Bratislava

Matěj, Eva e eu pegamos a estrada por volta das 19h. Ainda havia um pouco de sol, mas ele já estava indo descansar. A distância era curta até Bratislava, cerca de 130 km. Em menos de duas horas estaríamos por lá.

No caminho temos que parar para comprar outro vignette, o tal adesivo que o carro tem que ter para poder rodar no país. O vidro do carro já estava começando a colecionar esses adesivos.

Não demora muito e já chegamos. Não sabia bem onde poderia estacionar e nem eles onde ficariam. Vamos rodando o centro até que Matěj diz para que eu virasse uma rua, onde ele achou que poderia ter lugar de graça. Viro e uma vaga perfeita aparece. Nenhuma placa dizendo ser área residencial ou paga. Estaciono, pegamos as coisas e vamos a procura de um hostel para eles. Eu já tinha o meu lugar para ficar.

A menos de duas quadras achamos um hostel, eles entram, gostam e decidem ficar. Eu roubo o wi-fi do lugar para perguntar a Timea, a menina que eu ficaria na casa, como chegaria até ela. Ela me responde e diz que está com um amigo num bar a menos de 200m do hostel onde estávamos. Que coincidência. Tudo bem que Bratislava não é nenhuma metrópole, mas achar uma vaga de graça perto de um hostel e perto de onde minha amiga estaria foi, sem dúvidas, um golpe de sorte.

Comento com eles que iria encontrar Timea ali perto e eles se convidam para ir. Em 15 minutos já estávamos no bar.

Timea, apesar do nome húngaro – e eu aposto que você também não sabia que era húngaro, é 100% eslovaca, como me disse. Ela é jornalista e havia acabado de se demitir do jornal onde trabalhava. Foi multada em 25% do salário por ter feito comentários contra o premiê eslovaco em seu trabalho. Entenderam? Ela só comentou algo contra ele, não foi nem publicação, só comentário, e recebeu uma multa de 25% do salário. Irritada, ela e mais outros dois amigos decidiram se demitir.

Eu, Timea, Matěj e Eva vamos conversando sobre as diferenças linguísticas entre o Eslovaco e o Tcheco – quase nenhuma como eles mesmo assumiram – e sobre quão democráticos os países estão hoje em dia. Em tom irônico, claro, após a multa que Timea recebera.

O bar é bem legal, mas está vazio. Afinal, é segunda feira e apesar de por lá eles beberem muito, segunda é segunda em qualquer lugar. Entre uma e outra música brasileira – que faço questão de avisar até que eles ficam de saco cheio, chega um dos donos do bar e avisa que a área externa estava fechando e que era para entrarmos. Lá dentro ele nos avisa que é aniversário de uma das donas do bar e que a partir de então tudo seria de graça. O que mais eu precisava?

Apesar da oferta tentadora de poder beber de graça, bebemos só mais uma cerveja e vamos embora. Matěj e Eva vão um pouco antes, pois estavam cansados, e eu e Timea vamos até o apartamento dela.

Na manhã seguinte vamos até o antigo local de trabalho dela e encontramos Vlada, sua amiga que também havia se demitido. Foram acertar as contas e nunca mais aparecer por lá. Depois vamos até um parque e entrevisto as suas. Logo chega o outro amigo delas que também se demitiu, Marcej.

O tempo está ótimo. Sol, calor e um ventinho refrescante. A fome bate e vamos até um restaurante comer a tradicional comida eslovaca – e que eu tinha certeza que teria bacon e batata, ou seja, não teria como comer mal.

Depois damos uma volta e paramos num bar de estudantes. Lá eu experimento Koffola, a coca-cola tchecoslovaca. É um primor na arte da amargura. Me senti uma criança experimentando água tônica pela primeira vez, achando que era Sprite. Sabe? Aquele sabor docinho no começo que te faz feliz por meio segundo, até que aquele amargor te atinge em cheio e você quase chora de tristeza. Bem, a Koffola é a mesma coisa. Parece um Jagermeister aguado e sem álcool. E eles adoram.

