Ljubljana, parte um.

Boris chegou às 22h para me buscar. No carro estava Miha, seu amigo. Viemos até o apartamento, logo ao lado, e eles me ajudaram a levar as coisas nas escadas.

Expliquei a eles o motivo do atraso e os dois ficaram surpresos como eu consegui chegar até Ljubljana. Eu também ainda estava, mas agora era hora de relaxar, tomar um banho, comer alguma coisa e descansar. Pedi licença e fui tomar meu banho.

Renovado e menos fedido, encontro eles na cozinha. Boris e Miha estão fatiando cogumelos, barriga de porco e ajeitando uma carne moída. Não faço a menor ideia do que poderia ser. Pergunto se precisam de ajuda e eles dizem que não.

Vamos conversando sobre a Eslovênia e os dois, Boris linguista e Miha historiador, ambos prestes a se formarem, vão me falando muitas coisas interessantes sobre o pequeno país onde nasceram.

Da cozinha passamos para o balcão, na parte de fora do quarto de Boris. Vejo bandeiras, fotos, livros. Muita coisa sobre a Irlanda. Boris é fissurado pelo país e estudou por conta própria quase tudo relativo ao país. Reparo numa bandeira Sérvia e ele já se apressa em me dizer que não tem nada a favor dos sérvios fascistas. Noto também uma foto de Tito e, quando olho mais de perto, Miha me confirma que é ele. Não havia dúvidas     que ficaria os próximos dias na casa de uma pessoa bastante peculiar.

No balcão ele liga uma churrasqueira elétrica. A janta seria um típico churrasquinho esloveno de balcão – porque se eles tivessem laje, seria lá, sem dúvidas. Faz frio, mas estava agradável.

Logo chega Maja, a pessoa responsável por me fazer encontrar Boris. Lembram-se se Ondrej? Pois bem, ele conheceu ela em Vilnius, quando estudaram, e no nosso almoço em Budapeste ele havia ficado de falar com ela sobre a possibilidade de eu ficar em sua casa, em Ljubljana. Como sua casa estava cheia, ela contatou Boris, que aceitou. E lá estávamos todos nós, nos conhecendo.

Maja é colega de Miha no curso de História. Todos se conhecem a um bom tempo, pois fazem parte de uma organização estudantil na Universidade de Ljubljana. É praticamente a mesma coisa que o DCE deles. Miha é o presidente do DCE da história e Boris é o presidente geral do DCE da Universidade. Aproveito e faço várias perguntas sobre movimento estudantil e eles me respondem com o maior prazer.

O churrasco vai saindo, a minha pança vai enchendo e o frio vai incomodando. Estava exausto e não consegui esconder. Perto da 1h eles perceberam que já não me aguentava mais de olhos abertos e partiram. Maja mora perto e vai a pé. Miha mora um pouco mais longe e Boris o leva. Eu me despeço, combinamos de nos ver nos dias seguintes e vou dormir.

Quarta acordamos não tão tarde. Pedi a Boris que me indicasse onde ficasse um correio. Uns dois dias atrás, Wojciech me avisara que o documento permanente do carro estava pronto e que ele precisava do temporário para efetuar a troca. Antes, passamos no prédio onde está o escritório da Organização Estudantil. Boris tem que fazer umas ligações e convocar outras organizações para um protesto previsto para a semana seguinte. Me explica que o governo quer tirar o desconto na passagem mensal de ônibus e que o protesto era para pressionar o governo a não fazê-lo.

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Ele então me leva até um correio, mando o documento, gasto uma nota para que ele chegue o quanto antes e então vamos almoçar. Antes, ligamos para Maja, pois havíamos combinado de almoçar juntos. Ela diz que estava com muita fome e que teve que almoçar. Combinamos então de nos encontrar após o meu almoço.

A Eslovênia é um pouco mais cara que os países que havia visitado até então. Boris sabe disso e me leva até um restaurante mais em conta, dentro de um supermercado. Experimentei o strukli (shtrucli), uma espécie de ravióli gigante recheado com ricota. Para acompanhar, um bife estranho, que não tinha nada de tradicional nem aqui e nem em lugar nenhum.

Ele pega o mesmo, mas paga bem menos. Me explica que não há refeitório estudantil, então o governo subsidia a alimentação dos estudantes, dando um desconto de cerca de 2,70 euros. Mas nem todos os restaurantes cediam o desconto. Achei interessante.

No caminho até o encontro com Maja, passamos numa borracharia. Perguntamos sobre pneus para a Lubenica e a resposta é negativa. Ficamos de passar outro dia e procurar em outros lugares.

