No país das gravatas.

Por volta das 17h eu entro no carro e parto em direção a Zagreb. Ljubljana é tão pequena que tem que fazer muito esforço para não achar a estrada para a Croácia.

O dia estava lindo. Nenhuma nuvem no céu e um sol gostoso. Da janela da Lubenica pude ver os picos nevados dos Alpes Julianos, ao norte da cidade – e do país. Atrás deles está a Áustria. Infelizmente estava indo na direção contrária e não teria a companhia deles no meu trajeto.

Isso não quer dizer que a estrada não era linda. A paisagem montanhosa foi, aos poucos, dando lugar a pequenos morros com casinhas ao redor. A estrada cruza algumas cidades pequenas e todas são bem visíveis por conta de suas igrejas de torres brancas com telhados escuros e pontiagudos. Dá a impressão de andar em círculos, tamanha a semelhança entre as igrejas a beira da estrada.

Pouco mais de 100 km depois, chego na fronteira. Um posto bem semelhante ao de um pedágio e uma fila de carros. Enquanto os caminhões e ônibus eram revistados com mais rigor, os carros passavam com menos burocracia.

Quando chegou minha vez, entreguei meu passaporte ao policial esloveno, que me perguntou se o carro era meu, disse que sim e fui pegar o documento, mas ele nem quis ver, devolveu meu passaporte e me desejou boa viagem. Alguns metros a frente estava o policial croata, que olhou meu passaporte por uns 5 segundos e não disse uma palavra. Estava oficialmente na Croácia. A espera de dias pelo documento do carro se mostrou desnecessária. Mas não queria ter corrido riscos.

Chego em Zagreb por volta das 19h, duas horas após ter saído. Com o GPS, chego sem problemas até o endereço onde Mateja mora. E primeiro preciso explicar como cheguei até ela.

Quatro anos atrás, conheci Martina e sua irmã, Nina, numa rodoviária em Budva, Montenegro. Elas estavam voltando para a Croácia e eu indo para a Sérvia. Ficamos amigos e mantivemos contato pelo Facebook. Quando soube da minha viagem, Martina ficou de encontrar algum amigo onde eu pudesse passar uns dias. E assim ela o fez. Porém, com o meu atraso em Ljubljana, sua amiga que iria me hospedar teve que viajar e eu fiquei sem lugar para ficar. Comecei então a procurar pessoas no Couchsurfing meio que de última hora e Mateja foi a única pessoa que me respondeu positivamente a tempo. Apesar dela não ter nenhuma experiência com hóspedes, ela parece ser uma boa pessoa e, diante da situação, eu decido ficar em sua casa.

Pois bem, quando chego em sua rua, estaciono o carro e vou até o seu apartamento. Toco a campainha e não tem ninguém. Insisto um pouco mais e nada. Volto até o carro, coloco minhas coisas no porta-malas e vou em busca de algum lugar com internet para tentar entender o que acontece.

Bem próximo há um Shopping Center. Sento num restaurante, peço uma cerveja e o código do WIFI. Logo as mensagens começam a chegar no email, whatsapp, facebook e onde mais é possível. Ela me mandou umas cinco mensagens avisando que teve que sair de última hora, pois um amigo acabara de se formar e quis comemorar. Disse também que a chave do apartamento estava embaixo do capacho na entrada e que eu poderia entrar, tomar um banho, comer e que logo ela estaria de volta.

Apesar da bondade dela, fico um pouco intrigado com a total confiança que ela deu em mim. Vou até o apartamento e tomo um banho. Usando a internet dela, vejo que outras pessoas responderam pelo meu pedido. Uma delas, Anja, disse que estaria livre para uma cerveja e combinamos de ir ver o jogo Brasil e Sérvia onde a pouco eu estava. Aviso Mateja.

Anja é a minha primeira entrevistada croata. Ou pelo menos a primeira tentativa. Muito tímida, respondeu as minhas trocentas perguntas de uma forma bem comedida. Me contou um pouco sobre sua vida e a Croácia, mas logo tinha que ir. Havia combinado um encontro com um outro amigo no centro.

Volto ao apartamento e Mateja não demora muito em chegar. Finalmente nos apresentamos e conversamos sobre muitas coisas.

Não pude deixar de comentar sobre a confiança que ela havia depositado em mim. Ela me diz que teve uma infância sozinha e que se não confiasse nas pessoas, não teria motivos para viver. Mas vamos dormir logo, pois já é tarde.

Na manhã seguinte, enquanto tomávamos café, ela me conta um pouco sobre a infância. Seu pai era violento com ela e a irmã e por muitas vezes a agrediu, inclusive tendo que ir ao hospital por conta dos machucados. Sua mãe era complacente e nunca a ajudou. Então aos oito anos decidiu fugir de casa e ir morar com a Avó, a única que a protegia.

Sua adolescência foi marcada por ter que trabalhar e estudar, enquanto via os amigos brincando e estudando. Acostumada a ter que se virar desde cedo, perseverou e entrou numa boa faculdade. Estudou contabilidade e acabara de terminar o mestrado. Trabalha numa grande empresa e está juntando dinheiro para comprar o seu apartamento.

Me diz também que, por conta da rotina pesada de estudar e trabalhar, não conseguiu estar ao lado de sua avó quando ela ficou doente e faleceu. Como forma de homenagem, estava planejando trocar seu sobrenome pelo da Avó, a única que realmente lhe amou.

Ouvi tudo atentamente e não consegui dizer nada além de parabéns pela força que ela tinha. Ela agradeceu e disse que, após muita terapia e remédios, hoje se considera uma pessoa normal novamente.

É hora de ir conhecer a cidade. Primeiro ela me leva até o Parque Maksimir, onde acontecia um evento esportivo. Havia um palco onde um rapaz estava dando uma entrevista e algumas pessoas estavam se exercitando, mas nada parecido com um evento. Demos uma volta e fomos até o centro.

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Na praça principal, chegamos a tempo de ver uma encenação de como era feita a troca da guarda real que vinha da cidade alta até a cidade baixa. Os atores, usando a tradicional gravata croata, tocavam tambores e seguiam o líder, num cavalo garboso. Seguimos o cortejo um pouco, até que ele acabou no caminho que leva até a cidade alta.

Fomos até o mercado de frutas, subimos até a catedral, depois passamos pela parte alta e chegamos até uma rua bem gostosa, cheia de árvores e com alguns quiosques. Sentamos para conversar um pouco. Martina está a caminho para nos encontrar.

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Enquanto conversávamos, falamos sobre as “disputas” entre quem inventou tal comida, se foram os croatas e eslovenos. Mateja me pergunta se existe algo semelhante com o Brasil e comento, brincando, que nossa única briga é com os argentinos sobre churrasco, mas não quem inventou, mas sim quem faz melhor. Nisso, uma senhora que estava sentada atrás da gente pede licença e diz que precisa intervir. É argentina e começamos a “brigar”. Mateja fica sem entender um pouco, mesmo que com a conversa em inglês. Foi engraçado.

Ficamos conversando por mais um tempo, até que Martina chegou. A argentina precisou ir, pois seu marido estava no hotel, um pouco doente, e ela queria ir ver como ele estava. Nos despedimos, trocamos contatos e eu e minhas amigas descemos até a praça principal novamente.