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O susto inicial passa e o restante do copo até que desce tudo bem. Conversamos sobre tudo, literalmente. Desde as versões comunistas de coca-cola até desenhos animados da infância deles. Matěj e Eva estão conosco também. Marcej me pergunta muito sobre o Brasil e me diz diversas vezes que vai se mudar para lá. Ele me pergunta se eu acharia uma ideia interessante e eu falo que o Uruguai atualmente me parece mais legal que o Brasil. Logo ele muda o discurso e diz que quando for morar em Montevidéu, virá me visitar em São Paulo algumas vezes. Rimos bastante.

A noite vem chegando e ele, Matěj e Eva tem que ir. Vlada, Timea e eu damos uma volta na cidade e ela também precisa ir. Ficamos eu e Timea, que me leva até um bar chamado KGB.

O nome diz tudo. Quadros do Stálin, Lênin e outras figuras soviéticas estão espalhadas pelas paredes. Uma ou outra foto ironizando Putin. Tudo sarcástico. Tomamos a última cerveja e vamos dormir.

A quarta amanhece mais quente que o dia anterior.  Eu e Timea saímos e vamos encontrar Vlada novamente. Caminhamos o centro da cidade, que é bem pequeno e gostoso. Elas querem ir assinar um abaixo assinado promovido por um dos partidos eslovacos e que tenta oficialmente separar estado e igreja. Quem diria, não esperava que em pleno 2014 a Eslováquia ainda não era um estado laico. Mas, bem, o Brasil também é e nem por isso deixamos de colocar a religião à frente de tudo.

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Vamos até o carro pegar uma mala que Matěj havia esquecido e Timea e Vlada aproveitam para bater fotos do e no carro. Eu fico feliz de ver que ele ainda estava lá.

Encontramos Matěj pela última vez. Nos despedimos e ele me entrega um bilhete muito bonito que ele e Eva escreveram, me agradecendo e desejando sorte. Fiquei muito feliz e emocionado.

Vlada precisa comprar entradas para um festival e vamos até um Shopping Center. Marcej vai nos encontrar lá e decidimos dar uma volta de carro pela cidade. Eles me mostram Petrzalka, o maior bairro da cidade e que fora totalmente construído durante o período comunista. E a arquitetura não nega as origens do bairro. Blocos de prédios colados, campos abertos e tudo meio sujo e cinza. Realmente a sensação era de estarmos uns 30 anos atrás no tempo. Até os ônibus eram mais antigos que no restante da cidade.

Eles comentam sobre o bairro conhecido como “Oktagon”. Peço que me levem lá, mas eles dizem ter medo. Me mostram uma foto do lugar e eu entendo o porquê. Prédios enormes e horríveis em formato hexagonal ou sei lá o que, todos caindo aos pedaços. Era, sem dúvidas, um lugar interessante para ir, mas se os locais dizem não ser seguro, quem sou eu para duvidar?

Marcej nos leva de volta ao centro e vai embora. Um abraço de despedida e ele e Vlada seguem seu caminho. Eu e Timea paramos numa escadaria a beira do rio Danúbio e aproveitamos o tempo bom.

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As 18h ela queria ir até um seminário chamado “Teach for Slovakia”, onde a ideia era pegar estudantes e recém-formados em diversas áreas e coloca-los para dar aulas em escolas em regiões mais pobres do país. Ela me diz que o seminário seria em inglês, pois o público não era somente de eslovacos e eu topo ir junto.

Chegamos lá e eu sou o único estrangeiro. O seminário inteiro é em eslovaco e eu fico completamente perdido. Por mais de uma hora eu não entendi nada do que estava acontecendo e não sabia como ir embora. Foi uma experiência engraçada.

Enquanto o seminário acontecia, aproveitei para roubar um pouco do wi-fi e combinar com Mattia, um grande amigo meu italiano e que havia acabado de chegar em Bratislava, onde nos encontraríamos. Após quatro anos o veria novamente. Decidimos ir no mesmo restaurante que eu fora no almoço do dia anterior.

Timea vem conosco e, coitada, fica um pouco perdida diante das nossas conversas. Depois do jantar vamos até o KGB e terminamos a noite num outro bar chamado Valhala. Mattia precisa ir embora pois teria que uma reunião na manhã seguinte. Estava lá a trabalho. Nos despedimos, fico bem triste em deixar um grande amigo ir sem saber quando o poderia ver de novo. Mas, é a vida, não é? Já sabia que isso iria acontecer muitas vezes nessa viagem.

