Cheguei

Após quase 30 horas de viagem, cheguei na Cracóvia.
Foram 10 horas até Madrid, mais 10 horas por lá esperando o próximo vôo até onde estou.
Aproveitei para comprar os microfones para a câmera e um hd externo para guardar a enorme quantidade de material que vai sair dessa viagem.
Cheguei aqui, tomei um banho e desmaiei. Só agora consegui ter uma mínima lucidez para escrever algo, mesmo que só isso.
Mas raiou o dia por aqui e no final dele falo mais como andam os preparativos para a compra do carro.

Experiências automobilísticas, parte final – Século XXI

Continuando a “saga” – se é que dá para chamar assim uma experiência automobilística de alguém que nunca teve um carro – chegamos no século XXI.

Seguindo a deixa da terceira parte, em 1999 trocamos o Tipo mpi 1996 por um Escort GLX verde 1997.

O Escort foi, sem dúvidas, o melhor carro em termos de motor que já tivemos. Tinha o famoso “Zetec Rocam” 1.8 16v e 116 cv. Quebrou a série de carros 1.6 que já durava uma década.

Esse motor era ágil e extremamente econômico. Fazia 18km por litro na estrada e tranquilos 12 na cidade. E era um 1.8!

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A cor e o modelo eram iguais esse.

Com ele fizemos duas grandes viagens. A primeira, no mesmo ano que o compramos, fomos conhecer o Pantanal sul-matogrossense e chegamos até a dar um pulinho em Puerto Suarez, Bolívia. Era a primeira vez que colocava os pés em outro país desde que havíamos voltado da Itália, 6 anos antes.

A segunda viagem foi para a Chapada da Diamantina e Abrolhos. Porém o carro não chegou até a segunda parte da viagem. Explico.

No dia das mães de 2001, viemos a São Caetano do Sul, onde mora minha vó materna. Na volta estava aquela garoa deliciosa que só o bom paulistano, seja ele de São Paulo ou não, conhece. Aquela garoa que não molha, suja. E estávamos na Farah Maluf, tentando chegar na Marginal. O farol estava fechado e meu pai vinha seguindo. Os carros estavam parados logo a frente. Ainda faltavam uns 50 metros para chegarmos ao primeiro carro parado no farol, um Corsa, e meu pai parou de acelerar, na tentativa de esperar o farol abrir e não precisar parar o carro. E o farol abriu. O Corsa saiu e meu pai não freou, mas o Corsa logo parou. O carro havia morrido. Meu pai freou então e o carro deu aquela deslizada na gosma que se forma na pista quando garoa em São Paulo. De repente 50 metros pareciam 50 centímetros. Batemos.

Não foi uma batida forte, mas foi uma batida. Lembro de descer do carro e ir correndo ao carro da frente para ver se tinha acontecido alguma coisa com o motorista. Não havia, ainda bem. E então se seguiu aquela chatice toda de ligar para seguro, esperar vir o guincho. E estávamos a 130km de casa. Bora esperar o táxi da seguradora e umas boas quatro horas mais tarde conseguimos chegar em casa. Que dia das mães.

O carro foi consertado. Tudo OK. E no meio do ano fomos, com o carro recém saído da funilaria, para a nossa aventura baiana. O carro suportou tudo muito bem. Chegamos até Lençóis sem maiores problemas e conhecemos a absurdamente maravilhosa Chapada.

Ainda tínhamos mais uns 10 dias e decidimos tomar o rumo para Abrolhos. A estrada que leva Lençóis até a capital é a BR-242 que, somente agora descobri, se chama Rodovia Milton Santos, em homenagem ao, pasmem, Geógrafo Baiano nascido em Brotas de Macaúbas na Chapada Diamantina, e não, como o atento leitor deve ter pensado, ao ex lateral esquerdo do Botafogo Nílton Santos.

A estrada era, assim como boa parte da malha viária nacional, um tanto esburacada. Corre um poquinho, freia, desvia do buraco, corre mais um poquinho, pega um buracão, freia, desvia do próximo, corre mais um pouco. Após algumas centenas de quilômetros rodados, o carro superaquece e pára. Não liga mais. Pânico.

A cidade mais próxima estava a dezenas, se não centenas, de quilômetros de distância. Qualquer posto de gasolina também. Toca meu pai pedir ajuda para algum carro ou caminhão passando e nós esperando por lá.