Vamos então para um bar estudantil, junto ao prédio da Faculdade de Artes. O ambiente é legal, o dia está bonito e a cerveja é mais em conta. Roubo o wifi do lugar e vejo as mensagens no facebook e whatsapp. Greg, um russo que havia me encontrado no Couchsurfing e que estava morando em Bled, cidade a 50 km de Ljubljana, me avisa que está na cidade e quer me encontrar. Digo para que ele venha até o bar e logo ele nos encontra.

Greg é jovem, 23 anos, mas já fez muita coisa. Formado em economia, decidiu largar tudo em Moscou e se mudar para a Eslovênia, que ele insiste em dizer que é o melhor país do mundo. Nos conta que trabalhou um tempo como perito em acidentes aéreos e que viajou a Rússia inteira assim. Depois foi trabalhar para uma fábrica de armas. Largou tudo e veio.

Boris teve que ir um pouco antes de Greg nos contar tudo isso. E logo Greg também teve que ir. Eu e Maja ficamos mais um pouco e ela também precisa ir. Ela libera uma bicicleta para que eu usasse no meu caminho de volta para o apartamento de Boris. Sigo meu caminho sem erro.

O resto do dia é mais tranquilo. Sozinho no apartamento vou escrevendo um pouco. Saio depois das 20h para comprar algo no mercado e dou de cara com ele fechado. Volto e espero Boris voltar. Quando ele volta, tomamos mais algumas cervejas e conversamos mais, antes de irmos dormir.

Na quinta levantamos mais uma vez num horário bom. Tomo a liberdade de fazer o café e depois vamos até o mesmo bar de ontem, encontrar mais uns amigos de Boris. Lá conheço Kaja e Nastya, a primeira aluna de psicologia e a segunda estuda letras. São também da organização estudantil.

Vamos até um restaurante oriental no esquema self-service à vontade. Lá vem ao nosso encontro Miha, Urska e ????, seu namorado. O buffet está meio fraco, pois já são mais de 15h. Lutamos entre nós pelo pouco que restou e fico um pouco decepcionado. Mas tudo bem, comi em quantidade boa para o preço.

Depois do almoço, Miha, Urska e ???? têm que voltar ao trabalho. Kaja precisa ir embora também. Eu, Boris e Nastya compramos umas cervejas e eles me levam até um rio, uns 15 km afastado da cidade, para conversarmos.

O lugar é legal. Um rio de águas glaciais, azuladas, corre. Ao fundo montanhas ainda um pouco nevadas. Sentamos e conversamos. Mas logo a chuva vem e temos que correr para não ficarmos ensopados.

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Boris me deixa próximo ao apartamento. Mais uma vez tinha treino e ficaria até mais tarde. Eu volto ao apartamento e percebo que minha internet no celular havia acabado, assim como meus créditos. Estava completamente sem internet, já que Boris só usava a do seu celular e o apartamento não tinha internet.

Escrevo por horas e nada do Boris voltar. Não tenho como entrar em contato com ele e vou ficando entediado. Vou ao mercado, dessa vez antes de fechar, e compro comida. Faço uma deliciosa carbonara, para variar, e espero Boris decidir voltar.

Ele chega às 23h e eu já estava quase pulando da janela de tanto tédio. Que falta faz uma internet. Ele diz que encontrou um amigo após o treino e foram tomar uma cerveja. E que nós iríamos encontrar ele novamente no centro. Faço o mesmo prato novamente, dessa vez para ele, e vamos de taxi até a cidade.

Vamos a um bar barulhento no centro. Lá encontramos Nikola, estudante de sociologia. Ele me faz várias perguntas sobre o Brasil e ele demonstra saber bastante sobre o país. Conversamos bastante sobre política enquanto esperamos mais um amigo de Boris chegar.

O bar fica mais cheio e barulhento, ainda que nós tenhamos ficado do lado de fora. Decidimos mudar de lugar. No caminho até o novo bar comento com Nikola que ele me lembra mais sérvio do que esloveno. Ele tem a pele um pouco mais escura, como a minha, e sobrancelhas mais grossas. Ele então me diz que nasceu em Montenegro, numa cidade de minoria albanesa, e que sua etnia era, na verdade, albanesa, mas que ele era esloveno.

No novo lugar converso muito com ele sobre isso. Após um tempo chega o outro amigo deles. Ele chega e se apresenta a mim como “Miha, the Communist”. Boris e Nikola se borram de rir e eu fico sem entender.

