piadinha mais horrível possível: “O mundo não é pequeno, a Eslovênia que é”. Uns riem, outros não e eu calo minha boca.

Subimos até a torre e todos tentam nos explicar tudo possível. Até Darko e seu amigo, que não são guias.

A vista é magnífica e pudemos ver o quanto Ljubljana é uma cidade charmosa. Rodeada de montanhas, algumas ainda nevadas, a cidade tem poucos prédios altos e mantem um padrão arquitetônico. Muitos parques rodeiam a cidade também.

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(Ljubljana)

Descemos e encontramos com Miha, que também está a trabalho no Castelo. Outro que nos ajuda no tour. Mas bate às 21h e o Castelo tem que fechar. Nós sete vamos até o centro e sentamos num bar para conversarmos mais.

Darko e Daniela têm que ir. Boris me avisa que está chegando e também vamos.

No dia seguinte, eu e Daniela vamos até Bled, encontrar Greg, meu amigo russo que mora por lá. Um dia para turismo, já que nada do documento chegar ainda.

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(Bled)

Na volta, estou sem a chave e Boris me diz que não sabe quando vai voltar. Eu, Daniela e Darko, que veio ao nosso encontro, vamos jantar e experimentamos o hambúrguer de carne de cavalo. E para mim o sabor era exatamente o mesmo. Suspeito que já devo ter comido muito hambúrguer de cavalo por aí sem saber.

Darko e Daniela precisam ir e eu combino de encontrar com o Boris. Nos encontramos no bar universitário, onde está o casal de amigos dele, Urska e Jernej. Boris está de bicicleta, então eles me levam até o apartamento.

Terça havia mais um protesto a acontecer. Na semana anterior, Boris havia ligado para diversas entidades estudantis e alguns partidos políticos, convocando-os para esse protesto. O governo estava planejando acabar com o subsídio no passe mensal dos estudantes, com a desculpa de que estava ficando sem dinheiro.

Chegamos até a sede da organização estudantil, onde estava acontecendo a concentração. Não mais que 200 alunos estavam lá, esperando e comendo uns salgadinhos, oferecidos pela organização. Em pouco tempo chega um ônibus – da frota da cidade – e todos entram. Paramos próximo à sede do governo e lá marchamos, finalmente, até a rua onde fica o prédio.

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Alguns policiais, não mais que 20, estavam por perto. Os protestantes ficaram concentrados numa das calçadas e a rua em momento algum foi bloqueada – exceto quando um dos alunos foi falar o megafone e os jornalistas, que estavam em maior número que os policiais, foram filmá-lo e fecharam e atrapalharam o trânsito, praticamente inexistente, por alguns segundos.

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Gritos de guerra, apitos, faixas. Um protesto de verdade, podemos dizer. Enquanto filmava-os, uma policial veio, educadamente, pedir que eu saísse do meio da rua, mesmo que nenhum carro estivesse vindo. Obedeci.

Após uns 40 minutos de protesto, todos voltam ao ônibus, que nos deixa em frente à organização. Mais alguns salgadinhos e água e é isso aí. Boris comenta comigo que não era a melhor época para protestos, já que muitas provas finais estavam chegando e muitos alunos, especialmente de outras cidades, não quiseram participar.

Voltamos ao apartamento e combino com Boris que a noite faria um jantar para ele, Miha e Maja e que, finalmente, iria entrevista-los. Ele agradece a atitude e diz que voltaria a noite.

Vou até o mercado e compro arroz, frango, champignons frescos, umas cervejas e volto. No apartamento vou escrevendo para tirar o atraso. Sem internet não há muito o que fazer a não ser escrever. Traduzo os primeiros posts e vou escrevendo a tarde inteira.

Boris chega com Miha por volta das 22h. Começo a cozinhar e vamos todos bebendo e conversando. Maja chega logo antes de ficar pronto. Faço um strogonoff, meu primeiro, que ficou, não querendo me gabar, sensacional.

