Brasil x Croácia

Acordo quinta feira sem muita pressa, para variar. Minhas malas já estavam todas prontas desde a noite anterior e já sabia bem o caminho que teria que fazer.

Pego minhas coisas e desço até o carro. Coloco tudo por lá e vou seguindo o caminho. Em pouco tempo já estava na rodovia certa a caminho de Osijek.

Tudo indo tranquilo pela estrada, pista dupla. Chega a entrada para a cidade e tem um pedágio me esperando. Quando paro para pagar, dou o dinheiro e o cobrador começa a falar comigo. Havia anos que não via um Lada. Perguntou se eu era polonês e respondi que era brasileiro. Na hora ele puxou a camisa da Croácia e disse, “três a zero hoje, amigo, me desculpe”. Fiz que sim com a cabeça e continuei esperando meu troco. Depois de quase um minuto parado no guichê do pedágio, ele me deu o troco e eu segui caminho.

Logo cheguei à casa da Nina, onde ficaria. Lá também estava Lee, um coreano que decidiu viajar a Europa de bicicleta. Ele começou sua viagem em Istanbul e terminaria em algum lugar da Espanha.

Antes de irmos ver a abertura da Copa, tomamos umas cervejas e jogamos conversa fora. Nina nos diz que vamos ver um jogo num telão na cidade e eu imaginei que seria algo tranquilo. Apesar de estar na Croácia e o jogo ser contra eles, o clima era de festa e esperança.

Pegamos um táxi/van que estava levando as pessoas até o local e em pouco tempo estávamos lá. E eu achando que seria de boa.

Ao chegar dou de cara com um palco e um telão enorme. Dois rappers, ou algo do tipo, estavam se apresentando e ao final de cada música eles entoavam um canto de torcida e todos iam ao delírio. E eu ali, meio perdido. Dei uma pescoçada pra ver até onde ia o mar de croatas e percebi que o melhor a ser feito era não falar nada sobre a minha nacionalidade.

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Lee, ao contrário, era a bola da vez. Virou o centro das atenções e ficou batendo fotos e mais fotos com o pessoal que queria saber de onde ele era. Com um sorriso de orelha a orelha, ele foi sendo tratado com uma celebridade.

E o jogo começou. Ligo a câmera e tento pegar a reação da torcida. Não demora muito e o grito quase estoura meus tímpanos. Obrigado, Marcelo.

O clima, que já era de festa e esperança, aumentou ainda mais. Todos pulavam descontroladamente e gritavam coisas que eu jamais vou entender. E eu ali, fingindo estar feliz com eles.

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Não demora muito e Neymar empata e o som ensurdecedor era da torcida brasileira nas caixas de som. Até o narrador ficou em silêncio e o barulho da torcida lá do outro lado do mundo tomou conta do ambiente. Mais uma vez fingi estar ao lado dos croatas e não esbocei nenhuma felicidade com o gol. Mas bem lá no fundo, queria era subir no palco, pegar o microfone e mandar um “chuuuuuuupa”.

O intervalo veio, a banda voltou, as dançarinas semi-nuas também e o ânimo deles foi crescendo. Cerveja, cânticos, reboladas e muito barulho. O segundo tempo começa.

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Jogo morno, mas qualquer lance era motivo pra celebração. Até que veio o pênalti. “O” pênalti. Nesse momento eu, que já estava com medo, tive que xingar o juiz junto com todo mundo. Não podia só ficar no silêncio. O silêncio era complacente com o erro e isso significaria que eu estava torcendo para o Brasil. Xinguei de tudo, orelhudo, safado, corno. Pelo menos isso eles não saberiam que era português.

O gol foi marcado e o ânimo baixou geral. Apesar de alguns respiros do time croata, nenhum medo real mais eles botaram e para fechar, Oscar fez o terceiro gol já nos acréscimos e eles já não estavam mais aí, só queriam beber.

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O jogo acabou e fomos os três até o centro. Lá fomos num bar que estava tocando música tradicional croata numa possível comemoração da vitória que não veio. Lá me senti mais a vontade para dizer que era brasileiro, depois de ter sido interpelado por umas pessoas.

Um rapaz em especial disse que sempre esteve preocupado com a desigualdade social no Brasil e engatamos uma conversa a respeito, que infelizmente não foi muito além.