Mateja e Martina, que não se conheciam, ficam amigas e eu vou seguindo elas. Martina não pode ficar muito, pois tem uma prova importante pela frente. Ela parte e eu e Mateja vamos almoçar antes de voltar ao apartamento.

O restaurante chama Zlatni Medo. Medo é ursinho e zlatni é dourado. Apesar do nome, para nós, parecer algo assustador, significa Ursinho Dourado. É um restaurante tradicional e eles fazem a própria cerveja, que é particularmente gostosa. Pedimos um “meio a meio”, que é um prato variado com comida de toda a Iugoslávia.

De volta ao apartamento, Mateja me diz que vai encontrar um amigo a noite. Martina me convida para ir tomar uma cerveja com uma amiga e ficamos combinados assim.

Vou tomar banho e ao fechar a cortina do pequeno banheiro, sem querer esbarro numa caixa com bijuterias. Faço uma bagunça danada, mas coloco tudo no lugar. Quando saio do banho aviso Mateja sobre a minha trapalhada. Ela ri e diz que tudo bem.

Saio e vou encontrar Martina. Sua amiga se chama Barbie. Isso mesmo, Barbie. São amigas da escola de dança. Barbie se mostra ser bastante familiar com o meu país e conversamos sobre o Brasil. Por umas quatro ou cinco vezes ela iniciou o assunto dizendo “Eu li um artigo sobre o Brasil…”. Eu e Martina, no fim, já estávamos fazendo piada sobre isso.

As duas são professoras de inglês, assim como eu fui por um tempo, e conversamos muito sobre ser professor na Croácia e no Brasil. Falamos sobre Copa do Mundo, favelas, classes sociais e tantas outras coisas. Mas, infelizmente, levei um não quando quis tentar gravar a conversa. Que pena.

De volta ao apartamento, Mateja já está dormindo. Vou dormir também tentando não acordar ela.

Acordo no domingo com ela limpando o apartamento. Ela parece um pouco nervosa. Pergunto se está tudo bem e ela diz que sim. O dono do apartamento ligara um pouco antes avisando que iria passar lá para resolver um vazamento no banheiro. Ela queria deixar o apartamento em ordem para não deixa-lo bravo. Aparentemente na Croácia, os donos dos imóveis podem expulsar os locatários sem mais nem menos, o que para mim soou completamente bizarro.

Ela diz que eu não posso estar no apartamento enquanto ele estivesse por lá. Sem problemas. Levo minhas coisas até o carro, menos o computador. Quando ela começa a organizar o banheiro, pega a caixa bijuterias que eu havia derrubado e começa a fazer cara feia para mim. Não entendo e pergunto se está tudo bem. Ela diz que não. Uma caixa de metal havia sumido.

Eu argumento que deveria estar em algum lugar no banheiro, pois eu havia devolvido tudo que encontrara de volta na caixa. Ela continua com a cara feia e eu fico completamente sem graça.

Ela fica sem falar comigo por um tempo, procurando pela caixa. Eu sinto que o tempo está ficando feio para mim e tento conversar com ela. Ela então simplesmente me diz para ir embora. Eu tento entender o que está acontecendo e ela completa dizendo que não confiava mais em mim e que eu tinha que ir embora imediatamente. Peço para que sentemos e conversemos por uns minutos, pois quero explicar e entender o que está acontecendo. Ela diz que não e que me quer fora do apartamento já.

Pego meu computador e minha câmera, que ficaram, e saio completamente sem entender o que aconteceu.

Vou até o restaurante onde havia usado o WIFI na sexta e entro em contato com Martina e Anja. Pego dois telefones de pessoas que me responderam no Couchsurfing após Mateja e peço para que elas entrem em contato por mim.

Anja liga para Hrvoje, um dos que me respondera, e ele diz que eu poderia ficar em sua casa. Ela me passa o endereço e pouco tempo depois encontro com ele em frente ao prédio.

O susto durara pouco, mas foi uma situação que eu não esperava passar. Me sentia mal por ter feito algo que, no fim das contas, eu não havia feito. Achei melhor esquecer.

Subi e deixei minhas coisas e a segunda etapa em Zagreb estava só começando.

Ljubljana, parte dois.

A marcha da maconha começaria ao meio dia, na praça em frente ao parlamento. Na noite anterior fomos dormir por volta das 5 da manhã e sabia que Boris não estava afim de ir e eu teria que me virar para ir.

Acordo meio dia e mando uma mensagem para Nikola perguntando se ele iria. Ele me responde positivamente, mas que chegaria por volta das 15h. Boris acorda mais tarde só e diz que vai visitar uns familiares, mas que me deixaria no centro.

No centro, mesmo que tarde, espero dar de cara com uma marcha, pessoas gritando, polícia ao redor olhando feio. Mas chego na praça e as poucas pessoas que foram estão sentadas no gramado, bebendo cerveja e fumando, enquanto num palco montado no centro um DJ “anima” a festa.

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Já meio decepcionado, arrumo a câmera e começo a filmar. Olho ao redor e não vejo nada de diferente entre esse protesto e um sábado a tarde normal. Penso em ir até um grupo de pessoas e fazer algumas perguntas, mas o clima era óbvio que não havia protesto nenhum.

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(A tal “Marcha da Maconha” que não era marcha)

Nikola vem ao meu encontro e comento com ele sobre a minha decepção. Ele me explica que havia 3 anos que não era realizada a marcha e que esse ano alguns patrocinadores, entre eles a Organização Estudantil de Ljubljana, deram gás ao evento, que mesmo assim não se transformou em protesto, mas sim numa festa, com pouco ou nenhum discurso político.

Decidimos dar uma volta pela cidade enquanto vou entrevistando ele. Nikola me conta sobre sua vida, a de seus pais, como chegaram até a Eslovênia e tantas outras coisas. Andamos muito e fazia muito sol. Apesar da temperatura oficialmente não ser mais que 20 graus, a sensação era bem maior.

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(Nikola)

Para dar uma refrescada, andamos pelo parque Roznik (rôjník) e depois voltamos até o centro. De volta à praça, a marcha estava em vias de acabar e o clima era o mesmo. As mesmas pessoas, nos mesmos lugares fazendo as mesmas coisas que horas antes.

Maja veio nos encontrar e decidimos ir até Metelkova para ver se lá estava mais animado.

Não estava. Apesar de ser Sábado à noite, o lugar estava quase vazio. Nem se comparava com a noite anterior. Eles me explicam que muita gente volta para suas cidades nos finais de semana e que, apesar de mais vazio que o normal, era esperado que não estivesse cheio.

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(Metelkova)

Boris vem nos encontrar, Maja vai embora, e ficamos os três por lá mais um pouco. Alexander, o fã de futebol que conheci no dia anterior, está lá e vem conversar comigo. Me apresenta outro amigo, David, que tenta me dizer que está indo à uma cidade brasileira em Agosto. Depois de umas cinco tentativas, entendo que a cidade é Pirenópolis, em Goiás. Realmente não é fácil nem para nós, quanto mais para eles falar essa cidade.

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(Alexander, à direita)

Ele toca numa banda de música tradicional eslovena e eles firmaram um acordo com um grupo artístico de Pirenópolis e farão um intercâmbio. Os brasileiros virão até a Eslovênia e eles até o Brasil. Claro que ele me pergunta sobre violência e tantas outras coisas e eu acalmo ele. Digo que vai se divertir e que poderá ter problemas somente quando for voltar, pois não iria querer.