Enquanto vamos comendo, ligo a câmera e começo, aos poucos, a entrevista-los. Boris vai fazendo gin tônicas para eles e eu fico na minha cervejinha. A conversa vai rolando e conforme o álcool vai descendo, o tom vai subindo.

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Após fazer as primeiras perguntas, eles vão respondendo  e bebendo. Nem preciso mais perguntar. Eles vão falando e falando e até começam a discutir, quando o assunto chega aos colaboradores nazistas que foram assassinados sem julgamentos logo após o fim da segunda guerra.

A discussão, apesar de acalorada em alguns momentos, não criou nenhum problema. Quando o relógio bateu uma da manhã, é hora e encerrar. Poderíamos continuar por horas. Maja brinca e diz que não devia ter bebido. Boris, depois que todos vão embora, conversa comigo e insiste em seu ponto de vista. Mas logo vamos dormir.

No dia seguinte, Boris sai cedo e volta tarde. Aguardo pelo documento, mas sei que ele só deve chegar no dia seguinte ou mesmo somente na sexta. Daniela me avisa que seu ônibus para Budapeste sai a tarde e combino de ir até a rodoviária me despedir.

Antes, almoço na cidade e tento resolver umas pendências no banco. Depois vou até a rodoviária, me despeço da Daniela e do Darko e vou até o apartamento de Maja. Lá ela me ajuda com a questão do pneu do carro, que ainda não tinha resolvido.

Ligamos para umas cinco lojas de pneus e fecho negócio com a que me pareceu mais barata. No dia seguinte, de manhã, levaria o carro lá para a troca.

Uma amiga de Maja chega, vamos até o telhado, mas não por muito, pois a chuva e o vento nos afastou. Mas conto sobre minha viagem e o Brasil. Não muito depois volto ao apartamento.

Havia acordado um pouco mal e meu estômago estava estranho o dia inteiro. Não havia conseguido comer nada, mas não me sentia mal, só meio estranho. Ao voltar ao apartamento sinto um pouco de frio e decido medir minha temperatura. Estou com 38 graus de febre e não faço a menor ideia porque.

Deito e assisto um filme, quero tomar um paracetamol para ver se melhoro, mas de estômago vazio não dá. Não sinto fome ainda, muito por conta do meu estômago estar embrulhado. Só bem a noite consigo fazer um macarrão alho e óleo, só para pôr alguma coisa na barriga e então tomo o remédio e vou dormir.

E no dia seguinte acordo inteiro. Nenhum resquício da febre. Greg me liga e pergunta o que vou fazer. Digo que preciso ir até a borracharia trocar os pneus e pergunto se ele quer ir. Para minha surpresa, ele diz que sim e quer levar um amigo. Sem problemas.

Eles me encontram por volta do meio dia. Gibran é mexicano e recentemente casou com uma eslovena. Vamos o caminho até a borracharia conversando sobre a vida de um imigrante na Eslovênia.

Deixamos o carro e vamos tomar um café por perto, enquanto esperamos ele ficar pronto. Conversamos um pouco sobre política e sobre México, Brasil e Rússia e países em desenvolvimento. Mas logo temos que ir, pois o carro está pronto.

Deixo eles na rodoviária e volto até o apartamento. Pego a bicicleta de Boris e vou encontrar ele e Maja para um provável último almoço. Nastya também vem. Como ansisos que o documento chegará. Mas ele não chega.

Volto ao apartamento com a certeza que dormiria mais um dia em Ljubljana. Minha décima noite por lá. Já estava me sentindo um Ljubljanense. Já conseguia entender a língua, falar o básico e até fazer piadas.

Wojciech me avisa que rastreou o envio do documento e que ele chegaria na manhã do dia seguinte, sexta. Sei que não é sua culpa, mas peço que ele abra uma reclamação contra a empresa de envios. Pelo dinheiro pago e a previsão de entrega, eles estavam mais de 24 horas atrasados. E tempo, meu amigo, nesse caso é muito dinheiro. Especialmente o meu.