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Eu e Timea vamos embora. Para o dia seguinte eu havia mudado um pouco os planos. Ao invés de ir até Kosice, cidade no extremo leste da Eslováquia, decidi ir direto a Budapeste, mais perto. Como a situação na Ucrânia não é das melhores, sabia que teria que contornar o país e isso me faria passar por Kosice mais para frente. Então decidi que pararia lá quando tivesse que passar obrigatoriamente daqui uns meses.

Acordo quinta tarde, tomo um banho para reanimar, arrumo as coisas e vou até o carro. Timea me espera numa esquina próxima, pego ela e vamos até um posto de gasolina. Reabasteço, vou até o apartamento, pego minhas coisas, dou um abraço nela e antes de partir, ela me presenteia com uma sacola com doces, frutas e um red bull para o caminho. Mais uma vez fico emocionado e muito feliz. Mais uma despedida acontecia.

Ela sobe, eu entro no carro, tomo meu red bull e vou pensando. Pego a caixinha de som que Marie havia me dado em Brno, coloco uma música e coloco no shuffle. A primeira música que toca é “O Velho e o Moço”, dos Los Hermanos. Já faz uns anos que não escuto mais eles, mas ainda gosto muito. Vou cantarolando a letra e me emociono um pouco quando ele diz “Eu sei que ainda vou voltar, mas eu, quem será?”. Pois é, a cada dia um novo Renato nasce. Logo a letra canta “E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora se não sou eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição”. Aceitei a condição, liguei o carro e segui para Budapeste.

De Praga a Brno.

Depois de pegar a Lubenica no mecânico, em Praga, tentei fazer o caminho até a estrada de cabeça. Aparentemente era bem simples. Direita, seguir reto até a avenida antes da ponte, esquerda e abraço. Seria lindo se fosse verdade. Virei numa avenida antes e de repente estava completamente perdido.

Encosto e ligo o GPS. Ele demora os seus habituais quinze minutos para me localizar e assim que me acha, coloco o endereço em Brno. Ele diz que não existe. Coloco somente Brno. Não existe. Respiro fundo, vou dando zoom out no mapa até encontrar Brno. Clico e ele me traça o caminho. Primeiro me pede se quero o caminho sem pedágios, o que acho estranho, já que não há pedágios no país. Clico não e vou seguindo.

Em três minutos o GPS perde a minha localização justamente quando eu estava num entroncamento de umas vinte avenidas ao mesmo tempo. Aquele momento que mesmo com o GPS a gente costuma errar. Quase parei no meio da rua para perguntar, mas tive que escolher um caminho e, claro, escolhi o errado. O detalhe é que as placas indicam os bairros e não as cidades. Por mais de meia hora não encontrei uma placa indicando as rodovias.

Fui seguindo pelo caminho errado até que o GPS me achasse de novo e mostrasse o caminho. Demorou, mas consegui. Depois de um rolêzinho de mais de meia hora pelas perifa de Praga, finalmente encontro a primeira placa indicando Brno. Aleluia, irmão.

A estrada é uma reta só – e o timelapse da viagem você pode ver aqui. Percebo que, diferente dos outros países que tinha ido até então, aqui os motoristas costumam ir pela faixa da esquerda, ao melhor estilo brasileiro (ou seria só paulista?). Logo entendo o porquê. Depois de uns 50 km, a faixa da direita, apesar de sem buracos, fica desnivelada. Isso faz o carro ficar saltando o tempo todo. A faixa da esquerda é boa, mas a da direita é esse rally todo. Me senti como o Ace Ventura dirigindo o seu Defender na estrada.

Não há a menor possibilidade de eu tentar seguir pela faixa da direita. A Lubenica, apesar de velha guerreira, não é rápida o suficiente. Tenho que enfrentar o pula-pula da principal rodovia tcheca até o fim.

Quando as placas indicavam 30 km até Brno, encostei num posto, liguei meu GPS novamente, encontrei o endereço certinho e segui o caminho. Em meia hora estava lá.

Antes mesmo de descer do carro, Daniela já estava me esperando. Desci, nos apresentamos e ela comentou que ouviu um barulho diferente de motor e suspeitou que era eu. E era mesmo.