Não demoramos muito em voltar. Deixamos Nikola em sua casa e voltamos até o apartamento. O sábado que muito prometia foi salvo pela boa entrevista que fiz com Nikola, porque a marcha em si foi fajuta demais para o meu gosto.

É domingo e Boris tem que, mais uma vez, visitar parentes. Eu havia combinado de ir encontrar Daniela, uma gaúcha que havia entrado em contato comigo meses antes, quando leu sobre minha viagem num site, e que estaria em Ljubljana mais ou menos quando eu estaria.

Encontro ela na rodoviária e damos uma volta pela cidade. Ela me conta que está viajando há mais tempo que eu ainda e que no total seriam três meses. Depois, voltaria ao Brasil por três semanas e depois iria, de mala e cuia, até Seul, onde iria dar aulas de português numa Universidade.

Aproveitamos que é o primeiro domingo do mês e muitos museus são de graça. Dica que a Maja havia me dado no dia anterior. Vamos até o Museu de Arte Moderna, que eu nunca manjei nada, e depois no Museu Nacional. Por fim, vamos encontrar Maja no museu onde ela trabalha, o City Museum.

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(Maja e Daniela)

Maja faz um tour guiado conosco, que coincide com o fim do seu expediente. Saímos os três e vem ao nosso encontro Darko, que era o rapaz que Daniela encontrou no Couchsurfing e que iria dormir em seu apartamento. Maja então nos leva até o Castelo e vai nos contando sobre a história da cidade, do Castelo e outras coisas.

No Castelo, ela encontra um amigo que também trabalha lá, Igor. Darko encontra um amigo também que, por coincidência, é amigo do Igor. Todos riem com a coincidência e alguém comenta “que mundo pequeno”. Não perco a oportunidade e solto a piadinha mais horrível possível: “O mundo não é pequeno, a Eslovênia que é”. Uns riem, outros não e eu calo minha boca.

Subimos até a torre e todos tentam nos explicar tudo possível. Até Darko e seu amigo, que não são guias.

A vista é magnífica e pudemos ver o quanto Ljubljana é uma cidade charmosa. Rodeada de montanhas, algumas ainda nevadas, a cidade tem poucos prédios altos e mantem um padrão arquitetônico. Muitos parques rodeiam a cidade também.

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(Ljubljana)

Descemos e encontramos com Miha, que também está a trabalho no Castelo. Outro que nos ajuda no tour. Mas bate às 21h e o Castelo tem que fechar. Nós sete vamos até o centro e sentamos num bar para conversarmos mais.

Darko e Daniela têm que ir. Boris me avisa que está chegando e também vamos.

No dia seguinte, eu e Daniela vamos até Bled, encontrar Greg, meu amigo russo que mora por lá. Um dia para turismo, já que nada do documento chegar ainda.

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(Bled)

Na volta, estou sem a chave e Boris me diz que não sabe quando vai voltar. Eu, Daniela e Darko, que veio ao nosso encontro, vamos jantar e experimentamos o hambúrguer de carne de cavalo. E para mim o sabor era exatamente o mesmo. Suspeito que já devo ter comido muito hambúrguer de cavalo por aí sem saber.

Darko e Daniela precisam ir e eu combino de encontrar com o Boris. Nos encontramos no bar universitário, onde está o casal de amigos dele, Urska e Jernej. Boris está de bicicleta, então eles me levam até o apartamento.

Terça havia mais um protesto a acontecer. Na semana anterior, Boris havia ligado para diversas entidades estudantis e alguns partidos políticos, convocando-os para esse protesto. O governo estava planejando acabar com o subsídio no passe mensal dos estudantes, com a desculpa de que estava ficando sem dinheiro.

Chegamos até a sede da organização estudantil, onde estava acontecendo a concentração. Não mais que 200 alunos estavam lá, esperando e comendo uns salgadinhos, oferecidos pela organização. Em pouco tempo chega um ônibus – da frota da cidade – e todos entram. Paramos próximo à sede do governo e lá marchamos, finalmente, até a rua onde fica o prédio.

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Alguns policiais, não mais que 20, estavam por perto. Os protestantes ficaram concentrados numa das calçadas e a rua em momento algum foi bloqueada – exceto quando um dos alunos foi falar o megafone e os jornalistas, que estavam em maior número que os policiais, foram filmá-lo e fecharam e atrapalharam o trânsito, praticamente inexistente, por alguns segundos.

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Gritos de guerra, apitos, faixas. Um protesto de verdade, podemos dizer. Enquanto filmava-os, uma policial veio, educadamente, pedir que eu saísse do meio da rua, mesmo que nenhum carro estivesse vindo. Obedeci.

Após uns 40 minutos de protesto, todos voltam ao ônibus, que nos deixa em frente à organização. Mais alguns salgadinhos e água e é isso aí. Boris comenta comigo que não era a melhor época para protestos, já que muitas provas finais estavam chegando e muitos alunos, especialmente de outras cidades, não quiseram participar.

Voltamos ao apartamento e combino com Boris que a noite faria um jantar para ele, Miha e Maja e que, finalmente, iria entrevista-los. Ele agradece a atitude e diz que voltaria a noite.

Vou até o mercado e compro arroz, frango, champignons frescos, umas cervejas e volto. No apartamento vou escrevendo para tirar o atraso. Sem internet não há muito o que fazer a não ser escrever. Traduzo os primeiros posts e vou escrevendo a tarde inteira.

Boris chega com Miha por volta das 22h. Começo a cozinhar e vamos todos bebendo e conversando. Maja chega logo antes de ficar pronto. Faço um strogonoff, meu primeiro, que ficou, não querendo me gabar, sensacional.

Enquanto vamos comendo, ligo a câmera e começo, aos poucos, a entrevista-los. Boris vai fazendo gin tônicas para eles e eu fico na minha cervejinha. A conversa vai rolando e conforme o álcool vai descendo, o tom vai subindo.

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Após fazer as primeiras perguntas, eles vão respondendo  e bebendo. Nem preciso mais perguntar. Eles vão falando e falando e até começam a discutir, quando o assunto chega aos colaboradores nazistas que foram assassinados sem julgamentos logo após o fim da segunda guerra.

A discussão, apesar de acalorada em alguns momentos, não criou nenhum problema. Quando o relógio bateu uma da manhã, é hora e encerrar. Poderíamos continuar por horas. Maja brinca e diz que não devia ter bebido. Boris, depois que todos vão embora, conversa comigo e insiste em seu ponto de vista. Mas logo vamos dormir.

No dia seguinte, Boris sai cedo e volta tarde. Aguardo pelo documento, mas sei que ele só deve chegar no dia seguinte ou mesmo somente na sexta. Daniela me avisa que seu ônibus para Budapeste sai a tarde e combino de ir até a rodoviária me despedir.

Antes, almoço na cidade e tento resolver umas pendências no banco. Depois vou até a rodoviária, me despeço da Daniela e do Darko e vou até o apartamento de Maja. Lá ela me ajuda com a questão do pneu do carro, que ainda não tinha resolvido.

Ligamos para umas cinco lojas de pneus e fecho negócio com a que me pareceu mais barata. No dia seguinte, de manhã, levaria o carro lá para a troca.