Boris não se sente bem depois da bebedeira que teve ontem. Faço um café e lhe dou uma Neosaldina. Combinação perfeita para ressaca. Logo ele melhora e me convida para um último almoço. Já com o documento em mãos e o carro pronto, era só uma questão de querer ir embora.

Vamos pela última vez ao bar universitário e, depois de tantas vezes, as garçonetes me cumprimentam, de tanto me verem. Me sinto um local. Encontramos Maja e Kaja e vamos almoçar.

Me sinto meio estranho. Depois de dez dias, me sentia parte da cidade. No dia anterior fiquei bravo que queria ir embora e não podia e hoje estava triste, pois precisava ir embora e não queria. Foi estranho.

Me despeço de Boris, que me dá um forte abraço, e Kaja e sigo com Maja de bicicleta. No caminho me despeço dela também e sigo até o apartamento. Minhas coisas já estão no carro. Deixo a bicicleta, travo e coloco a chave na caixa de correio. Vou até o carro e é hora de me despedir do meu lar provisório.

Zagreb parecia tão longe, mas estava tão perto. E em pouco tempo chegaria lá.

A segunda semana.

Assim como na quinta, dia 24, acordei também as 10 horas, exatamente uma semana depois. O carro estava pronto. O que não estava pronta ainda era a minha ansiedade em dirigir o carro por mais de 300 km pela primeira vez.

As malas já estavam arrumadas desde a noite anterior. Saio do quarto e vou lavar o rosto. Aviso Tomek que já estava tudo pronto. Comemos alguma coisa e logo tenho que ir. Não sem antes dar um abraço em Krisztina. Grzegorz eu já havia abraçado um pouco antes, pois tinha treino e teve que sair antes. Os dois, apesar da timidez inicial, gostaram dos abraços – acho.

Antes de sair, Krisztina pede para bater uma foto comigo, como se precisasse pedir. Descemos e Tomek bate mais fotos comigo no Lada e comenta “sabe como é minha mãe, ela gostou de você e quer fotos suas no carro”. Dou risada e faço caras assustadas para a câmera, como se estivesse sofrendo ao dirigir. Tomek então vai até o seu carro e eu vou atrás. Ele iria me guiar até a estrada.

Assim que chegamos, ele encosta e dá o sinal para eu continuar. O nosso tchau foi uma buzinadinha e agora era só eu, ali, com a Lubenica (lembrem-se, lê-se “lubenítsa”). Pego a estrada e vou sentindo o carro em velocidades mais altas. Fico surpreso com a estabilidade do carro. Apesar do tremilique (ou seria trimilique?) de antes, quando o carro entra em velocidade de cruzeiro, fica mais macio.

Ia vendo até onde o giro do motor ia quando aumentava a velocidade. Afinal, eram só quatro marchas e eu não queria ficar pisando fundo e gastando horrores de gasolina. Vi que entre 80 e 90 km/h ele se comportava bem e o motor não gritava tanto. Entre 2800 giros a 70 km/h e 3500 a quase 100 km/h, percorri os primeiros 350 km da viagem, entre Zabrze e Poznan.

A primeira metade era até a cidade de Wroclaw (lê-se “vrôtsuav”), que era até a pista dupla ia. De lá peguei uma estrada local que seguia até Poznan. Uma paradinha num posto para uma água, banheiro e olhada no mapa. Comprei um em caso o GPS do meu celular, que não é nenhuma maravilha, falhasse. Não tinha muito como errar ainda assim.

O tanque estava na metade. Tanque pequeno, só cabiam 40 litros e eu já havia rodado mais de 200 km. Consumo fraco também, não mais do que 12 km/l. Como ainda faltavam mais 180 km, decido colocar mais uns 10 litros, para garantir.

As pessoas do posto estranharam muito ao verem um Lada e mais ainda quando desceu dele um rapaz moreno, narigudo, cara de árabe. Me senti uma celebridade, tipo um ex-BBB, que todo mundo sabe quem é mas não lembra direito o nome.