O cansaço bateu e decidimos voltar. Dormi aliviado com a primeira vitória brasileira, mas como eu saberia que mais à frente tudo isso seria em vão?

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Seka

Hrvoje tem um nome muito difícil de pronunciar e me pede para chama-lo de Seka. Ele tem 33 anos, é cientista da computação e uma das pessoas mais sarcásticas que já conheci.

Eu conto o que passei com Mateja e ele nem liga. Me pergunta se estou com fome e vamos almoçar. Ele chama sua namorada, Tatiana, e uma amiga.

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(Hrvoje, também conhecido como Seka)

 

Encontramos Tatiana e vamos até a pizzaria. Almoço de domingo, claro, tinha que ser uma pizza croata. Tatiana e Seka namoram a, somente, 13 anos. Ela estudara croata e húngaro e trabalha para o governo. Está escrevendo um dicionário em croata no dialeto que Tito usava. Um projeto que já consumira 30 anos e que ainda estava na letra S. Mais uns 10 anos de trabalho aí pela frente.

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(Tatiana)

 

Ana, a amiga deles, chega. Ela é mais nova, tem 25. Tatiana tem 30. Seka me dissera um pouco antes que ela queria ir morar no Brasil e que tinha certeza que iria me encher de perguntas assim que chegasse. E não foi diferente. Me deu oi e já veio me perguntando de onde era, o que estava fazendo, se eu sabia como ela poderia ir trabalhar numa favela.

Ela é assistente social, na verdade ela é uma mistura de professora e assistente, um curso diferente que me parece ter só lá. Diz que morou em Portugal por seis meses, aprendera um pouco da língua e que era fascinada pela estrutura social das favelas brasileiras. Queria de qualquer jeito ter a chance de um dia trabalhar numa, ajudando crianças em situação de risco.

Tento manter o sonho dela vivo, apesar da dificuldade de uma croata conseguir trabalhar numa favela. Ela quer trabalhar para o governo brasileiro e infelizmente tenho que colocar os pés dela no chão. O mais fácil seria trabalhar para alguma ONG que atue no Brasil.

Seka e Tatiana vão visitar a vó dela. Eu e Ana vamos até o centro conhecer alguns amigos dela. Está muito, muito calor mesmo. Beira os 35 graus e não venta.

No centro encontramos com Ena e Jasna. A primeira casou recentemente e exibe com felicidade a aliança. A outra ainda não casou, mas pelo jeito não vai demorar muito.

Ena é fotógrafa e Jasna é professora de Zumba. Jasna me fala sobre seu pai, um pescador numa pequena ilha no extenso litoral croata. Na época da Iugoslávia, trabalhava num dos maiores estaleiros europeus e, com o fim da república, acabou desempregado e teve que começar a ganhar a vida pescando. Não é uma vida fácil, ela diz, mas ele vai tocando.

O calor não dá trégua e decidimos ir a um lugar mais fresco. O lugar que elas queriam me levar estava fechado e vamos a outro. O lugar me pareceu bem gostoso, com muitas árvores e uma carta de cervejas regionais.

Não demora muito e Seka vem nos encontrar. Ele me ajuda a escolher as melhores cervejas croatas enquanto vamos falando sobre futebol e basquete.

Seka diz que quase se profissionalizou no futebol. Chegou a jogar semiprofissionalmente num time em ligas menores. Pergunto por que não deu certo e ele me mostra uma cicatriz nada bonita em seu joelho. Não precisa dizer mais.

Ele me fala um pouco sobre Dragan Petrovic. O chama de maestro e que ele nascera para jogar basquete. Lembra bem quando ele faleceu, em 1992. Hoje existe um museu em sua homenagem localizado numa praça com seu nome.

O marido de Ena e um amigo dele também chegam. Como eles sentam longe na mesa, acabo não conseguindo falar muito com eles. Mas em pouco tempo eu e Seka vamos embora.

No caminho passamos pelo dormitório estudantil para encontrarmos Tatiana, que está com um amigo deles, Neven. Eles o chamam de “Padre” porque ele estuda teologia. Nos apresentamos, mas logo vamos. Combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte.

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(Neven)

 

Eu, Seka e Tatiana chegamos ao prédio e Lydia, uma taiwanesa que também está no apartamento, desce e vamos até um bar a poucos metros para conversarmos um pouco mais.