Uma amiga de Maja chega, vamos até o telhado, mas não por muito, pois a chuva e o vento nos afastou. Mas conto sobre minha viagem e o Brasil. Não muito depois volto ao apartamento.

Havia acordado um pouco mal e meu estômago estava estranho o dia inteiro. Não havia conseguido comer nada, mas não me sentia mal, só meio estranho. Ao voltar ao apartamento sinto um pouco de frio e decido medir minha temperatura. Estou com 38 graus de febre e não faço a menor ideia porque.

Deito e assisto um filme, quero tomar um paracetamol para ver se melhoro, mas de estômago vazio não dá. Não sinto fome ainda, muito por conta do meu estômago estar embrulhado. Só bem a noite consigo fazer um macarrão alho e óleo, só para pôr alguma coisa na barriga e então tomo o remédio e vou dormir.

E no dia seguinte acordo inteiro. Nenhum resquício da febre. Greg me liga e pergunta o que vou fazer. Digo que preciso ir até a borracharia trocar os pneus e pergunto se ele quer ir. Para minha surpresa, ele diz que sim e quer levar um amigo. Sem problemas.

Eles me encontram por volta do meio dia. Gibran é mexicano e recentemente casou com uma eslovena. Vamos o caminho até a borracharia conversando sobre a vida de um imigrante na Eslovênia.

Deixamos o carro e vamos tomar um café por perto, enquanto esperamos ele ficar pronto. Conversamos um pouco sobre política e sobre México, Brasil e Rússia e países em desenvolvimento. Mas logo temos que ir, pois o carro está pronto.

Deixo eles na rodoviária e volto até o apartamento. Pego a bicicleta de Boris e vou encontrar ele e Maja para um provável último almoço. Nastya também vem. Como ansisos que o documento chegará. Mas ele não chega.

Volto ao apartamento com a certeza que dormiria mais um dia em Ljubljana. Minha décima noite por lá. Já estava me sentindo um Ljubljanense. Já conseguia entender a língua, falar o básico e até fazer piadas.

Wojciech me avisa que rastreou o envio do documento e que ele chegaria na manhã do dia seguinte, sexta. Sei que não é sua culpa, mas peço que ele abra uma reclamação contra a empresa de envios. Pelo dinheiro pago e a previsão de entrega, eles estavam mais de 24 horas atrasados. E tempo, meu amigo, nesse caso é muito dinheiro. Especialmente o meu.

Boris não se sente bem depois da bebedeira que teve ontem. Faço um café e lhe dou uma Neosaldina. Combinação perfeita para ressaca. Logo ele melhora e me convida para um último almoço. Já com o documento em mãos e o carro pronto, era só uma questão de querer ir embora.

Vamos pela última vez ao bar universitário e, depois de tantas vezes, as garçonetes me cumprimentam, de tanto me verem. Me sinto um local. Encontramos Maja e Kaja e vamos almoçar.

Me sinto meio estranho. Depois de dez dias, me sentia parte da cidade. No dia anterior fiquei bravo que queria ir embora e não podia e hoje estava triste, pois precisava ir embora e não queria. Foi estranho.

Me despeço de Boris, que me dá um forte abraço, e Kaja e sigo com Maja de bicicleta. No caminho me despeço dela também e sigo até o apartamento. Minhas coisas já estão no carro. Deixo a bicicleta, travo e coloco a chave na caixa de correio. Vou até o carro e é hora de me despedir do meu lar provisório.

Zagreb parecia tão longe, mas estava tão perto. E em pouco tempo chegaria lá.

Enfim, Berlim.

Quinta feira, dia 8 de Maio. Duas semanas viajando e chegou a hora de arrumar a mala e partir para o “primeiro” destino da viagem.

Acordo ansioso, como sempre, esperando a loja ligar dizendo que as lentes haviam chegado.

Na noite anterior havíamos ido tomar umas cervejas na minha despedida da Polônia, mas voltamos cedo, pois Wojciech trabalharia e eu tinha 300 km de estrada pela frente.

Vão-se as horas e nada da loja ligar. Ligamos e eles dizem que vai chegar. Que o carro está numa cidade vizinha.

Decido colocar as malas no carro e levar Wojciech até o seu trabalho. Enquanto ele está lá, fico dando uma volta na cidade esperando a ligação. E ela não acontece. Mais um dia em Poznan sem as lentes e a sensação de tempo perdido é enorme.

Fico muito bravo e triste, mas ficar bravo e triste não resolveria nada.

Wojciech volta do trabalho e vamos até o estúdio onde seus amigos ensaiavam para tomar uma última cerveja e tentar se divertir um pouco.

Os integrantes da banda, Piotr, Bartlomiej (Se diz Bartuomiei) e Damianek fazem uma Jam session e cantam, ironizando, que eu não deveria ter comprado o carro. Depois me enchem de perguntas sobre a viagem e decidimos que usarei suas músicas nos vídeos e que eles vão compor uma música especial para a viagem.

Na volta os trams estão cheios de jovens indo para uma festa que acontecia perto do apartamento. Wojciech me explicou que era fim de semestre e essa era uma tradicional festa que acontecia logo após os exames finais e que todos iam desestressar e ficar muito bêbados. Mas nós decidimos ir para casa dormir.

No dia seguinte mais uma vez acordo ansioso. Esse tinha que ser o dia, com ou sem lentes.

Me levanto e Wojciech havia saído. Mando uma mensagem e ele me diz que tinha ido resolver algumas coisas no correio. Pergunto das lentes e ele diz que já havia ligado e que não havia previsão. Quase soco a parede de tanta raiva. Respiro fundo e tento esquecer.

Peço que ele ligue e avise que não poderia esperar mais do que até o meio-dia pelas lentes, pois tinha que estar em Berlim antes das 18h, ou perderia o lugar onde ficaria lá. Ele então me manda uma notícia num site polonês. Não entendo nada, mas vejo uma foto de um corpo coberto próximo à linha do tram que havíamos pegado ontem. Pergunto o que aconteceu e ele diz que era um amigo dele. O rapaz foi tentar atravessar a linha voltando da festa, completamente bêbado e foi atropelado. Morreu.

Ele volta bem triste para casa e eu não sabia se ficava triste junto ou se ficava bravo com a loja. Me senti um egoísta em não conseguir compartilhar a dor do meu amigo, bem ali do meu lado.

A loja liga e avisa que as lentes chegariam as 15h. Falo para ele manda-los à merda e digo que vou para Berlim. Pego minhas coisas e desço. Wojciech me dá um abraço meio melancólico, batemos uma foto juntos e ele bate umas fotos minhas no carro. Entro e vou-me embora. Mais uma buzinadinha como tchau.

Eram 11:30h quando saí. Logo de cara já virei uma rua errada e me perdi. O GPS, para variar, não funciona. Ao tentar me achar, paro num posto de gasolina para reabastecer. Saio e pego uma rua qualquer e de repente estou de volta exatamente na rua do apartamento. Que sorte. Dessa vez não erro mais o caminho e logo chego à estrada.

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Na estrada não tem muito o que fazer. É uma reta só, chata, entediante e sem ninguém para me fazer companhia. Sem rádio, a solução é ir cantando sozinho, meio que como um louco falando sozinho. Não me importo.