Sigo meu rumo, dessa vez pela estrada local. Campos e mais campos de flores amarelas iam aparecendo. Nunca fui um expert em botânica, então confesso que continuo sem saber – e tampouco interessado em saber – que flor era. Só sei que a estrada era muito cênica, calma e gostosa de dirigir.

Fiz um stopmotion da segunda parte da viagem aqui.

Em Leszno, uma cidade a uns 80 km de Poznan, encostei o carro e liguei para o meu amigo, conforme o combinado. Coloquei no GPS do celular onde precisava ir e, apesar da localização ficar indo e vindo, segui meu caminho. Enquanto estava parado, um moleque de não mais de 15 anos deu um tapa no carro enquanto caminhava com uma amiga. Olhei feio e ele fez uma cara de pavor, pois devia ter achado que não havia ninguém no carro. Otário.

Uma hora mais tarde, 17h, já estava em Poznan e exatamente no ponto onde havíamos combinado. O GPS havia sido de bom uso, afinal.

Encosto num posto, onde vejo uns caminhões estacionados. Paro logo ao lado de um Fiat 126, fabricado na Polônia durante a época comunista. Muito popular, é cultuado entre os admiradores de carros “comunistas”, por assim dizer. Não estava lá aquela maravilha, mas a cor era praticamente a mesma da minha Lubenica.

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Wojciech (lê-se “vôitchiérr”) chega logo em seguida com Marcin (lê-se “mártchin”). Eles sobem no carro, não sem antes fazerem algumas piadas a respeito dele, e vamos até o apartamento. Estaciono, subo, largo as coisas num dos quartos e vamos comer.

Era feriado e no dia seguinte também seria. Assim como nós, eles emendam quando cai na terça ou quinta. Então, infelizmente, não haveria porque ir até a loja comprar a câmera ou até a prefeitura iniciar a regularização do carro.

Assim sendo, abrimos a primeira cerveja e fomos conversando muito sobre os meus planos. Marcin estava muito interessado e me perguntou mais coisas do que eu perguntei a ele. Queria saber todos os detalhes de como era a vida no Brasil e ficava surpreso ao ver as semelhanças que os dois países possuem.

Wojciech já estava mais afim de festejar. Havia quatro anos que não nos víamos e éramos com companheiros de baladas na Lituânia. Ele queria de todo jeito que essa noite fosse como a quatro anos atrás e logo trouxe a vodca.

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Praticamente desde que havia voltado ao Brasil que não tomava mais vodca, pura principalmente. Não pude recusar e logo já haviam ido três. Já estava mais para lá do que para cá. Hora de sair e ir conhecer o centro.

Poznan é a terceira maior cidade do país e é um dos principais destinos dos estudantes estrangeiros que vêm fazer intercâmbio. Querendo voltar ao clima do passado, Wojciech nos levou até a festa “oficial” dos intercambistas. E logo de cara já percebi que o passado continuava no passado mesmo. Um calor infernal, as pessoas se acotovelando e eu ali, perdido e bêbado sem entender nada. Em 20 minutos já não aguentava mais e fomos embora.

Pedi para irmos a um lugar mais tranquilo, sem tantos estrangeiros assim. Fomos então num bar meio rock and roll, sei lá. Não havia lugar para sentar e nos encostamos num canto, perto de uma mesa, e ficamos conversando. Nisso, um casal ao nosso lado ouviu um pouco e começaram a puxar conversa comigo. Por um tempo fiquei falando com eles sobre a minha viagem e eles adoraram. Quem não curtiu muito foi o outro casal de amigos deles que não trocaram uma palavra comigo e me olharam feio do começo ao fim.

Quando voltei do banheiro, comentei que estava muito frio – e estava mesmo, -1 grau para Maio é frio até para eles – e usei uma palavra em polonês que é usada simplesmente o tempo todo “Kurwa” – que é o nosso equivalente ao caralho, mas pode ser puta, merda e tantas outras coisas. No mesmo instante, o amigo do casal, um careca alto pra cacete, levantou e colocou o dedo na minha cara, começando a falar um monte de coisa que eu não entendi. Fiquei completamente sem reação e sem entender. Os amigos o puxaram de volta e eu então pude perguntar o que tinha acontecido. Eles não conseguiram me responder muito bem, mas nisso meus amigos já estavam me puxando e dizendo que já deu o que tinha que dar. Infelizmente eles estavam certos. Até agora não entendi e talvez seja melhor não entender mesmo o que aconteceu.

