O dia em que a Lubenica quase se foi.

Acordo cedo na terça, dia 27 de maio. Judit também levanta cedo, tem aula. Eu tenho estrada. Tomamos o café, pego minhas coisas e descemos. Ela está um pouco atrasada. Damos um abraço em frente ao prédio, agradeço por tudo e ela corre em direção à universidade. Eu vou mais tranquilo. Com uma mochila de 20 kg nas costas e uma de 15 kg na mão, não tenho porque ter pressa.

Pego o metrô e volto até o parque onde havia deixado minha Lubenica. Fico feliz, como sempre, ao ver que ela ainda está lá, me esperando. Abro o porta-malas, coloco a mochila grande. A mala menor coloco no banco do passageiro. Ligo o carro para ver se está tudo bem e nenhum problema acontece. Sorrio. Ligo meu GPS, coloco o endereço em Ljubljana, ligo o carro novamente e coloco o cinto.

Quer dizer, tento colocar o cinto. Ele não vem. Insisto um pouco mais e nada. Está travado. Respiro fundo e tento puxar devagar. Nada. Tento puxar com força. Nada. Fico irritado. Respiro fundo e tento mais algumas vezes, sem sucesso. Estava incrédulo. Teria que perder mais um dia por conta do cinto de segurança.

Saí do carro e abri o porta-malas. Procurei umas ferramentas, todas muito velhas, e achei uma chave sextavada. Já que o cinto estava travado, tentaria soltar ele. Após muito esforço e quase um dedo arrancado, consegui tirar o cinto. Ele foi recuando, recuando até que chegou até o fim. E nada de soltar. Respirei fundo.

Olhei para o cinto do passageiro e testei. Estava deslizando melhor que faca quente na manteiga. Pronto, já tinha conseguido soltar um dos cintos, então conseguiria soltar esse e colocar no lugar do motorista.

Uma hora se passou, quase arrebento meus dedos, mas consegui colocar o cinto do passageiro no lugar do motorista. Ficou um pouco estranho, porque não era o cinto adequado, mas estava bem preso e isso era o suficiente. Coloco tudo de volta no porta-malas, ligo o GPS e adeus Budapeste.

O caminho até a estrada é bem simples. Passo mais uma vez pelo centro da cidade, atravesso a ponte, dessa vez com a vista incrível de Buda, e chego até a estrada.

Vou seguindo nos meus habituais 90 km/h pela faixa da direita. Após uns 80 km sinto que a traseira do carro começa a trepidar. Encosto no acostamento, desço e dou uma olhada nos pneus. Está tudo ok, aparentemente. Decido seguir até algum posto ou estacionamento, mais seguro para olhar melhor.

O carro volta a trepidar em velocidades mais altas. Tento ir mais pianinho, mas os caminhoneiros vão à loucura quando encostam atrás de mim. Acho um estacionamento e entro.

Lá desço novamente e checo mais a fundo. Não havia nada, absolutamente nada de estanho, e eu já estava ficando preocupado. Balanço o carro, para ver se poderia ser amortecedor, e nada de estranho acontece.

Dois caminhoneiros começam a falar comigo em húngaro e eu não entendo nada. Eles fazem sinal de balançar e eu balanço o carro. Eles fazem que não. Não entendo. Entro no carro e eles insistem em falar comigo, fazendo o mesmo sinal de balançar. Continuo sem entender. Desço e balanço o carro de novo e eles quase riem da minha estupidez. Eles é que precisavam de ajuda. Depois de entender o que era, fui até o caminhão de um deles e ajudei a balançar a cabine, que aparentemente estava emperrada e não subia.

Volto ao carro e decido ir até um posto de gasolina, onde poderia tentar ajuda. Sigo o caminho e o carro trepida cada vez mais. Vou a 60 km/h e ainda assim o carro trepida muito.

Um caminhão cola na minha traseira e começa a me pressionar. Dou uma pisadinha no acelerador e o carro começa a escapar de traseira. Entro em pânico. Por meio segundo havia perdido o controle do carro.

Seguro forte a direção, solto o pedal do acelerador e deixo o carro desacelerar naturalmente. Consigo segurar o carro, mas o caminhoneiro atrás continua me dando sinal e luz. Mando ele à merda e ligo o pisca alerta. E o carro pulando e eu segurando o mais firme possível.

Por sorte em menos de 1 km havia um posto e eu consigo encostar. Desço do carro e finalmente entendo o que se passa. Um dos pneus traseiros simplesmente rachou e deixou a mostra uns arames, que não permitiram que ele explodisse, mas que ao mesmo tempo foram o motivo da escapada que o carro quase deu.