Acostumado a ser ultrapassado, vejo algumas pessoas virando a cabeça para ver melhor o carro. Algumas crianças apontam, alguns jovens dão risada e os mais velhos ficam surpresos. Dois carros com placa russa passam por mim. O primeiro vai batido e no segundo pude ver a passageira com a câmera na mão batendo uma foto minha. Tento fazer um joinha, mas o motorista não quis colaborar e logo acelerou.

Após uns 200km chego na primeira fronteira internacional da viagem. Atravesso uma ponte, deixando a Polônia para trás, e sou recebido pela Alemanha. E logo de cara começo a ver carros da polícia parados nos cantos da estrada.

Mais 100km e chego em Berlim. Sem GPS, tento me lembrar de cabeça como era chegar, já que tinha “estudado” o caminho antes. Não sei se foi por sorte ou por capacidade, mas chego sem errar.

Subo até o apartamento e sou recebido pelo Erik, que conheci em dezembro passado. Ele me diz que Tina, sua namorada e que eu conheci quatro anos antes, estava no trabalho. Logo eles iriam para sua cidade natal, próxima a Dresden, resolver pendências da festa de casamento.

Logo ele vai embora e eu fico então sozinho no belo apartamento deles. Antes de ir, ele me empresta o seu “bilhete único” e com ele eu vou até a Alexanderplatz procurar alguma loja de eletrônicos para comprar as lentes que esperara por dias em vão.

Uma das lentes não tinha. Justamente a que eu fiz tanta questão de esperar em vão. Tudo bem. Decido levar outra O filtro que já havia comprado não serve mais. Compro outro filtro. Mas pelo menos, em menos de uma hora, resolvi o problema que estava esperando por três dias. Volto ao apartamento e descanso. Não sem antes passar num mercado, comprar comida e, claro, cerveja. Afinal, estava na Alemanha! Faço o meu carbonara, tomo minha cervejinha e posso, finalmente, deitar e usar a internet sem preocupações.

Para o dia seguinte havia combinado de encontrar uma ex-colega de trabalho que está morando em Potsdam, cidade vizinha à Berlim. Encontro a Gabi na Alexanderplatz e vamos numa “alternative-tour” pela cidade, como dizia o site. O guia, um britânico que o seu sotaque todo cheio de pompas, fala com propriedade dos grafites da cidade, dos becos e ruelas. Nos leva até o bairro de Kreuzberg e depois até a East Side Gallery, onde termina o tour. Ele me pergunta o que faria com os vídeos que fiz e conto sobre minha viagem. Ele gosta da ideia, mas mesmo assim me passa o seu e-mail e diz para que eu solicitasse sua autorização do uso da imagem. Justo.

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Eu e a Gabi andamos mais um pouco e decidimos almoçar. Kebab, claro. Ela devora o seu e eu, incrivelmente, não consigo terminar o meu. Estranho.

Apesar do sol, já estava ficando tarde e Potsdam não é assim tão perto. Nos despedimos e eu volto para o apartamento. Não sem antes comprar mais umas cervejinhas. Nem preciso relembrá-los onde estava.

Aproveito para assistir a final da tal Eurovision. Para quem não sabe, a Eurovision é uma competição musical muito popular e tradicional na Europa. Descobri que artistas como o Abba e Julio Iglesias foram alçados à fama após vencerem a competição. Mas o programa em si é, para mim, muito brega. Não havia assistido nenhuma das qualificatórias e mesmo a final só peguei a parte da pontuação. Queria ver quem iria ganhar enquanto tomava minha última cerveja.

E foi bem ridículo. Na final estavam Ucrânia e Rússia. E o sistema de pontuação é mais ou menos assim: cada país dá votos de 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10 e 12 pontos de acordo com o que eles acharam melhor. Eu não sei se quem vota é um corpo de juízes ou se é através de SMS e ligações. De qualquer forma, cada representante do país vai ao vivo anunciar em quem eles votaram para 8, 10 e 12 pontos. E cada vez que a Rússia recebia pontos, era uma chiadeira só. Fora isso, havia os “complôs”. Belarus, país ao norte da Ucrânia e que é fortemente influenciada pela Rússia, “doou” seus 12 pontos para eles. E a Rússia retribui e dá os seus 12 para eles.

Mas no final quem ganha é um cantor austríaco que incorporou uma Drag Queen barbuda. Não ouvi a música. Aliás, não ouvi nenhuma e nem fiz questão de tanto. Achei legal ele vencer. Numa época em que vemos a xenofobia na Europa voltar a níveis do início do século passado, essa mensagem de tolerância não passou despercebida.

Desligo e vou dormir. Dia seguinte estava sem planos.

Acordo e ligo o computador. Tento falar com Jorge, um amigão meu venezuelano que morava em Vilnius também. Ele havia me dito que estava em Berlim e então combinamos de nos encontrar.

Vamos até o Reichstag, o portal de Brandenburgo. E enquanto isso vamos falando do Brasil. Cara interessado pelo nosso país. Fazemos algumas comparações com a Venezuela e ele me conta melhor sua situação na Europa.

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Apesar de ter mestrado e doutorado, cada um em uma grande instituição europeia, ele não tem conseguido nem emprego em telemarketing. Isso tem drenado todo o seu ânimo e percebo que ele não estava tão sorridente quanto a quatro anos atrás.

Ele está de favor a quase um mês na casa de um amigo letão, que o liga para que vá até o apartamento lhe entregar as chaves. Ele parte e eu vou até um museu ao céu aberto sobre o Muro. Aproveito para fazer vários vídeos e fotos legais de um lugar que não é exclusivamente visitado por turistas. Depois volto para o apartamento.

Na volta encontro a Tina, finalmente, e Erik. Haviam acabado de voltar de viagem. Conversamos um pouco sobre a viagem deles no Brasil, ano passado, e sobre a minha. E logo chegam seus amigos. Lech e Tania são namorados. Ele nasceu na Alemanha Oriental, ela, na Ocidental. Hoje moram em Berlim.

Fizemos um jantar meio catadão de tudo que tinha no apartamento e lá vou eu fazer as primeiras entrevistas oficiais da viagem. Ligo a câmera, aponto para eles e começamos a jantar. A conversa flui naturalmente e muitas boas perguntas e respostas vão surgindo. Gostei da interação e do jeito como tudo foi saindo. Fiquei feliz.

A uma da manhã Lech e Tania vão embora e Tina e Erik precisam ir dormir. Todos, menos eu claro, trabalham no dia seguinte. Aproveito para checar como ficou a imagem e o áudio e vou dormir.

Na segunda vou a Potsdam encontrar a Gabi de novo e conhecer a pequena cidade que outrora fora tão importante à Alemanha.

Pegamos uma senhora chuva ao descer do ônibus e corremos até o refeitório da universidade. Me passei por estudante e filei um bandejão alemão. E encontramos um amigo dela búlgaro, Adam. Contei sobre minha viagem e, mais uma vez, a reação foi de extrema surpresa. Combinei de encontra-lo em Sófia quando passar por lá. E se ele estiver por lá também, claro.

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Nós três andamos ao redor do Neu Palais, que fica logo atrás do refeitório. A chuva continua, mas fraca, e não consigo usar muito a câmera. Decidimos ir até o Orangerie e o Palácio de Sans Souci. Um complexo enorme em um parque só. Muito verde, gostei, mas tenho que ir. Vamos até a estação central e um abraço de despedida. Nesse caso eu sei que voltarei a vê-la em breve. Moramos na mesma cidade, trabalhamos juntos. Nada de melodrama.