Conversa trivial, mas bem humorada. Chegam Keith e Sarah, um casal estadunidense que também está no mesmo apartamento. Tomamos mais uma cerveja e subimos.

Keith e Sarah iriam embora já na manhã seguinte e por isso ficamos conversando um pouco mais. E antes de dormir, tomamos um gole da Slivovica que havia ganhado em Brno. Keith quase desmaia de tão forte que é.

Na manhã seguinte, eles me acordam para se despedir. Volto a dormir e acordo só mais tarde.

Lydia já havia saído e levado a chave e eu estava “preso”. Poderia sair, claro, mas não conseguiria voltar enquanto ela não voltasse também. Decido ficar no apartamento, lavar umas roupas e, principalmente, escrever.

Olho a cidade pela janela e o sol é de rachar. Faz muito calor, muito calor mesmo. Não venta, não tem uma nuvem no céu e o sol parece estar a poucos metros do chão.

Ligo a TV e o computador. Estou completamente por fora das notícias do mundo e ao mesmo tempo não tenho internet no apartamento. Vou trocando de canais até chegar na CNN e deixo por lá para tentar me atualizar sobre o mundo. Enquanto isso vou escrevendo sobre a viagem.

O noticiário diz que faz, oficialmente, 36 graus em Zagreb. A sensação deve ser ainda maior. Mesmo na sombra do apartamento e com todas as janelas abertas tentando fazer uma corrente de vento, suo muito. Muito.

Seka havia passado no apartamento um pouco antes e deixado um burek para mim. Havia cerveja e suco na geladeira. Comi e bebi enquanto escrevia e esperava Lydia.

Ela chega no meio da tarde, claro, reclamando do calor. Eu aproveito e desço um pouco para roubar o wifi do bar e comprar algumas coisinhas no mercado.

Subo e vou tomar um banho para tirar a inhaca do suor e quando saio do banho, ouço a voz de uma nova pessoa. Era Bennie. Já sabia que ele chegaria. Ele é italiano e veio a Zagreb para uma entrevista de emprego numa companhia aérea.

Na noite anterior, eu, Seka, Tatiana e Ana havíamos combinado de nos encontrarmos novamente essa noite para entrevistarmos Neven. Lydia e Bennie gostam da ideia e decidem nos acompanhar.

Nos encontramos com Tatiana e vamos até o quarto de Neven. De lá, vamos até um bar por perto onde ele gosta de ir, sentamos e eu começo a entrevista.

Após quase uma hora conversando, Seka chega. Neven e Ana estão cansados e precisam ir. Eu, Seka, Bennie, Lydia e Tatiana também vamos embora, mas Tatiana não segue conosco para uma última cerveja num parque em frente ao prédio.

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(Bennie, Ana e Lydia)

 

Seka precisa viajar a trabalho na manhã seguinte e a nossa despedida acontece lá mesmo. Agradeço por tudo que ele fez e vamos dormir. Lydia também partiria na manhã seguinte bem cedo e também nos despedimos.

Na manhã seguinte acordo e Seka dá uma rápida passada no apartamento. Eu havia esquecido em seu carro o tripé da minha câmera e ele veio me trazer. Junto, trouxe outro burek. Ele parte e fico sozinho no apartamento novamente. Lydia também partira e Bennie estava na entrevista de emprego.

O calor é igual ou mais forte que no dia anterior. Desço um pouco para roubar internet e decido procurar um banco para trocar um pouco mais de dinheiro. No caminho paro no mesmo restaurante que havia ido no Sábado, Zlatni Medo (O Ursinho Dourado) e peço um prato que, até onde eu sabia, era a “ração” dos soldados croatas na resistência aos nazistas na segunda guerra mundial. Sopa de feijão e uma salsicha. Nada mal, mas não para um calor de 40 graus. Volto para o apartamento com o estômago trocando uma ideia comigo.

Volto, tomo outro banho – o terceiro do dia, provavelmente – e volto a escrever. Bennie volta do segundo dia de entrevistas e não está muito esperançoso. Fica no aguardo do retorno, que fora prometido ser no mesmo dia, e enquanto isso procura por caronas de volta a Maribor, Eslovênia, onde mora.

Havia combinado de encontrar Martina com alguns amigos dela para entrevista mais tarde e convido Bennie para vir comigo. Ele agradece e diz que precisa estudar alemão, pois teria uma prova no dia seguinte.