Logo Miha me monopoliza e quer me contar tudo sobre ele. Trabalha na embaixada da Venezuela. Estuda sociologia e também faz parte da organização estudantil. Conversamos mais sobre a Venezuela do que sobre a Eslovênia.

Faz frio e peço para entrarmos. Ele me conta sobre sua família, sobre seus planos e diz que irá concorrer ao parlamento nas próximas eleições. E quando ele vai ao banheiro, Boris me conta que ele está bêbado e que ele falava muito quando estava assim. Percebi.

O bar ameaça fechar e vamos embora. Antes de voltarmos, paramos para comer a tradicional “Pizza Burek”. Burek é uma comida típica dos Bálcãs. É uma torta de queijo com massa folhada. Mas na Eslovênia eles a transformaram em pizza. Enfiaram presunto e cogumelos e era a larica favorita de 9 entre 10 eslovenos na madrugada.

O sabor é gostoso, mas a quantidade de óleo é enorme. Acordo no dia seguinte com o gosto de óleo na boca. Nikola e Miha dormiram no apartamento também. Miha já havia saído para trabalhar. Nikola e Boris acordam. Nikola tem que ir preparar um seminário e eu e Boris vamos almoçar.

Vamos novamente ao restaurante no supermercado. Dessa vez nada tradicional me pareceu atraente e pedi qualquer coisa. Comemos e antes de irmos, aproveito para recarregar meu celular.

Com internet novamente, nada me deteria. Boris me deixa no apartamento e tem que sair. Passo no mercado e compro mais comida. Enquanto continuo escrevendo, vou fazendo minha janta e tomando uma cerveja. Boris, mais uma vez, demora a voltar e entro em contato com Maja, que vem me encontrar no apartamento.

Boris chega com um amigo, David. Enquanto ele vai preparando coxinhas de frango para todos, David, eu e Maja vamos conversando. A Eslovênia, apesar de pequena, tem muitas diferenças entre as regiões, como eles me disseram. Mal parece que há espaço para isso.

As coxinhas ficam prontas e estão muito boas. Depois de comer decidimos ir até Metelkova, que eu não sabia da existência até então. Maja não quer ir e volta para casa.

Vamos buscar Miha, não o comunista, e vamos os quatro até o lugar. Uma praça improvisada entre prédios semi abandonados e muito grafitados faz o lugar parecer um freak show. Punks, emos, metaleiros, skinheads, muitos estrangeiros e nós. Havia, literalmente, de tudo. Parecia que a cidade inteira, que não é nenhum exemplo de grandeza, estava lá.

Vou conhecendo mais pessoas. Boris me apresenta Rubens, que ele chama de “judeu”. Realmente o cara parece um judeu. Mas ele brinca dizendo que não é. Até agora não entendi se era ou não, mas enfim. Ele me apresenta Jure, que é estudante de arquitetura. Ele conhece muitos brasileiros e fica me falando o quanto ama Oscar Niemeyer. Mudo um pouco o tema e ele me fala de política. Tem só 20 anos e fico interessado em saber sua opinião.

Boris some e fico eu, Jure e Miha. Damos uma volta pelo lugar e encontramos Boris com outros amigos. Um dele, Alexander, me monopoliza. É fã de futebol e fica surpreso quando digo que sou Palmeirense. Diz que estava na Croácia uns meses atrás e que havia visto uma jaqueta do Palmeiras a venda, o que o deixou bem surpreso. Quando soube que eu torcia para o time, achou uma grande coincidência.

Ele me disse que seu time favorito no Brasil era o Fluminense, por conta da “heroica” arrancada que eles tiveram uns anos atrás. Explico para ele um pouco do passado e presente desse time e ele já não é mais tão fã assim.

Já são quatro da manhã e faz quatro graus. Tenho poucas blusas e fico com muito frio. Pergunto a Boris umas três vezes quando iríamos e ele responde “logo”. Como já havia percebido, a percepção de tempo dele é bem diferente da minha. Aguento firme e as cinco da manhã voltamos.

O dia seguinte teria a Marcha da Maconha da cidade e eu estava empolgado em participar do protesto. Queria dormir cedo para poder ir lá e Boris não estava nem aí.

O dia seguinte tento acordar não muito tarde, o que é inevitável. Entro em contato com Nikola, que me diz que iria também. Boris tinha que ir visitar familiares.

E a Marcha da Maconha se revelou ser uma bela de uma furada. Que eu conto no próximo relato.

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