Volto até Berlim numa bela jornada. Sinto que as pessoas no trem olham para mim. Acho estranho, porque em Berlim foi onde me senti mais “só mais um na multidão”. Me lembrei que em São Paulo, sempre que pego alguém olhando para mim, tenho a estranha sensação de estar com o zíper aberto. Nesse caso as pessoas me olhavam tanto que eu me sentia sem calças. Fiquei olhando pela janela e desisti de tentar achar um motivo.

No apartamento chego um pouco antes do que Erik e Tina. Eles haviam combinado com um outro amigo de vir para eu entrevista-lo, mas infelizmente ele teria uma reunião e não pôde ir. Erik chega e diz que Tina quer nos encontrar num restaurante libanês que sempre quis ir, mas nunca havia achado uma desculpa. Nada melhor do que um meio libanês para convencê-la.

Jantamos muito bem, voltamos ao apartamento. No dia seguinte eles iriam trabalhar cedo e eu iria só mais tarde para Praga. Abraços, agradecimentos e um pouco de tristeza. Mais um, aliás, dois, de muitos tchaus que terei que dar.

Antes de ir dormir combino o horário que devo chegar em Praga no dia seguinte, 20h, e vou à cama com a cabeça a mil, pensando na estrada, no novo país e nas novas pessoas e entrevistas que faria.

Durmo bem.

A segunda semana.

Assim como na quinta, dia 24, acordei também as 10 horas, exatamente uma semana depois. O carro estava pronto. O que não estava pronta ainda era a minha ansiedade em dirigir o carro por mais de 300 km pela primeira vez.

As malas já estavam arrumadas desde a noite anterior. Saio do quarto e vou lavar o rosto. Aviso Tomek que já estava tudo pronto. Comemos alguma coisa e logo tenho que ir. Não sem antes dar um abraço em Krisztina. Grzegorz eu já havia abraçado um pouco antes, pois tinha treino e teve que sair antes. Os dois, apesar da timidez inicial, gostaram dos abraços – acho.

Antes de sair, Krisztina pede para bater uma foto comigo, como se precisasse pedir. Descemos e Tomek bate mais fotos comigo no Lada e comenta “sabe como é minha mãe, ela gostou de você e quer fotos suas no carro”. Dou risada e faço caras assustadas para a câmera, como se estivesse sofrendo ao dirigir. Tomek então vai até o seu carro e eu vou atrás. Ele iria me guiar até a estrada.

Assim que chegamos, ele encosta e dá o sinal para eu continuar. O nosso tchau foi uma buzinadinha e agora era só eu, ali, com a Lubenica (lembrem-se, lê-se “lubenítsa”). Pego a estrada e vou sentindo o carro em velocidades mais altas. Fico surpreso com a estabilidade do carro. Apesar do tremilique (ou seria trimilique?) de antes, quando o carro entra em velocidade de cruzeiro, fica mais macio.

Ia vendo até onde o giro do motor ia quando aumentava a velocidade. Afinal, eram só quatro marchas e eu não queria ficar pisando fundo e gastando horrores de gasolina. Vi que entre 80 e 90 km/h ele se comportava bem e o motor não gritava tanto. Entre 2800 giros a 70 km/h e 3500 a quase 100 km/h, percorri os primeiros 350 km da viagem, entre Zabrze e Poznan.

A primeira metade era até a cidade de Wroclaw (lê-se “vrôtsuav”), que era até a pista dupla ia. De lá peguei uma estrada local que seguia até Poznan. Uma paradinha num posto para uma água, banheiro e olhada no mapa. Comprei um em caso o GPS do meu celular, que não é nenhuma maravilha, falhasse. Não tinha muito como errar ainda assim.

O tanque estava na metade. Tanque pequeno, só cabiam 40 litros e eu já havia rodado mais de 200 km. Consumo fraco também, não mais do que 12 km/l. Como ainda faltavam mais 180 km, decido colocar mais uns 10 litros, para garantir.

As pessoas do posto estranharam muito ao verem um Lada e mais ainda quando desceu dele um rapaz moreno, narigudo, cara de árabe. Me senti uma celebridade, tipo um ex-BBB, que todo mundo sabe quem é mas não lembra direito o nome.

Sigo meu rumo, dessa vez pela estrada local. Campos e mais campos de flores amarelas iam aparecendo. Nunca fui um expert em botânica, então confesso que continuo sem saber – e tampouco interessado em saber – que flor era. Só sei que a estrada era muito cênica, calma e gostosa de dirigir.

Fiz um stopmotion da segunda parte da viagem aqui.

Em Leszno, uma cidade a uns 80 km de Poznan, encostei o carro e liguei para o meu amigo, conforme o combinado. Coloquei no GPS do celular onde precisava ir e, apesar da localização ficar indo e vindo, segui meu caminho. Enquanto estava parado, um moleque de não mais de 15 anos deu um tapa no carro enquanto caminhava com uma amiga. Olhei feio e ele fez uma cara de pavor, pois devia ter achado que não havia ninguém no carro. Otário.

Uma hora mais tarde, 17h, já estava em Poznan e exatamente no ponto onde havíamos combinado. O GPS havia sido de bom uso, afinal.

Encosto num posto, onde vejo uns caminhões estacionados. Paro logo ao lado de um Fiat 126, fabricado na Polônia durante a época comunista. Muito popular, é cultuado entre os admiradores de carros “comunistas”, por assim dizer. Não estava lá aquela maravilha, mas a cor era praticamente a mesma da minha Lubenica.

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Wojciech (lê-se “vôitchiérr”) chega logo em seguida com Marcin (lê-se “mártchin”). Eles sobem no carro, não sem antes fazerem algumas piadas a respeito dele, e vamos até o apartamento. Estaciono, subo, largo as coisas num dos quartos e vamos comer.

Era feriado e no dia seguinte também seria. Assim como nós, eles emendam quando cai na terça ou quinta. Então, infelizmente, não haveria porque ir até a loja comprar a câmera ou até a prefeitura iniciar a regularização do carro.

Assim sendo, abrimos a primeira cerveja e fomos conversando muito sobre os meus planos. Marcin estava muito interessado e me perguntou mais coisas do que eu perguntei a ele. Queria saber todos os detalhes de como era a vida no Brasil e ficava surpreso ao ver as semelhanças que os dois países possuem.

Wojciech já estava mais afim de festejar. Havia quatro anos que não nos víamos e éramos com companheiros de baladas na Lituânia. Ele queria de todo jeito que essa noite fosse como a quatro anos atrás e logo trouxe a vodca.

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Praticamente desde que havia voltado ao Brasil que não tomava mais vodca, pura principalmente. Não pude recusar e logo já haviam ido três. Já estava mais para lá do que para cá. Hora de sair e ir conhecer o centro.

Poznan é a terceira maior cidade do país e é um dos principais destinos dos estudantes estrangeiros que vêm fazer intercâmbio. Querendo voltar ao clima do passado, Wojciech nos levou até a festa “oficial” dos intercambistas. E logo de cara já percebi que o passado continuava no passado mesmo. Um calor infernal, as pessoas se acotovelando e eu ali, perdido e bêbado sem entender nada. Em 20 minutos já não aguentava mais e fomos embora.