Pego as coisas no porta-malas e começo o processo de troca de pneu. A chave de roda é velha e os parafusos da roda também. Nenhum encaixa bem na chave e eu não consigo soltar os parafusos. Paro algumas pessoas pedindo ajuda e, para variar, quase ninguém quis me ajudar.

Por mais de uma hora insisti em tentar soltar a roda, em vão. Já tinha ido até o posto perguntar se havia algum telefone de emergência e o rapaz me informara que eles cobram 70 euros para ajudar. Que filhos da… enfim.

O tempo se passava, eu não conseguia soltar a roda de jeito nenhum e nenhuma boa alma me ajudava de verdade. Decidi que infelizmente teria que rasgar os 70 euros. Pedi para o cara ligar. Em 45 minutos eles chegaram e nem falaram comigo direito. Trocaram o pneu rapidinho e logo estavam me cobrando o dinheiro.

Antes mostrei o calombo que tinha no outro pneu, que iria no lugar do rachado, e os dois fizeram cara bem feia. Me perguntaram para onde iria e disse Ljubljana e os dois enfeiaram ainda mais a cara. Um deles me fez sinal para ir devagar e era isso ou sabe-se lá mais quanto eles me cobrariam para levar o carro para trocar o pneu.

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Paguei 50 euros e o resto completei com o pouco dinheiro húngaro que ainda tinha. Eu tinha cerca de 25 euros em Forints que planejava usar para reabastecer o carro antes de chegar até a Eslovênia. Como eles não tinham troco para os 100 euros que tentei dar, completei com dinheiro húngaro.

Peguei a estrada e vim a não mais que 80 km/h o caminho todo. Os caminhoneiros queriam me matar. Mas era ou eles, ou eu. E sou mais eu, sempre.

O tanque ia descendo e nada da Eslovênia chegar. Paro num posto e uso os 10 euros restantes para colocar gasolina. Mais oito litros e cruzar os dedos para ser suficiente para chegar até a fronteira.

O ponteiro começa a chegar no 0 e a luz da reserva ameaça piscar e nada da Eslovênia chegar. Não sabia o que estava me deixando mais nervoso, se era o pneu poder explodir a qualquer momento ou o carro simplesmente parar de funcionar. Respiro fundo, ativo os mantras budistas que minha mãe me ensinou, faço o relinchar do cavalo que minha namorada me ensinara e tento seguir o caminho sem pensar muito nisso.

De repente vejo uma placa, sem muitos avisos, que estava atravessando a fronteira. E junto à placa havia um posto. Soltei um suspiro de uns 30 segundos e parei no posto. Enchi o tanque e vi que ainda tinha uns 4 ou 5 litros restantes. Aproveito para comprar o vignette esloveno e sigo o meu caminho um pouco mais tranquilo. Agora o problema era, novamente, só o pneu. Só.

O caminho entre Budapeste e Ljubljana tem 470 km. O pneu rachou quando eu tinha rodado menos de 90 km. Foram quase 400 km a menos de 80 km/h.

A viagem, que normalmente duraria umas 6 horas, levou mais de 10. Havia chegado ao carro as 9h e cheguei em Ljubljana as 19:30h. Quando estacionei perto do prédio onde ficaria, comecei a berrar “Caralho! Caralho! Eu não acredito!”. Me senti o Ayrton Senna completando a prova no Brasil em 1991, tamanha emoção que sentia em conseguir chegar inteiro depois de tanto perrengue. Poucas vezes respirei tão aliviado quanto nesse momento.

Coloquei todas as minhas coisas no porta-malas e andei um pouco a procura de um cartão SIM para o meu celular. Boris, o cara em que eu iria ficar na casa, havia me avisado que poderia me receber antes das 18h ou depois das 21h, pois tinha compromisso. O planejado era chegar antes, mas com os perrengues, acabei chegando depois. E fui procurar o cartão para poder avisá-lo que cheguei.

Estava fedendo, com as mãos imundas de graxa, pneu velho e ferrugem. Meus braços estavam bronzeados ao estilo motorista, com as marcas da manga da camisa. Estava todo descabelado e com os braços doendo de tanto esforço, mas estava aliviado e feliz. Muito feliz.

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Achei o cartão, mandei uma mensagem e fiquei esperando no carro. Coloquei uma música e relaxei finalmente.

Boris chegou para me buscar às 22h. E a minha estadia em Ljubljana, que se revelou ser bem mais longa que o esperado, estava só começando.

E isso eu conto depois.

2 thoughts on “O dia em que a Lubenica quase se foi.

  1. Cara, pneu com bolha certamente não é o ideal para se viajar, mas, em geral, não é motivo para desespero. Fiquei mais de 6 meses rodando com um pneu com bolha anos atrás. Contudo, fica a lição. Pneu é coisa séria. Já estourou comigo na estrada (não esse com bolha; outro). De lá pra cá aprendi que vale a pena gastar mais.

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