Algumas horas depois, meu pai volta dizendo que um táxi estaria vindo nos buscar e que o carro seria rebocado. Esse táxi nos levou até Santo Antônio de Jesus, onde dormimos e fomos para Salvador no dia seguinte. O seguro havia reservado passagens de volta para São Paulo. Que chique, apesar dos pesares.

O carro voltou de cegonha dias depois e foi direto para o mecânico, o mesmo que havia consertado o carro alguns meses antes. E ele identificou o problema. Uma mangueira – não me pergunte qual – havia sido colocada de forma errada junto a uma parte da funilaria que, com o balancê-balancê da buraqueira fez com que a mangueira fosse cortada e consequentemente fizesse o carro superaquecer. E bateu o martelo: motor fundido.

Meses parado e, apesar do seguro chique pagar as passagens de volta, rebocar o carro por mais de 1500 km, ele não daria um carro extra até o nosso ser consertado.

Qual a solução que meus pais acharam para não ficar sem carro? A mais óbvia de todas. Comprar um Fusca 1973!

O fusca foi onde eu realmente aprendi a dirigir. O fusca que você dava seta para a direita, ele dava seta para a direita, você dava seta para a esquerda e ele dava seta para a direita. O fusca que se você colocasse a primeira com um pouco mais de força, engatava a ré. O fusca que a maçaneta da porta do motorista só abria por fora. Resumindo, ele era O fusca.

Pela segunda e última vez na nossa história automobilística, tivemos dois carros. O Trovão Azul – e engana-se quem pensa que era porque ele era rápido, até porque não era, mas sim pelo fato de emitir um barulho constante semelhante ao de trovões – ficou conosco por uns bons anos, tapando os buracos quando algum outro carro nos deixava na mão e, bem, nos deixando na mão sempre que precisávamos.

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A cor era um pouco mais escura e ainda tinha insulfilm nas janelas.

Minha irmã mais velha, que na época da nossa nova aquisição estava em vias de tirar a habilitação, teve a honra de herdar o coche. E fez bom uso. Os trajetos Tremembé-Taubaté nunca mais foram os mesmos.

Mas havia um pequeno problema. A grana era curta e a gasolina era cara. Enquanto esteve conosco, o Trovão Azul nunca nos ouviu dizer “Completa gasolina, por favor?” num posto de combustíveis. No máximo era um “põe 20 de gasosa”. Nunca tivemos nem ideia do quanto ele consumia, mas ele era um beberrão, sem dúvidas. Íamos pelo cálculo base de 10 km/l, que ele nunca fez, mas a gente tinha uma confiança de que ele faria algum dia. E com esse cálculo base que íamos abastecendo ele, sempre deixando ele na reserva, que por sinal não acendia a luz – estava quebrada.

Numa fatídica noite, minha irmã voltava de uma festa e sentiu o Fuqueta dar aquela tossidinha. Das duas uma, ou havia chegado sua hora e ele teria um infarto fulminante, ou estava precisando de gasolina. Ela parou no primeiro posto que viu. Chegou o frentista e perguntou “quanto, moça?”, minha irmã abriu a carteira e, um pouco decepcionada, respondeu “50 centavos, por favor”. Diante da incrédula face do frentista, que após abastecer os míseros 50 centavos em gasolina retornou ao carro, recebeu de volta a chave e ao invés do clássico “obrigado e até logo” teve como diálogo final um “boa sorte”. O carro chegou em casa, a dignidade talvez tenha ficado no posto.

Ela o levou para Campinas quando foi fazer faculdade e fiquei uns anos sem vê-lo. Só retornou quando eu já estava habilitado e minha irmã o trouxe de volta após ficar cansada de ter um carro parado na garagem. Foi a minha vez de usufruir da miríade de possibilidades que um Fusca 1973 poderia me propiciar.

Em minhas mãos ele raramente quebrou. Só alguns pequenos incidentes como engatar a ré sem querer e andar para trás na avenida mais movimentada de Taubaté, sem querer claro, e uma pane elétrica que fez com que a seta para esquerda se tornasse seta para direita, me forçando a sempre virar a direita, porque me sentia mal em querer virar a esquerda e não poder indicar. Sim eu sou um nóia da seta, eu assumo.

Mas foram poucos meses comigo, já que eu só voltava para o interior nos finais de semana – já havia “voltado” a São Paulo para a faculdade – e nos meses de férias. Logo meus pais venderam e nunca mais tive o “meu” carro.