Pedi para irmos a um lugar mais tranquilo, sem tantos estrangeiros assim. Fomos então num bar meio rock and roll, sei lá. Não havia lugar para sentar e nos encostamos num canto, perto de uma mesa, e ficamos conversando. Nisso, um casal ao nosso lado ouviu um pouco e começaram a puxar conversa comigo. Por um tempo fiquei falando com eles sobre a minha viagem e eles adoraram. Quem não curtiu muito foi o outro casal de amigos deles que não trocaram uma palavra comigo e me olharam feio do começo ao fim.

Quando voltei do banheiro, comentei que estava muito frio – e estava mesmo, -1 grau para Maio é frio até para eles – e usei uma palavra em polonês que é usada simplesmente o tempo todo “Kurwa” – que é o nosso equivalente ao caralho, mas pode ser puta, merda e tantas outras coisas. No mesmo instante, o amigo do casal, um careca alto pra cacete, levantou e colocou o dedo na minha cara, começando a falar um monte de coisa que eu não entendi. Fiquei completamente sem reação e sem entender. Os amigos o puxaram de volta e eu então pude perguntar o que tinha acontecido. Eles não conseguiram me responder muito bem, mas nisso meus amigos já estavam me puxando e dizendo que já deu o que tinha que dar. Infelizmente eles estavam certos. Até agora não entendi e talvez seja melhor não entender mesmo o que aconteceu.

De volta à rua, decidimos então tentar o nosso último bar antes de irmos embora. Era um bar que para mim parecia muito esses botecos com cara de sujo mas que é chique, que nem tem aos montes na Vila Madalena. Lá eu disse que não queria mais nada, mas meu amigo trouxe uma vodca. Recusei. Ele então ofereceu ao casal que estava ao nosso lado. Eles foram puxando conversa e nisso o rapaz vem até mim e diz que eu sou indiano. Ele era indiano. Eu disse que não, sorri, e falei que era brasileiro. Pronto. Aí foi a moça que delirou. Ela era brasileira. A festa tava feita.

Depois de uns quarenta abraços que o hindu fez questão de me dar, conseguimos, finalmente, ir embora. Não sem antes ser parado por mais um polonês, dessa vez morador de rua, que ao descobrir que eu era brasileiro, abriu um sorriso desfalcado de dentes e disse “communist?”, quis brincar e disse que sim, já que ele havia sorrido, e ele ficou feliz e tentou me falar que ele também era e que na época do comunismo não vivia na rua. Infelizmente não tive como dar muita atenção, já era tarde, estávamos cansados, com frio e fome.

E então, finalmente, após uma semana, comi o meu primeiro Kebab. Que saudades. Sem cebola, é claro.

O dia seguinte foi inútil. Todos de ressaca, eu mais ainda por conta do cansaço da viagem e ainda tentando me acostumar ao novo horário. Após o dia inteiro em recuperação, um amigo italiano, Nicholas, que namora uma polonesa e mora na cidade e que também conheci quatro anos atrás, me liga e diz que iria jogar boliche com uns amigos e queria me rever. Decidimos ir então e o dia não foi assim de todo mal.

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No sábado, meus amigos decidem me levar até Gniezno, a uns 50km de Poznan e que foi a primeira capital da Polônia. Finalmente uma viagem histórica e não alcóolica.

Cidade agradável, pequena e bastante turística. Fomos num museu de história e fomos convidados a ver um filme em 3D sobre a história da cidade. Não entendi e nem consegui ver nada, já que o meu estrabismo não permite ver filmes em 3D, mas foi legal mesmo assim.

De volta a Poznan, Wojciech mais uma vez queria aprontar e chamou os amigos. Um deles, Mateusz trouxe uma vodca caseira feita de ameixas e que tem por volta de 60% de graduação alcóolica. Desastre anunciado. Uma, duas, três. Ufa, a garrafa acabou. Chegam mais amigos e mais uma garrafa de vodca. Ainda bem que estávamos em mais pessoas, então foram “só” mais duas doses antes de partirmos.

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Antes de irmos, Mateusz me conta que tem uma moto polonesa de 1962 e que gostaria de me mostrar. Infelizmente ele mora numa cidade um pouco longe, mas prometi que tentaria ir.

No caminho até o centro eu estava bem mal. Queria ser legal, mas eu podia ter dito não. Agora já não dava mais. Era só não beber mais nada que em pouco tempo já ficaria legal.

No centro, paro num quiosque e peço um energy drink qualquer. Já que tinha que ser legal e aguentar até o fim, eu precisava de alguma coisa pra me dar um tapa na cara. Saio do quiosque e meus amigos entram no bar ao lado, que era famoso pelos shots de vodca com coisas coloridas dentro. Me recusei a sequer entrar no bar.

Fora dele fui parado por dois moradores de rua, que pediram um cigarro. Pedi desculpa, disse que não falava polonês e eles então me explicaram em inglês. Dei um trocado e eles ficaram felizes e engatamos uma conversa. Sinceramente, uma das melhores que tive até agora.

Enquanto meus amigos “riam” de mim de dentro do bar, eu estava lá fora, salvo de beber mais e tendo uma conversa interessante sobre a vida na rua e o mundo das drogas, se é que dá para chamar assim, da Polônia. Cumprimentei-os, desejei sorte, e entrei no bar. Mas só para usar o banheiro.

Na rua novamente, meus amigos decidem ir ao mesmo bar dos estudantes estrangeiros que havíamos ido dois dias antes. Insisti para que não fôssemos, mas fui voto vencido. Pelo menos dessa vez eu não estava levando cotoveladas de graça. Mas ainda assim a merda era a mesma.

Um dos nossos amigos some, enquanto Wojciech fica circulando pela pista, tentando achar alguém. Eu fico mais para trás, com o casal de amigos dele, Rafal e Ewelina. Depois de mais de uma hora lá dentro, eles decidem ir embora e o nosso outro amigo ainda não tinha dado as caras. Dou uma circulada pela pista, encontro Wojciech e peço para irmos. Ele concorda, vamos até a chapelaria e a blusa dele havia sumido. Mais meia hora enrolando, ele volta para a pista e eu volto para puxar ele. Até que fica decretado, vamos embora. Eu subo a rampa do lugar e quando olho para trás, ele não subiu junto. Tento voltar, mas sou barrado. Tinha que pagar para voltar e eu estava sem um centavo no bolso.

Vou até a rua e encontro o nosso amigo perdido, que estava mais perdido que cego em tiroteio. Bêbado, tinha brigado com um dos seguranças da festa, que o expulsou e estava ali esperando a nossa boa vontade de ir embora.

Eu, cansado e irritado com o meu amigo, decido ligar para ele. Não atende. Mando mensagens, não responde. Começo a ficar muito irritado. Estava cansado e com muito frio e fome. Marcin me paga um Kebab e eu dou uma acalmada, mas ainda sem respostas de Wojciech.

Após uma hora, ele finalmente decide sair. Estava tão bravo que poderia ter dado um soco nele, mas nunca fui disso e vou continuar não sendo. Ele tenta me explicar que foi insistir um pouco mais a respeito de sua blusa e que acabou encontrando uma menina, xavecou e eles combinaram de sair no dia seguinte. Fingi ficar feliz por ele, mas no fundo eu queria era que ele fosse à merda mesmo. Ele paga o taxi de volta, meio que como um pedido de desculpas. O taxista, ao nos deixar, notou o Lada e comentou com o meu amigo que fazia tempo que não via um em tão bom estado.