Entramos no apartamento e lá estava Matěj (se diz Mátchiêi), irmão de Daniela. Sentamos e conversamos um pouco. Daniela se ofereceu para cozinhar algo e eu e Matěj fomos até um pub perto comprar uma cerveja que, aparentemente, só vende nesse lugar.

Voltamos, comemos, conversamos e bebemos a cerveja. Em breve sairíamos. Matěj queria me mostrar um bar numa região alternativa da cidade. Antes de irmos chega Marie, amiga da Daniela. E no caminho encontramos Eva, namorada do Matěj.

Nós cinco começamos a subir um morro bem no meio da cidade. Ruas estreitas e casinhas simples. Matěj me explica que nesse morro ficava a vila dos antigos funcionários da empresa estatal de mineração e que depois do fim do comunismo, ficou esquecida. De uns anos para cá, artistas começaram a se mudar e o bairro virou o centro cultural da cidade. E, claro, as casas se valorizaram.

Chegamos até um bar abarrotado de gente. E de todo tipo de gente. Me senti na Mercearia São Pedro, mas com um público um pouco mais velho.

Fazia frio e dentro do bar todos, literalmente, fumavam. Entre passar frio e ficar cheirando cigarro, eu, Daniela e Marie tentamos a primeira opção. Matěj chega com umas cervejas e vamos conversando.

A banda começa a tocar. É meio mixuruca, mas são todos “moradores” do bairro. Continuamos conversando até que o frio começa a machucar e decidimos defumar dentro do bar. Nem bem entramos e Matěj me puxa para fora e diz que tem que me mostrar um lugar. Subimos o restante do morro e chegamos até uma pedra onde havia uma vista bem legal da cidade. Bato umas fotos e voltamos logo.

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Matěj vai fumar com um grupo de amigos e nisso um cabeludo vem falar comigo e disse que ficou sabendo da minha viagem. Ele comenta que tem um Fusca verde e conversamos um pouco. Seu nome era Matoej ou algo assim. Esses nomes tchecos não são os mais fáceis de se escrever.

Depois de defumarmos por um bom tempo, aviso as meninas – que não estavam tão a vontade nesse bar – que poderíamos trocar de lugar, já que aparentemente Matěj ainda iria longe em sua noite e nós não estávamos com esse pique todo. Nos despedimos e descemos o morro.

No centro de Brno, Daniela e Marie vão me mostrando alguns prédios e ruas. Logo chegamos a um bairro residencial com cara de chique onde fica um bar de cervejas regionais. Tomamos uma última cerveja conversando sobre a vida em Brno e logo voltamos ao apartamento.

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Antes de dormir, Daniela faz uns ovos mexidos e vamos conversando mais um pouco antes de cada um ir para sua cama. No dia seguinte decidimos que iríamos até a cidade de Marie, Ochoz u Brna, próxima a Brno e que tinha uma igreja sei-lá-o-que.

Durmo o quanto quero e preciso e acordo tarde, obviamente, no dia seguinte. Daniela está acordada a um bom tempo em seu quarto e Marie saiu para encontrar um amigo. Tomo café e logo Marie volta e vamos, com ela dirigindo, até sua cidade. A estrada não é a melhor de todas e Marie não é das mais seguras no volante. Eu e Daniela rimos um pouco disso, mais para evitar mostrar o medo que estávamos sentindo do que realmente por ser engraçado.

Chegamos até a cidade e realmente a igreja é imponente. Parece não fazer parte do resto da cidade, ou melhor, a cidade parece não fazer parte da grandiosidade da igreja. Alguns turistas estão por lá também e damos uma entrada para ver. Conversamos um pouco sobre religiosidade no país e quão religiosos são os jovens no país e não me surpreendo ao saber que a República Tcheca é um dos países menos religiosos do mundo.