Após o Escort, que praticamente nunca voltou da oficina, meu pai teve o seu primeiro carro 0km da vida. No final de 2001 comprou o recém chegado e aclamado Focus. O motor era ainda mais forte que o do Escort. Era um Zetec Rocam 2.0 de 130 cv (ou algo do tipo), mas não tinha o mesmo consumo que o anterior.

O Focus era sedan e pela primeira vez, além das quatro portas, tínhamos vidros elétricos atrás também. Glória! E, para melhorar ainda mais, o carro vinha com CD Player de série, nosso primeiro rádio assim. Era muita alegria para um adolescente só.

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O Focus era igualzinho esse.

Com ele fizemos viagens para Minas Gerais, passando pela Serra do Cipó, Conceição do Mato Dentro e Diamantina, para Brasília e Chapada dos Veadeiros e para Abrolhos, que queríamos ir desde o problema com o Escort.

Em 2004 um novo carro zero, dessa vez mais um lançamento, a Ecosport. Muita banca, pouco carro. Meu pai ficou bem decepcionado. Achava que era um jipe e era um Fiesta mais alto.

Em 2008 veio o Honda Fit, quebrando a sequência de Fords. Carrinho pequeno mas muito gostoso de dirigir. Tivemos alguns problemas, especialmente quando o bloco que sustentava o motor quebrou e o motor afundou. Mas tirando isso, foi um carro legal.

Em 2011 fizemos nossa viagem mais longa dentro do Brasil. Saímos de São Paulo e fomos até Carolina, no sul do Maranhão. Visitamos a Chapada da Mesas e depois o Jalapão, em Tocantins. Mais de 5 mil km em um mês.

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Nós, menos eu, em Carolina – MA. E meu pai de sunguinha. Pelo menos não é branca.

E nosso atual carro, trocado ano passado, um Nissan Versa.

 

Um carro só meu, em meu nome, comprado com meu dinheiro, nunca tive. E pretendia continuar assim por um bom tempo. Mas chegou a hora. Sempre há uma primeira vez e essa é a minha. Vou comprar um Lada 1981 na Polônia e dirigi-lo por 10000 km entre 22 países no Leste Europeu.

Nada mau para um primeiro carro, não?

Experiências automobilísticas, parte 3 – A volta ao Brasil.

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Assim que o Collor vazou e o malfadado plano que levava seu nome foi finalmente expurgado da política econômica nacional, nos sentimos a vontade para voltarmos.

Apesar da boa vida que tínhamos na Itália, não havia muita perspectiva em crescer e, afinal de contas, o nosso país é e sempre foi o Brasil. Por isso meus pais não tiveram que pensar muito em voltar quando as coisas por aqui começaram a se ajeitar.

Minha mãe pôde voltar ao antigo emprego, pois a licença não havia expirado ainda. Meu pai conseguiu um emprego temporário numa pesquisa coordenada pelo SEADE, graças a um amigo da época de faculdade que trabalha lá. Anos depois eu estagiei no mesmo SEADE por quase dois anos.

Enquanto isso, os dois começaram a estudar para concursos públicos. E nesse tempo o nosso carro foi um Gol azul bem, mas bem velho. E como esse carro deu problema.

A nossa sorte é que morávamos num morro e sempre que o goleta encrencava, era só empurrar ele que o morro ajudava a fazê-lo pegar no tranco.

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O goleta era bem parecido com esse, só que bem malhado. Lembro que o tom de azul era igualzinho esse. O ano era 1983.

Esse aí não durou muito não. Ainda bem. Meu pai ficou tão de saco cheio de ter que sempre estacionar ele de ré na garagem para deixar mais fácil o tranco no dia seguinte que vendeu aquela caixa de fósforos azul e arranjou um melhorzinho.

O “melhorzinho” era um Verona 1990, cor-de-burro-quando-foge. Aí nós entramos no seletíssimo hall de proprietários de carros dos anos 90. Estávamos dando um passo acima no nosso nível de vida.

Eu lembro tão bem do Verona, mas tão bem, que até a placa eu ainda lembro. YY-2937. E nós já estávamos em 1994.

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O Verona era igual esse, duas portas e essa cor meio prata, meio dourada, meio cor nenhuma.