De volta à rua, decidimos então tentar o nosso último bar antes de irmos embora. Era um bar que para mim parecia muito esses botecos com cara de sujo mas que é chique, que nem tem aos montes na Vila Madalena. Lá eu disse que não queria mais nada, mas meu amigo trouxe uma vodca. Recusei. Ele então ofereceu ao casal que estava ao nosso lado. Eles foram puxando conversa e nisso o rapaz vem até mim e diz que eu sou indiano. Ele era indiano. Eu disse que não, sorri, e falei que era brasileiro. Pronto. Aí foi a moça que delirou. Ela era brasileira. A festa tava feita.

Depois de uns quarenta abraços que o hindu fez questão de me dar, conseguimos, finalmente, ir embora. Não sem antes ser parado por mais um polonês, dessa vez morador de rua, que ao descobrir que eu era brasileiro, abriu um sorriso desfalcado de dentes e disse “communist?”, quis brincar e disse que sim, já que ele havia sorrido, e ele ficou feliz e tentou me falar que ele também era e que na época do comunismo não vivia na rua. Infelizmente não tive como dar muita atenção, já era tarde, estávamos cansados, com frio e fome.

E então, finalmente, após uma semana, comi o meu primeiro Kebab. Que saudades. Sem cebola, é claro.

O dia seguinte foi inútil. Todos de ressaca, eu mais ainda por conta do cansaço da viagem e ainda tentando me acostumar ao novo horário. Após o dia inteiro em recuperação, um amigo italiano, Nicholas, que namora uma polonesa e mora na cidade e que também conheci quatro anos atrás, me liga e diz que iria jogar boliche com uns amigos e queria me rever. Decidimos ir então e o dia não foi assim de todo mal.

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No sábado, meus amigos decidem me levar até Gniezno, a uns 50km de Poznan e que foi a primeira capital da Polônia. Finalmente uma viagem histórica e não alcóolica.

Cidade agradável, pequena e bastante turística. Fomos num museu de história e fomos convidados a ver um filme em 3D sobre a história da cidade. Não entendi e nem consegui ver nada, já que o meu estrabismo não permite ver filmes em 3D, mas foi legal mesmo assim.

De volta a Poznan, Wojciech mais uma vez queria aprontar e chamou os amigos. Um deles, Mateusz trouxe uma vodca caseira feita de ameixas e que tem por volta de 60% de graduação alcóolica. Desastre anunciado. Uma, duas, três. Ufa, a garrafa acabou. Chegam mais amigos e mais uma garrafa de vodca. Ainda bem que estávamos em mais pessoas, então foram “só” mais duas doses antes de partirmos.

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Antes de irmos, Mateusz me conta que tem uma moto polonesa de 1962 e que gostaria de me mostrar. Infelizmente ele mora numa cidade um pouco longe, mas prometi que tentaria ir.

No caminho até o centro eu estava bem mal. Queria ser legal, mas eu podia ter dito não. Agora já não dava mais. Era só não beber mais nada que em pouco tempo já ficaria legal.

No centro, paro num quiosque e peço um energy drink qualquer. Já que tinha que ser legal e aguentar até o fim, eu precisava de alguma coisa pra me dar um tapa na cara. Saio do quiosque e meus amigos entram no bar ao lado, que era famoso pelos shots de vodca com coisas coloridas dentro. Me recusei a sequer entrar no bar.

Fora dele fui parado por dois moradores de rua, que pediram um cigarro. Pedi desculpa, disse que não falava polonês e eles então me explicaram em inglês. Dei um trocado e eles ficaram felizes e engatamos uma conversa. Sinceramente, uma das melhores que tive até agora.

