Experiências automobilísticas, parte 3 – A volta ao Brasil.

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Assim que o Collor vazou e o malfadado plano que levava seu nome foi finalmente expurgado da política econômica nacional, nos sentimos a vontade para voltarmos.

Apesar da boa vida que tínhamos na Itália, não havia muita perspectiva em crescer e, afinal de contas, o nosso país é e sempre foi o Brasil. Por isso meus pais não tiveram que pensar muito em voltar quando as coisas por aqui começaram a se ajeitar.

Minha mãe pôde voltar ao antigo emprego, pois a licença não havia expirado ainda. Meu pai conseguiu um emprego temporário numa pesquisa coordenada pelo SEADE, graças a um amigo da época de faculdade que trabalha lá. Anos depois eu estagiei no mesmo SEADE por quase dois anos.

Enquanto isso, os dois começaram a estudar para concursos públicos. E nesse tempo o nosso carro foi um Gol azul bem, mas bem velho. E como esse carro deu problema.

A nossa sorte é que morávamos num morro e sempre que o goleta encrencava, era só empurrar ele que o morro ajudava a fazê-lo pegar no tranco.

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O goleta era bem parecido com esse, só que bem malhado. Lembro que o tom de azul era igualzinho esse. O ano era 1983.

Esse aí não durou muito não. Ainda bem. Meu pai ficou tão de saco cheio de ter que sempre estacionar ele de ré na garagem para deixar mais fácil o tranco no dia seguinte que vendeu aquela caixa de fósforos azul e arranjou um melhorzinho.

O “melhorzinho” era um Verona 1990, cor-de-burro-quando-foge. Aí nós entramos no seletíssimo hall de proprietários de carros dos anos 90. Estávamos dando um passo acima no nosso nível de vida.

Eu lembro tão bem do Verona, mas tão bem, que até a placa eu ainda lembro. YY-2937. E nós já estávamos em 1994.

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O Verona era igual esse, duas portas e essa cor meio prata, meio dourada, meio cor nenhuma.

Com esse carro na garagem, meus pais conseguiram passar juntos no mesmo concurso e começaram a trabalhar para o governo estadual. O escritório não era em São Paulo, era em Taubaté, a uns 130 km de onde morávamos. E por uns bons meses eles fizeram bate e volta todos os dias para irem trabalhar.

Em 1995 eu já estava prestes a fazer oito anos e nós arranjamos uma casinha na aprazível cidade vizinha a Taubaté, Tremembé. Uma rua sem saída nos cafundó da pequerucha cidade que, à época, mal tinha 35 mil habitantes. Ou seja, movimento zero e uma chance única de crescer brincando na rua.

E foi assim que cresci. Chegamos no começo do 1995 nessa ruazinha e só fui sair de lá dez anos mais tarde, quando retornei a São Paulo para fazer faculdade.

Mas voltando ao Veroninha, ele infelizmente não durou tanto assim. Em 1996, meus pais estavam procurando uma casa para comprar, já que a casa que estávamos era pequena e não tão confortável. No final da mesma rua havia uma casa em construção que estava abandonada a um certo tempo. Meus pais fizeram um rolo, compraram a casa e deram como parte do pagamento o nosso querido Verona 1990 cor-de-burro-quando-foge.

O carro seguinte foi um velho companheiro que meu pai adorava, uma Belina. Mas era uma mais nova que a antiga, perdida no acidente com o fusquinha da Polícia. Era uma Belina Del Rey 1988, azul metálico. Carro grande e bacana que ficou com a gente por uns anos.

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Em 1997 mudamos para a nossa nova casa. Mais ainda no final da rua sem saída, a casa era rodeada de terrenos e não tínhamos vizinhos ao redor. Era tão, mas tão silencioso e calmo que eu, que sempre tive sono leve, acordava com o barulho dos mugidos das vacas, dos coaxares dos sapos e dos cachorros de rua se atracando em brigas. Rapaz, como esses cachorros da minha rua brigavam.

Falando em cachorros, a Giulinha – que pode ser vista sendo segurada pela minha irmã na parte 1 do post – já estava com quase 8 anos. No ano anterior ela havia dado a luz a 12 filhotes. Nós pegamos um para nós, o Peter.

O Peter adorou a nova casa. Um jardim enorme. Um portão com vãos grandes o suficiente para que ele criasse uma técnica para pular e ficar na rua o quanto quisesse. E nós, morando no final de uma rua sem saída numa cidade de 35 mil habitantes, nunca nos preocupamos em ficar segurando ele em casa. A verdade é que até tentamos, mas ele soube escapar bem e sempre que ouvíamos o portão balançando, eles já estava do outro lado, saltitando em comemoração à sua liberdade.

Ele era um cachorro forte. Apesar de nanico, ele era forte mesmo. Com menos de um ano de idade, ainda na casa antiga, ele contraiu o vírus da Parvovirose e incrivelmente sobreviveu. No ano seguinte, na casa nova, ele tinha uma mania um pouco besta de ficar saltitando em frente ao carro quando meus pais chegavam do trabalho ou sempre que a gente saía. Ele sabia reconhecer o ronco do motor (ou como éramos os únicos que chegavam até o fim da rua, ele devia se ligar que era a gente) e pulava o portão para vir ao nosso encontro.

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Ele e sua carinha de coitado quando queria alguma coisa.

Mas numa dessas vezes, ele saltou e tropeçou. Meu pai não conseguiu frear – ou nem percebeu que ele havia ficado parado no meio do caminho – e passou por cima dele. Eu lembro de ouvir seu choro da sala e de sair correndo desesperado para a rua ver o que havia acontecido. A Belina havia passado por cima dele e a sorte foi que nenhuma das rodas o acertou em cheio.

O resultado foi uma pata quebrada e uma concussão. E manda ele de volta pra veterinária, Doutora Ingrid, que no dia seguinte nos ligou implorando para que o levássemos embora, pois ele estava tumultuando seu consultório. O baixinho, mesmo lelé da cuca e com a pata avariada, queria treta com os outros cachorros por lá.

Depois desse trauma com a Belina, meu pai arranjou um Tipo 1996 mpi, aquele único Tipo nacional. Adeus Belina, olá Tipo.

O Tipo, ou como meu pai gostava de chamar, “A” Tipo – pois na Itália era uma palavra feminina – era quatro portas. Finalmente o nosso primeiro carro quatro portas! Liberdade, ainda que tardia!

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A cor não era esse azul calcinha igual o da foto. Era um verde bem escuro. E era um belo carro, confesso. Tinha espaço de sobra atrás, para comportar as minhas pernas de um garoto de 10 anos, que não parava de crescer. E um rádio pioneer que, para mim, devia ser o melhor rádio do mundo.

Lembro de as noites descer até a garagem, entrar no carro e ficar ouvindo a rádio 89, que normalmente não pegava em Tremembé, mas com o alcance do tal rádio pioneer, pegava. Foi aí que conheci Pearl Jam – que na época tocava Soldier of Love e Last Kiss, por conta do disco lançado em 1999 para ajudar os refugiados da guerra em Kosovo – e tantas outras bandas. E também me tornei fã dos Sobrinhos do Ataíde.

Com o Tipo fizemos nossa primeira grande viagem em família. Fomos até Maceió para a virada do ano de 1997 para 1998.

Apesar do carro aguentar bem, ele já estava começando a desvalorizar demais e meu pai decidiu trocar de carro novamente em 1999. O escolhido foi um Escort 1997 verde.

Daí em diante eu conto na próxima parte. Essa já tá grande o suficiente.

 

 

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One thought on “Experiências automobilísticas, parte 3 – A volta ao Brasil.

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