Com esse carro na garagem, meus pais conseguiram passar juntos no mesmo concurso e começaram a trabalhar para o governo estadual. O escritório não era em São Paulo, era em Taubaté, a uns 130 km de onde morávamos. E por uns bons meses eles fizeram bate e volta todos os dias para irem trabalhar.

Em 1995 eu já estava prestes a fazer oito anos e nós arranjamos uma casinha na aprazível cidade vizinha a Taubaté, Tremembé. Uma rua sem saída nos cafundó da pequerucha cidade que, à época, mal tinha 35 mil habitantes. Ou seja, movimento zero e uma chance única de crescer brincando na rua.

E foi assim que cresci. Chegamos no começo do 1995 nessa ruazinha e só fui sair de lá dez anos mais tarde, quando retornei a São Paulo para fazer faculdade.

Mas voltando ao Veroninha, ele infelizmente não durou tanto assim. Em 1996, meus pais estavam procurando uma casa para comprar, já que a casa que estávamos era pequena e não tão confortável. No final da mesma rua havia uma casa em construção que estava abandonada a um certo tempo. Meus pais fizeram um rolo, compraram a casa e deram como parte do pagamento o nosso querido Verona 1990 cor-de-burro-quando-foge.

O carro seguinte foi um velho companheiro que meu pai adorava, uma Belina. Mas era uma mais nova que a antiga, perdida no acidente com o fusquinha da Polícia. Era uma Belina Del Rey 1988, azul metálico. Carro grande e bacana que ficou com a gente por uns anos.

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Em 1997 mudamos para a nossa nova casa. Mais ainda no final da rua sem saída, a casa era rodeada de terrenos e não tínhamos vizinhos ao redor. Era tão, mas tão silencioso e calmo que eu, que sempre tive sono leve, acordava com o barulho dos mugidos das vacas, dos coaxares dos sapos e dos cachorros de rua se atracando em brigas. Rapaz, como esses cachorros da minha rua brigavam.

Falando em cachorros, a Giulinha – que pode ser vista sendo segurada pela minha irmã na parte 1 do post – já estava com quase 8 anos. No ano anterior ela havia dado a luz a 12 filhotes. Nós pegamos um para nós, o Peter.

O Peter adorou a nova casa. Um jardim enorme. Um portão com vãos grandes o suficiente para que ele criasse uma técnica para pular e ficar na rua o quanto quisesse. E nós, morando no final de uma rua sem saída numa cidade de 35 mil habitantes, nunca nos preocupamos em ficar segurando ele em casa. A verdade é que até tentamos, mas ele soube escapar bem e sempre que ouvíamos o portão balançando, eles já estava do outro lado, saltitando em comemoração à sua liberdade.

Ele era um cachorro forte. Apesar de nanico, ele era forte mesmo. Com menos de um ano de idade, ainda na casa antiga, ele contraiu o vírus da Parvovirose e incrivelmente sobreviveu. No ano seguinte, na casa nova, ele tinha uma mania um pouco besta de ficar saltitando em frente ao carro quando meus pais chegavam do trabalho ou sempre que a gente saía. Ele sabia reconhecer o ronco do motor (ou como éramos os únicos que chegavam até o fim da rua, ele devia se ligar que era a gente) e pulava o portão para vir ao nosso encontro.

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Ele e sua carinha de coitado quando queria alguma coisa.

Mas numa dessas vezes, ele saltou e tropeçou. Meu pai não conseguiu frear – ou nem percebeu que ele havia ficado parado no meio do caminho – e passou por cima dele. Eu lembro de ouvir seu choro da sala e de sair correndo desesperado para a rua ver o que havia acontecido. A Belina havia passado por cima dele e a sorte foi que nenhuma das rodas o acertou em cheio.

O resultado foi uma pata quebrada e uma concussão. E manda ele de volta pra veterinária, Doutora Ingrid, que no dia seguinte nos ligou implorando para que o levássemos embora, pois ele estava tumultuando seu consultório. O baixinho, mesmo lelé da cuca e com a pata avariada, queria treta com os outros cachorros por lá.

Depois desse trauma com a Belina, meu pai arranjou um Tipo 1996 mpi, aquele único Tipo nacional. Adeus Belina, olá Tipo.

O Tipo, ou como meu pai gostava de chamar, “A” Tipo – pois na Itália era uma palavra feminina – era quatro portas. Finalmente o nosso primeiro carro quatro portas! Liberdade, ainda que tardia!