No Domingo, mais um dia inútil. Wojciech sai cedo – 13h – para ir encontrar a menina da noite anterior e ficamos eu e Marcin no apartamento. Aproveito para editar o stopmotion, escrever um pouco, fazer as contas dos gastos e tirar o atraso da internet. Wojciech volta no final da tarde e Marcin precisa voltar a sua cidade, próxima a Poznan. Ele nos dá uma carona até o centro e lá damos uma volta até chegarmos a beira do rio Warta, onde há um centrinho cultural feito de contêineres reaproveitados. Faz frio, então não conseguimos ficar muito e logo voltamos para o apartamento. Conversamos mais um pouco e dessa vez vamos dormir cedo, afinal, segunda finalmente estava aí e havia coisas a serem feitas.

Segunda, acordamos cedo e vamos até o órgão de registro de carros da cidade. No posto de informações a moça nos diz que o processo é simples, basta o responsável pela casa, seja o dono ou locatário, provar que eu moro no lugar que é possível então registrar o carro em meu nome. O processo levaria não mais do que 20 minutos, desde que o oficial responsável estivesse de plantão, o que não era o caso desse dia. Ela falou para retornamos na terça que ele estaria lá. Ficamos felizes e vamos até o centro almoçar.

Ele quer me mostrar o estádio do seu time e vamos até lá para um tour guiado. O estádio é grande, bacana, bonito. O segundo maior do país. Recebeu jogos da Euro 2012 e é motivo de orgulho entre os torcedores do time, Lech Poznan.

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Vamos até a loja de câmeras onde havia encontrado os preços dos produtos que queria e, para minha infelicidade, quase tudo precisaria ser trazido, o que levaria, no mínimo dois dias. Decido fazer o pedido e esperar. Em Berlim havia pesquisado e os preços, por incrível que pareça, eram maiores por lá.

Voltamos até o apartamento, pois seu time iria jogar, infelizmente não no estádio que havíamos a pouco visitado, mas sim numa cidade chamada Bydgoszcz (lê-se “bidgoshtch”). Seu time vence por 2 a 1 e continua firme em segundo lugar tentando vencer o campeonato.

Tomamos algumas cervejas, damos risadas de alguns vídeos bizarros poloneses e brasileiros e vamos dormir tão cedo quanto a noite anterior.

A terça começa um pouco mais tarde que a segunda. Vamos até o local de registros com o Lada e meu amigo pede para dirigir. Sofre com a direção dura, a embreagem funda e o freio lento, mas chegamos inteiros. Retiramos as placas e fazemos o registro. A funcionária, ao saber que um italiano, com carteira de motorista brasileira estava se registrando na Polônia para comprar um Lada, não se conteve e riu baixinho. Era uma situação muito absurda para ficar impassível. Os três rimos um pouco e documento temporário em mãos, o carro finalmente era oficialmente meu. Trocamos as placas e voltamos até a loja de câmeras para ver como andava o processo.

A câmera havia chegado, mas não as lentes e as baterias. Compro a câmera, os cartões e tenho que ficar mais um dia para esperar os outros produtos.

Era aniversário de Wojciech e decidimos ir tomar umas cervejas na beira do rio com alguns de seus amigos. Patinhos no rio, muitos jovens bebendo e se divertindo. Mas ele tinha que trabalhar no dia seguinte bem cedo então não demoramos a voltar ao apartamento.

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Os aniversários aqui são bem tranquilos, pelo jeito. Tão tranquilos que nem sequer têm música para cantar. É só “feliz aniversário” e “que você viva mais 100 anos”. Achei meio triste.

No dia seguinte Wojciech sai cedo para trabalhar e eu fico no apartamento. Decido dar um tapa na casa, já que eu tinha tempo livre e queria retribuir toda a ajuda. Aproveito para também procurar em outras lojas da cidade os produtos que queria. Encontro uma lente numa loja e aviso meu amigo. Ele diz para eu o encontrar no restaurante onde trabalha para almoçar e que depois iríamos até a loja.

Chego ao restaurante, super chique, e ele me traz umas tostadas com rosbife e rúcula. Apesar de não gostar de rúcula, como mesmo assim e no contexto ficou muito bom. Depois vamos até a loja, num shopping afastado da cidade, e ficamos sabendo que não tinha lente coisa nenhuma. Decido comprar os filtros UV e um monopé, que estavam baratos. No caminho de volta, passamos no estádio do outro time da cidade, o Warta Poznan. Um estádio bem simples para um time bem pequeno e que ganhou notoriedade por conta de sua antiga presidente ser uma celebridade no país, inclusive saindo na revista Playboy local. O time ganhou o machista título de “time com a presidente mais gostosa do mundo”. O machismo é internacional mesmo.

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Voltamos ao apartamento e descansamos um pouco. Eu aproveito para arrumar as minhas coisas, na esperança de que iriam ligar da loja e avisar que os produtos chegaram. Não ligaram.

A noite cai e é muito provavelmente minha última na Polônia. Peço para irmos ao centro beber uma cerveja. Não podia ir sem uma despedida. Foram altos e baixos, mas foram duas semanas bem intensas. Nem sequer havia começado a viagem oficialmente e já estava me sentindo uma nova pessoa. Tantas pessoas novas me apoiando, ajudando, acreditando na minha ideia que até então é somente uma ideia, nada de concreto.

Nesse momento eu os deixo por aqui e vou me arrumar para ir me despedir da Polônia. Amanhã tudo recomeça. País novo, língua nova e finalmente a viagem propriamente dita começa.  Até a próxima.

Será que é esse?

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Venho procurando o carro ideal para a viagem a, literalmente, anos. Lembro de um branco que achei antes mesmo de ir morar em Vilnius. Fiquei abismado pelo preço (algo em torno de uns mil reais à época) e pensei seriamente em comprá-lo ao chegar. Teria sido legal, mas completamente desnecessário. Ainda bem que não comprei.

Semanalmente entro em sites poloneses – país onde pretendo comprar o carro – procurando por novas ofertas. Encontrei um verde já faz uns 3 meses. Lindo, simplesmente lindo. Ainda mais em se tratando de um palmeirense. O preço no entanto não era o que eu esperava gastar, 1500 euros. Deixei em “stand by” e continuei minha procura. Encontrei outros interessantes por preços mais módicos. Um, inclusive, era bem interessante. Mais novo (o verde é 81/82), esse era já 1988. Menos de 60 mil km rodados e a justificativa: o carro pertence a um cadeirante que mal tirava o carro da garagem. No anúncio ele garantia que ninguém jamais havia sequer sentado no banco traseiro. O preço? 800 euros! Os olhos brilharam, meu amigo polonês ficou de entrar em contato e conferir a veracidade do anúncio. Não conseguiu e o anúncio sumiu dias depois. Mas o verdinho 81/82 continua lá.

E para minha surpresa, entro hoje e vejo que o dono abaixou em 200 euros o preço. Agora quer 1300 e diz que ainda dá para negociar. E aí, será que é esse?

O link para o anúncio é esse.

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