Enquanto meus amigos “riam” de mim de dentro do bar, eu estava lá fora, salvo de beber mais e tendo uma conversa interessante sobre a vida na rua e o mundo das drogas, se é que dá para chamar assim, da Polônia. Cumprimentei-os, desejei sorte, e entrei no bar. Mas só para usar o banheiro.

Na rua novamente, meus amigos decidem ir ao mesmo bar dos estudantes estrangeiros que havíamos ido dois dias antes. Insisti para que não fôssemos, mas fui voto vencido. Pelo menos dessa vez eu não estava levando cotoveladas de graça. Mas ainda assim a merda era a mesma.

Um dos nossos amigos some, enquanto Wojciech fica circulando pela pista, tentando achar alguém. Eu fico mais para trás, com o casal de amigos dele, Rafal e Ewelina. Depois de mais de uma hora lá dentro, eles decidem ir embora e o nosso outro amigo ainda não tinha dado as caras. Dou uma circulada pela pista, encontro Wojciech e peço para irmos. Ele concorda, vamos até a chapelaria e a blusa dele havia sumido. Mais meia hora enrolando, ele volta para a pista e eu volto para puxar ele. Até que fica decretado, vamos embora. Eu subo a rampa do lugar e quando olho para trás, ele não subiu junto. Tento voltar, mas sou barrado. Tinha que pagar para voltar e eu estava sem um centavo no bolso.

Vou até a rua e encontro o nosso amigo perdido, que estava mais perdido que cego em tiroteio. Bêbado, tinha brigado com um dos seguranças da festa, que o expulsou e estava ali esperando a nossa boa vontade de ir embora.

Eu, cansado e irritado com o meu amigo, decido ligar para ele. Não atende. Mando mensagens, não responde. Começo a ficar muito irritado. Estava cansado e com muito frio e fome. Marcin me paga um Kebab e eu dou uma acalmada, mas ainda sem respostas de Wojciech.

Após uma hora, ele finalmente decide sair. Estava tão bravo que poderia ter dado um soco nele, mas nunca fui disso e vou continuar não sendo. Ele tenta me explicar que foi insistir um pouco mais a respeito de sua blusa e que acabou encontrando uma menina, xavecou e eles combinaram de sair no dia seguinte. Fingi ficar feliz por ele, mas no fundo eu queria era que ele fosse à merda mesmo. Ele paga o taxi de volta, meio que como um pedido de desculpas. O taxista, ao nos deixar, notou o Lada e comentou com o meu amigo que fazia tempo que não via um em tão bom estado.

No Domingo, mais um dia inútil. Wojciech sai cedo – 13h – para ir encontrar a menina da noite anterior e ficamos eu e Marcin no apartamento. Aproveito para editar o stopmotion, escrever um pouco, fazer as contas dos gastos e tirar o atraso da internet. Wojciech volta no final da tarde e Marcin precisa voltar a sua cidade, próxima a Poznan. Ele nos dá uma carona até o centro e lá damos uma volta até chegarmos a beira do rio Warta, onde há um centrinho cultural feito de contêineres reaproveitados. Faz frio, então não conseguimos ficar muito e logo voltamos para o apartamento. Conversamos mais um pouco e dessa vez vamos dormir cedo, afinal, segunda finalmente estava aí e havia coisas a serem feitas.

Segunda, acordamos cedo e vamos até o órgão de registro de carros da cidade. No posto de informações a moça nos diz que o processo é simples, basta o responsável pela casa, seja o dono ou locatário, provar que eu moro no lugar que é possível então registrar o carro em meu nome. O processo levaria não mais do que 20 minutos, desde que o oficial responsável estivesse de plantão, o que não era o caso desse dia. Ela falou para retornamos na terça que ele estaria lá. Ficamos felizes e vamos até o centro almoçar.

Ele quer me mostrar o estádio do seu time e vamos até lá para um tour guiado. O estádio é grande, bacana, bonito. O segundo maior do país. Recebeu jogos da Euro 2012 e é motivo de orgulho entre os torcedores do time, Lech Poznan.