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A cor não era esse azul calcinha igual o da foto. Era um verde bem escuro. E era um belo carro, confesso. Tinha espaço de sobra atrás, para comportar as minhas pernas de um garoto de 10 anos, que não parava de crescer. E um rádio pioneer que, para mim, devia ser o melhor rádio do mundo.

Lembro de as noites descer até a garagem, entrar no carro e ficar ouvindo a rádio 89, que normalmente não pegava em Tremembé, mas com o alcance do tal rádio pioneer, pegava. Foi aí que conheci Pearl Jam – que na época tocava Soldier of Love e Last Kiss, por conta do disco lançado em 1999 para ajudar os refugiados da guerra em Kosovo – e tantas outras bandas. E também me tornei fã dos Sobrinhos do Ataíde.

Com o Tipo fizemos nossa primeira grande viagem em família. Fomos até Maceió para a virada do ano de 1997 para 1998.

Apesar do carro aguentar bem, ele já estava começando a desvalorizar demais e meu pai decidiu trocar de carro novamente em 1999. O escolhido foi um Escort 1997 verde.

Daí em diante eu conto na próxima parte. Essa já tá grande o suficiente.

 

 

Meu “primeiro” carro.

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Depois de falar um pouco sobre como foi a experiência na Itália, acabei percebendo que havia me esquecido completamente de falar sobre o meu “primeiro” carro.

Como disse, minha paixão por carros começou por lá. O Senna ganhando tudo na F1 e eu ganhando tudo nas minhas corridas imaginárias no chão do meu quarto. Tudo bem que uma vez ou outra eu batia o carro em algum acidente super fenomenal. Mas era só pra quebrar a monotonia de vencer toda corrida. Afinal, eu era só um ser humano.

Mas o meu sonho ainda estava para virar realidade.

Confesso que eu não lembro bem como que aconteceu, mas aconteceu. Havia um carro abandonado na casa de um dos nossos primos e eu, depois de muita insistência, consegui a autorização deles para brincar nele. Finalmente poderia sentar no cockpit, colocar meu capacete personalizado com as cores que escolhi e sentar o pé no acelerador.

Bem, não foi bem assim. Se eu alcançasse o pé no acelerador, não conseguia alcançar o volante. E sentado eu não conseguia ver nada a frente. Então inovei. Fui o primeiro piloto a dirigir em pé. Isso mesmo! O acelerador eu adaptei, era controlado pela mente. O freio? Nunca precisei.

Infelizmente eu era tão rápido, mas tão rápido, que nunca conseguiram bater uma foto minha. Nas únicas que têm, estou ensinando minha irmã a dirigir o bólido. Mas deu para ver que o mal não era de família. Ela sempre teve o braço duro.

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Aqui, como podemos ver, o carro – um Fiat 500 de mil-novecentos-e-bolinha – está prestes a entrar no pit stop. Nesse momento eu estava dando as instruções para que minha irmã pudesse manobrar o carro a fim de ajudar os mecânicos, que por azar do destino, não apareceram na foto.

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Já nessa – e infelizmente última foto registrada – eu vou para o banco traseiro para ajudar minha irmã a sair com o carro. Como disse, ela era muito braço duro. Mas eu sempre fui um irmão legal e incentivei ela. Percebe que eu sou tão legal que até troquei de capacete com ela, para que ela realmente se sentisse como uma campeã.

Foi um dia memorável.

Alguns meses depois infelizmente tive que encerrar minha promissora carreira automobilística devido a uma cirurgia que fiz no olho por conta do estrabismo de nascença. O Brasil perdeu talvez o seu melhor piloto.

Desde então me foquei como comentarista. Continuo muito promissor.

Mudança nos planos, mas só do Blog.

Estive pensando se cubro a viagem em português, minha língua materna, ou em inglês e assim podendo alcançar mais pessoas. Então decidi que farei nas duas línguas.

Esse Blog será só em português enquanto o antigo Lada Road Trip será só em inglês. Todas as publicações aqui serão traduzidas para o inglês e colocadas no blog “antigo”.

E se você ainda não curtiu a página no Facebook (que continuará nas duas línguas), vá lá e curta!

https://www.facebook.com/ladaroadtrip

 

Obrigado =)

Experiências automobilísticas, parte 2 – Itália.