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Saímos e vamos até a casa de Marie. Lá sou introduzido às “vices” (lê-se vítsês) da região. São as bebidas destiladas que eles fazem com tudo quanto que é tipo de fruta que eles tenham no quintal. A mais famosa é a slivovice, que é feita de figos. Tem também a calvados, de maça, e a merunkovice de damasco. Enquanto experimento e tento diferenciar algum sabor de fruta no meio de tanto álcool – fingi ter sentido, pra não pegar mal, mas na verdade pra mim era tudo puro álcool – vamos conversando sobre essa relação mundialmente famosa dos tchecos com o álcool. Como pude ver, a cerveja é o orgulho nacional, mas eles não ficam só nela. Os vices da vida são também fortes na cultura, especialmente nas cidades pequenas, e, como pude ver mais tarde, o vinho também é muito presente. Ou seja, esse papo de não misturar não é com eles.

Um dos irmãos de Marie, Vlaclav, chega e também participa da conversa. Ele é um kitesurfer, o que é bem improvável num país sem praias. Me conta sobre suas viagens até a Polônia para poder praticar o esporte e como vem tentando virar profissional.

O sol se põe e é a “noite dos museus” em Brno. Quase uma virada cultural deles. Voltamos à cidade então e Marie devolve o carro ao amigo, não sem antes nos dar mais alguns sustos. O tempo está horrível e não para de chover. Tentamos andar pela cidade com essa garoa chata nos perseguindo e depois de tentar, sem sucesso, pegar algum museu legal, decidimos ir até um bar.

O bar era bem interessante. Chamava-se “De Pé” e a ideia era justamente essa. Mesas espalhadas pelo bar só para que as pessoas apoiassem a cerveja ou a comida, mas nenhuma cadeira. Depois de mais algumas cervejas regionais e mais conversas sobre a vida em Brno, voltamos ao apartamento.

Matěj havia voltado durante a tarde e sumido novamente. Daniela me diz que já nem tenta mais descobrir onde o irmão anda e eu fico feliz de ter ficado com elas e não com ele. Sabe-se lá onde estaria a essa hora. Vamos dormir.

No Domingo de manhã, Martina, uma amiga de Daniela e que originalmente era em sua casa onde ficaria, liga dizendo que gostaria que fôssemos visita-la em sua cidade, Straznice (strájnitsê), próxima à fronteira com a Eslováquia. Combinamos que sim e vamos os três de Lubenica para lá.

Não queria pegar a rodovia principal, então fomos por uma secundária. Passamos por diversos vilarejos, um mais impronunciável que o outro e depois de quase duas horas, chegamos.

Martina nos espera na porta. Faz caretas engraçadas ao ver o carro. Ela já sabia, mas ainda assim ficou surpreendida ao ver minha Lubenica.

Entramos e dou de cara com sua irmãzinha mais nova que nem me dá bola. Martina nos faz um café e vamos conversando. Logo ela nos leva até a garagem e nos apresenta as bicicletas que usaríamos para dar uma volta pela região.

A primeira parada foi num vilarejo próximo chamado Petrov. Lá encontramos uma amiga de Martina, Šárka (shárka). Ela nos convida a entrar na adega subterrânea de sua família e nos fala sobre como é feito o vinho e sobre a tradição vinícola da região. Aproveitamos para experimentar o vinho branco e tinto. Eu bebo meia taça de cada, pois dirigiria mais tarde. As meninas aproveitam para beber mais.

Martina diz que se o tempo melhorasse poderíamos ir até a Eslováquia de bicicleta. Eram poucos quilômetros. Fico empolgado com a ideia de atravessar uma fronteira assim. Jamais imaginaria que poderia fazer isso um dia.

Felizmente o sol aparece e decidimos ir até Skalica (se diz skálitsa). Não percorria mais de 300m de uma vez numa bicicleta havia uma boa década. E os poucos quilômetros que Martina dissera se revelaram ser quase dez. Para ir e mais dez para voltar.

Chegamos em Skalica e a cidade se mostrou ser muito charmosa. Demos uma volta pela cidade, bati algumas fotos e tomamos um sorvete. Pois é, sorvete. Elas ficaram com dó de mim que iria dirigir e pediram sorvete também.

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Na volta paramos na fronteira e batemos algumas fotos com as placas indicando a mudança de país. Eu não era o único ali que atravessava uma fronteira assim pela primeira vez.