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Vamos até a loja de câmeras onde havia encontrado os preços dos produtos que queria e, para minha infelicidade, quase tudo precisaria ser trazido, o que levaria, no mínimo dois dias. Decido fazer o pedido e esperar. Em Berlim havia pesquisado e os preços, por incrível que pareça, eram maiores por lá.

Voltamos até o apartamento, pois seu time iria jogar, infelizmente não no estádio que havíamos a pouco visitado, mas sim numa cidade chamada Bydgoszcz (lê-se “bidgoshtch”). Seu time vence por 2 a 1 e continua firme em segundo lugar tentando vencer o campeonato.

Tomamos algumas cervejas, damos risadas de alguns vídeos bizarros poloneses e brasileiros e vamos dormir tão cedo quanto a noite anterior.

A terça começa um pouco mais tarde que a segunda. Vamos até o local de registros com o Lada e meu amigo pede para dirigir. Sofre com a direção dura, a embreagem funda e o freio lento, mas chegamos inteiros. Retiramos as placas e fazemos o registro. A funcionária, ao saber que um italiano, com carteira de motorista brasileira estava se registrando na Polônia para comprar um Lada, não se conteve e riu baixinho. Era uma situação muito absurda para ficar impassível. Os três rimos um pouco e documento temporário em mãos, o carro finalmente era oficialmente meu. Trocamos as placas e voltamos até a loja de câmeras para ver como andava o processo.

A câmera havia chegado, mas não as lentes e as baterias. Compro a câmera, os cartões e tenho que ficar mais um dia para esperar os outros produtos.

Era aniversário de Wojciech e decidimos ir tomar umas cervejas na beira do rio com alguns de seus amigos. Patinhos no rio, muitos jovens bebendo e se divertindo. Mas ele tinha que trabalhar no dia seguinte bem cedo então não demoramos a voltar ao apartamento.

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Os aniversários aqui são bem tranquilos, pelo jeito. Tão tranquilos que nem sequer têm música para cantar. É só “feliz aniversário” e “que você viva mais 100 anos”. Achei meio triste.

No dia seguinte Wojciech sai cedo para trabalhar e eu fico no apartamento. Decido dar um tapa na casa, já que eu tinha tempo livre e queria retribuir toda a ajuda. Aproveito para também procurar em outras lojas da cidade os produtos que queria. Encontro uma lente numa loja e aviso meu amigo. Ele diz para eu o encontrar no restaurante onde trabalha para almoçar e que depois iríamos até a loja.

Chego ao restaurante, super chique, e ele me traz umas tostadas com rosbife e rúcula. Apesar de não gostar de rúcula, como mesmo assim e no contexto ficou muito bom. Depois vamos até a loja, num shopping afastado da cidade, e ficamos sabendo que não tinha lente coisa nenhuma. Decido comprar os filtros UV e um monopé, que estavam baratos. No caminho de volta, passamos no estádio do outro time da cidade, o Warta Poznan. Um estádio bem simples para um time bem pequeno e que ganhou notoriedade por conta de sua antiga presidente ser uma celebridade no país, inclusive saindo na revista Playboy local. O time ganhou o machista título de “time com a presidente mais gostosa do mundo”. O machismo é internacional mesmo.

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Voltamos ao apartamento e descansamos um pouco. Eu aproveito para arrumar as minhas coisas, na esperança de que iriam ligar da loja e avisar que os produtos chegaram. Não ligaram.

A noite cai e é muito provavelmente minha última na Polônia. Peço para irmos ao centro beber uma cerveja. Não podia ir sem uma despedida. Foram altos e baixos, mas foram duas semanas bem intensas. Nem sequer havia começado a viagem oficialmente e já estava me sentindo uma nova pessoa. Tantas pessoas novas me apoiando, ajudando, acreditando na minha ideia que até então é somente uma ideia, nada de concreto.

Nesse momento eu os deixo por aqui e vou me arrumar para ir me despedir da Polônia. Amanhã tudo recomeça. País novo, língua nova e finalmente a viagem propriamente dita começa.  Até a próxima.