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Em 1989 o país passava por um turbilhão de coisas. A ditadura havia acabado quatro anos antes mas muitos brasileiros ainda não sabiam o que era votar para presidente. A nova constituição de 1988 já estava em vigor, substituindo a antiga de 1967, aditivada pela repressão dos AI’s. Mas ainda assim a liberdade não era sentida na pele. Somente indo às urnas e escolhendo o presidente é que grande parte desses brasileiros sentiriam-se livres de verdade.

O primeiro presidente eleito diretamente pelo povo brasileiro em 29 anos foi Fernando Collor. Collor, até onde estudei, porque lembrar eu não lembro, era jovem e foi o “escolhido” pela grande mídia brasileira para ser o presidente. Tanto o foi que conseguiram.

Não quero entrar em polêmicas, portanto não vou exprimir completamente minha opinião sobre ele. Ele ter sido o presidente é simplesmente um fato importante que mudou completamente a vida da minha família.

No post anterior comentei que em 1989 minha mãe era funcionária pública e meu pai era dono de uma pequena loja de materiais de construção. Numa época de hiperinflação e instabilidade econômica severa, a construção civil não viva, nem de longe, um bom momento.

Assim sendo, a loja inevitavelmente faliu. Meu pai e seu cunhado venderam o que puderam e com a pouca grana que fizeram disso, investiram na poupança. Inclusive a Brasília Marrom foi fruto da concordata da loja. A pessoa que assumiu o ponto deu ela como pagamento.

Com o pouco dinheiro na poupança, quase nenhum em mão e uma Brasília Marrom indesejada na garagem, foi assim que entramos em 1990. E o Collor, atento à nossa situação bastante confortável, assumiu a presidência e implantou o inesquecível Plano Collor. Literalmente, de um dia para o outro, a nossa situação foi de péssima a insustentável.

Sem dinheiro em espécie, com o pouco guardado na poupança bloqueado, meu pai desempregado e minha mãe com um emprego que não pagava o suficiente para sustentar ela, marido e mais duas crianças, fomos lançados a sorte dos neo-pobres do Plano Collor.

Vendemos a Brasília, o que nos deu um alívio por algum tempo. Tempo suficiente para que meus pais traçassem o plano de fuga. Em 1989, uns parentes italianos vieram conhecer o Brasil e meu pai, autodidata em italiano, foi o guia deles.

Esses parentes eram primos de segundo grau da parte da família da minha vó que não veio para o Brasil no começo do século passado. Minha avó nunca se naturalizou brasileira e por conta disso, meu pai nasceu já com duas nacionalidades.

Com a amizade em alta, ao saberem da situação no Brasil, esses primos entraram em contato conosco para saber da nossa situação. Estarrecidos com a nossa condição, ofereceram ajuda. E que ajuda.

Primeiro pagaram uma passagem para todos nós, eu, minha irmã, meus pais e minha avó, irmos visitá-los na Itália. Uma vez que estávamos lá, eles fizeram a proposta: nos arranjariam uma casa perto deles, um emprego para meus pais e toda a assistência necessária até que pudéssemos andar novamente com nossos próprios pés.

Meu pai nem voltou, já ficou por lá. Nós voltamos e enquanto minha mãe pedia licença do emprego e colocava a casa para alugar, eu e minha irmã íamos nos acostumando com a ideia de irmos morar num país novo.

Antes de irmos, recebemos uma carta de meu pai dando as boas novas. Já havia arranjado emprego numa fábrica de móveis, alugado uma casa perto e inclusive comprado um carrinho para nós. Que rápido!

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(Na foto está meu pai, em frente ao carro. Um Autobianchi A112, de 1975, salvo engano)

No final do ano já estávamos todos juntos na nossa nova cidade, Pasiano di Pordenone, na região do Friuli, nordeste da Itália.

Meu pai em seu novo emprego, minha mãe fazendo uns bicos de diarista, eu e minha irmã fazendo novos amigos na escola. Estávamos bem, felizes, livres. Só ficou a saudade do nosso país tropical, nem-tão-abençoado-assim por Deus, mas muito lindo por Natureza.

Na Itália que comecei a me interessar por carros. Lá eles vivem isso. E eu, esponja como toda criança, fui absorvendo essa cultura.

Entre pôsteres do Rijkaard e De Boer da minha irmã, eu tinha os meus de Fórmula Uns, Ferraris, Maseratis e afins, nas paredes do nosso quarto compartilhado.