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Ao chegarmos de volta à casa de Martina minhas coxas estavam em brasa. Que falta faz um esporte. E lá estavam os pais dela, que até então não haviam aparecido. Sua mãe, Pavlina, arriscava um pouco de inglês e engatou uma conversa comigo, super animada em ver um brasileiro viajando seu país num Lada, carro que ela fez questão de dizer que não via fazia anos. Já seu pai, Ivo, respondia uma ou outra pergunta e fazia algumas também, mas por não falar inglês ficou mais reservado.

Tínhamos que voltar e já começava a ficar tarde. Ainda havia 80 km de estrada pela frente e já estava quase escuro. Após comentar que havia gostado da Slivovica, habssih me traz uma garrafa que ele mesmo havia feito. Agradeço o mimo, abraço os dois, batemos uma foto com a irmãzinha de Martina e, infelizmente, partimos.

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Na volta paramos novamente na casa de Marie para jantar antes de voltarmos de vez ao apartamento. Em Brno foi mais difícil achar uma vaga e rodamos um tempo até achar uma, bem longe do prédio. O tempo ainda não colaborava. Deixo minhas coisas arrumadas para o dia seguinte. Matěj e Eva queriam ir a Bratislava também e combinamos que iríamos juntos.

A Segunda amanhece com o tempo bem melhor. Finalmente, desde que cheguei em solo Europeu, estava calor. Matěj havia saído cedo. Era dia de entregar a sua tese de mestrado. Marie havia saído ainda mais cedo, pois daria uma aula de francês. Acordei quando Daniela voltou de uma prova que havia feito.

Marie estava dormindo um pouco mais e assim que os três ficamos prontos, saímos para encontrar Matěj e Eva, que estavam num restaurante nos esperando.

Na rua pude sentir o verão chegando. Não é a toa que os europeus num geral amam os países tropicais. Sol, calor, pessoas sorrindo, bermudas, saias, camisas de manga curta. Ainda não era aquele calor tropical, mas eu poderia tranquilamente ter saído de bermuda. Depois que peguei a primeira sombra com ventinho percebi que a calça não foi uma má ideia, afinal.

O restaurante tinha cara de ser tradiça. Quando você vê potes de conserva maiores que o seu abdome espalhados pelo lugar e o menu deles é um prato só, você tem certeza que o pessoal não tá de brincadeira. A especialidade era um gigantesco e suculento joelho de porco. O acompanhamento era ou uma cerveja grande ou uma pequena. Arroz e outras coisas eram para fracos. Como iria dirigir algumas horas mais tarde, pedi uma cerveja pequena.

Quase desmaiando de prazer, comi quase a metade do joelho enquanto todos me olhavam meio com medo. Não tava nem aí. Sempre adorei joelho de porco e esse, especialmente, estava sensacional. No fim, Matěj me pediu um tempo para resolver algumas coisas antes de irmos e eu, Daniela e Marie decidimos dar uma última caminhada pela cidade.

Consigo então conhecer a cidade, afinal. O tempo ruim estava me deixando uma má impressão, mas com o sol pude ver que a cidade é bonita e gostosa. Prédios antigos, ruas largas, florestas ao redor.

Martina está de volta em Brno e vem nos encontrar. Tomamos um café esperando Matěj avisar quando estivesse pronto. O tempo passa e nada dele dar notícias. Peço para Daniela ligar e ele pede mais um tempinho. Não queria dirigir a noite.

Voltando ao apartamento me despeço de Martina. Chegamos e deixo minhas coisas prontas. Matěj chega só no final da tarde e já tinha certeza que teria que dirigir sem luz. Tudo bem, pelo menos iria acompanhado.

Antes de partir, Daniela me presenteia com um Medovina, uma bebida tradicional tcheca feita com mel. Agradeço, emocionado e então Marie vem com o seu presente. Uma mini caixa de som que eu poderia usar para ouvir música enquanto dirigia, já que o rádio do carro estava quebrado – isso se um dia chegou a funcionar. Fico sem palavras, agradeço muito as duas e vamos todos até o carro.

No carro ajeitamos as malas, dou um último abraço em Daniela e Marie e partimos. Mais umas buzinadinhas de tchau e em poucos minutos estávamos eu, Matěj e Eva indo a um novo país e mais uma nova etapa da viagem.

E essa etapa, claro, eu só conto no próximo relato.