Minha paixão pela F1 e, claro, pelo Senna, começaram lá. Lembro que tinha alguns modelos Bburago de F1. O meu favorito era um verdinho que, hoje sei, era da Benetton. Mas tinha o Williams azulzinho também. No entanto arrebentei todos contra a parede, simulando corridas de verdade e os acidentes. Que arrependimento.

O Autobianchi, apesar de pequeno, era um puta carro. Viajamos muito com ele nos finais de semana. Passamos um Natal em Munique, fomos até Salzburgo e até a umas cavernas na Eslovênia, tudo isso com neve, sem correntes, e deu tudo certo.

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(Nós no Autobianchi em alguma das nossas viagens)

Meu pai inventou de querer ter dois carros (#ostentação) e comprou um carro mais novo. Uma Duna 1987. A Duna é o Prêmio, aquele Uno sedan que teve no Brasil por um tempo. Apesar de mais novo, maior e mais potente, o carro só deu problemas e durou pouco tempo. Não deixou nenhuma saudade.

Enquanto isso o Autobianchi nos aguentou firme e forte. Inclusive meu pai tentou trazê-lo ao país quando voltamos, em 1993, assim que o Plano Collor finalmente acabou. Mas infelizmente não deu.

Hoje em dia, esse carro é item de colecionador na Itália e em muitos outros países por onde foi vendido.

A marca Autobianchi foi comprada pela Lancia.

E então, após dois anos e meio no velho continente, voltamos ao Brasil.

Na próxima parte falarei sobre a volta e os carros que passaram pela minha vida até hoje.

Experiências automobilísticas, parte 1 – As primeiras lembranças.

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Iniciando uma “série” de relatos sobre as minhas experiências com carros, começo falando sobre as minhas primeiras lembranças automobilísticas.

Sou de classe média. Sempre fui. Quando nasci, em 1987, meus pais, por mais que estivessem em empregos ruins – se comparados com hoje em dia – ainda estavam numa posição melhor que o grosso da população brasileira. Minha mãe era funcionária pública do Departamento de Obras Públicas de São Paulo, mas num cargo bem inicial, e meu pai era um dos donos de uma loja de materiais de construção – numa época não muito boa para a construção civil.

Ainda assim conseguíamos manter um padrão de vida razoável e até tínhamos carro, algo que não era atingível por alguém que não fosse de classe média, ainda que baixa. Tanto meu pai como minha mãe vinham de famílias bastante numerosas e humildes e não havia dúvida para eles que aquilo pouco que tinham já era muito mais do que haviam tido em suas infâncias.

O cargo público da minha mãe garantia uma creche boa para minha irmã, quatro anos mais velha, e um auxílio maternidade sem o receio de perder o emprego. Já meu pai convivia com a instabilidade e a loja ia de mal a pior.

Eu, obviamente, não lembro qual era o nosso carro assim que nasci, mas meu pai dizia que era um Fusca. Era tão velho que ele nem se lembra o ano exato – acha que era 1971 – mas a cor ele lembra: Branco. Esse Fusca teve história.

Quando ainda estava batendo escanteios na barriga da minha mãe, fomos até Santa Catarina nele. Meus pais dizem que foi minha primeira viagem, pena que eu não me lembre muito.

Depois do Fusca veio uma Belina, carro pelo qual meu pai era apaixonado. Já era bem mais “novo”, 1982.

Quando eu tinha apenas um ano, estávamos todos seguindo pela Marginal Tietê em direção à Penha, onde a minha vó materna morava. Morávamos em Pirituba e não havia outro caminho melhor – e ainda não há. Na pista expressa meu pai viu pelo retrovisor um Fusca, da Polícia Civil, sem o giroflex ligado, se aproximando rapidamente. Deu seta e foi abrir passagem. O Fusca da PC, dirigido por algum anencéfalo, foi tentar nos ultrapassar pela direita, bem onde meu pai tentou abrir passagem. Resultado foi um acidente bem feio onde por sorte ninguém se machucou. Eu com um ano e minha irmã com cinco ficamos muito assustados. Meu pai e o Policial discutiram sobre a responsabilidade do acidente e o Policial foi taxativo: “Entra na justiça e tenta provar que a culpa foi minha. Daqui uns 10 anos quem sabe eles te paguem alguma coisa”. E nem 10 anos depois conseguimos algo. Carro jogado fora e nenhuma indenização. Adeus Belininha.

 

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O detalhe final: o Fusca da Polícia havia, literalmente, acabado de sair da funilaria, onde havia sido consertado de um outro acidente. A imagem acima é de um Fusca da época, mas não sei dizer se era igual ao que nos atingiu.

(Esse foi só o primeiro de muitos outros acidentes em que eu estava num dos carros envolvidos. Nessa questão sou bastante experiente. Pela minha contagem foram seis acidentes. Somente um era eu que dirigia.)

Depois da Belina, veio uma Brasília. A cor eu confesso que não lembro. Nem meus pais. Foi um carro que, nas palavras do meu pai, mal saiu da garagem. Outra VW velha ali parada. No entanto, o primeiro registro fotográfico comigo num carro foi com ela. Na foto, em preto e branco, não dá pra saber ao certo a cor, mas imagino que era marrom. Junto comigo está minha irmã e a nossa eterna Giuly, carinhosamente chamada Giulinha, nossa meio dálmata, meio vira-latas que só veio a falecer em 2006, aos quase 17 anos de idade. Pelas contas, a foto é do final de 1989. Eu já tinha quase 3 anos de idade.

 

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Essa Brasília foi o último carro que tivemos antes de irmos morar na Itália. Lá a história foi bem diferente.

Na próxima parte contarei mais detalhes sobre os carros que tivemos na Itália e os motivos que nos levaram a morar lá.

 

Obrigado, Flavio Gomes.

Após algumas semanas de negociação, por assim dizer, o Flavio publicou em seu lendário blog Warm Up a respeito da viagem. E esse mirrado blog, que até então colecionava pouco mais de 2 centenas de visitantes, de ontem para hoje triplicou esse número! Inclusive com um comentário! Uau!

Mas, como disse acima, já havia algumas semanas que entrara em contato com o Flavio. Comentei em seu blog sobre minha viagem e qual não foi a minha surpresa? Alguns minutos depois havia recebido um e-mail pessoal do próprio, me perguntando mais detalhes da viagem. Daí se iniciou uma breve conversa e ficou combinado que assim que esse blog começasse a publicar com uma frequência maior – o que vem acontecendo essa semana – ele o publicaria em seu blog. Dito e feito.

Agradeço a todos que chegaram aqui por intermédio do Flavio – e não foram poucos. E asseguro-lhes que novas publicações virão!

A viagem em si começa só na primeira semana de Maio, mas até lá vou falando um pouco das minhas experiências em viagens e automobilísticas. Até para que quem não me conhece comece a saber um pouco quem sou e quais os meus propósitos.

Mais uma vez, peço que curtam a página no Facebook (que também colecionou dezenas de Likes de uma hora para outra).

Quem quiser contribuir para a viagem com alguma doação (haverá recompensas!), entrem em contato direto comigo pelo email renatomattar@yahoo.com.br

 

Obrigado a todos e continuem acessando o blog. Em breve falarei um pouco sobre as minhas (poucas) experiências automobilísticas ao redor do mundo.

 

Abraços.

Será que é esse?

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Venho procurando o carro ideal para a viagem a, literalmente, anos. Lembro de um branco que achei antes mesmo de ir morar em Vilnius. Fiquei abismado pelo preço (algo em torno de uns mil reais à época) e pensei seriamente em comprá-lo ao chegar. Teria sido legal, mas completamente desnecessário. Ainda bem que não comprei.

Semanalmente entro em sites poloneses – país onde pretendo comprar o carro – procurando por novas ofertas. Encontrei um verde já faz uns 3 meses. Lindo, simplesmente lindo. Ainda mais em se tratando de um palmeirense. O preço no entanto não era o que eu esperava gastar, 1500 euros. Deixei em “stand by” e continuei minha procura. Encontrei outros interessantes por preços mais módicos. Um, inclusive, era bem interessante. Mais novo (o verde é 81/82), esse era já 1988. Menos de 60 mil km rodados e a justificativa: o carro pertence a um cadeirante que mal tirava o carro da garagem. No anúncio ele garantia que ninguém jamais havia sequer sentado no banco traseiro. O preço? 800 euros! Os olhos brilharam, meu amigo polonês ficou de entrar em contato e conferir a veracidade do anúncio. Não conseguiu e o anúncio sumiu dias depois. Mas o verdinho 81/82 continua lá.

E para minha surpresa, entro hoje e vejo que o dono abaixou em 200 euros o preço. Agora quer 1300 e diz que ainda dá para negociar. E aí, será que é esse?

O link para o anúncio é esse.

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