Vou até o centro e reencontro primeiro Anja, que traz uma prima, Dorotea, que é historiadora. Tomamos uma cerveja e Dorotea me diz o quão interessada é pelo Brasil. Fico feliz em ver que mais uma pessoa gosta do país onde nasci e até esqueço de perguntar coisas sobre a Croácia para ela. A parte mais engraçada é quando ela me fala sobre as palavras em português que sabia dizer e que aprendera assistindo novelas. No meio de expressões como “tudo bem” e “por que?”, ela me diz um “vestido de noiva” e eu quase caio da cadeira de tanto rir.

Martina me avisa que está me esperando com os amigos num outro lugar, próximo, e vamos os três até lá. Anja e Dorotea decidem não ficar e se despedem.

Martina está feliz. Conseguiu passar na prova que tanto lhe tirava o sono e não conseguia conter o sorriso. Me apresentou seus amigos, Goran e Domagoj, e sua irmã, Nina, que eu conhecera quatro anos atrás também.

Vamos conversando e ligo a câmera. Mais uma vez uma entrevista dinâmica e com várias pessoas, bem do jeito que eu queria. Mas infelizmente todos trabalham no dia seguinte e não podemos ir muito além.

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(Nina, Goran e Domagoj)

 

Domagoj me dá uma carona e no carro vamos conversando ainda mais, dessa vez sobre carros. Ele tem um Skoda Fabia 1998 e diz sobre a experiência de sua família com carros “comunistas”.

Volto ao apartamento e tenho que acordar Bennie para entrar. Ele iria embora na manhã seguinte e nos despedimos. E antes de dormir tento deixar minhas roupas e coisas razoavelmente organizadas.

Mais um dia escaldante que eu passo na sombra escrevendo. De tarde vou encontrar Martina e ela me mostra o Jardim Botânico. Antes, no tram, decido ir sem pagar, já que era o que basicamente todo mundo fazia.

Quando as portas se fecharam e só faltava uma estação, vejo o controlador bem ao meu lado puxando a sua identificação e pedindo a passagem de uma menina ao meu lado. Aproveito que ele está de costas para mim e vou calmamente – mas tremendo que nem galho verde – andando até o fim do trem, na esperança que ele não tenha me visto ou que peça a passagem a outras pessoas antes de mim. Vejo que várias outras pessoas fazem o mesmo. Assim que o trem chega na estação e eu saio, dou um suspiro aliviado. Por pouco.

Após o Jardim Botânico, vamos tomar um sorvete e nos despedimos. Volto ao apartamento, pois a noite encontraria Tatiana e seus amigos para uma possível entrevista.

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(Martina)

 

Vamos até o beertija novamente. Como faz muito calor, um lugar aberto e com árvores é a pedida ideal. Mas ainda assim o calor, mesmo a noite, incomoda bastante.

Tatiana chega com duas amigas e dois amigos. Eles fazem aula de circo juntos e vieram logo após o término de suas aulas. Nikola é o professor e também dá aulas de capoeira. Manja muito sobre o Brasil e isso fica claro em seus pés: Havaianas. Tanja é sérvia e mora na Croácia a alguns anos. É psicóloga. Marko estudou IT e gosta muito de futebol e me enche de perguntas sobre a copa do mundo. E Lana também é psicóloga.

Anja e Dorotea chegam um pouco depois. A conversa flui, mas ninguém quer se entrevistado. Sem problemas. Melhor deixar a conversa fluir e aproveitar do que tentar enfiar uma câmera na cara das pessoas e cortar o clima.

Mais uma vez, todos têm que partir, pois no dia seguinte todos trabalhariam. Ao chegar no apartamento, deixo tudo arrumado para ir até Osijek, outra cidade croata e onde assistiria ao primeiro jogo da Copa, justamente contra a Croácia.

Mas isso eu conto no próximo relato.

No país das gravatas.

Por volta das 17h eu entro no carro e parto em direção a Zagreb. Ljubljana é tão pequena que tem que fazer muito esforço para não achar a estrada para a Croácia.

O dia estava lindo. Nenhuma nuvem no céu e um sol gostoso. Da janela da Lubenica pude ver os picos nevados dos Alpes Julianos, ao norte da cidade – e do país. Atrás deles está a Áustria. Infelizmente estava indo na direção contrária e não teria a companhia deles no meu trajeto.

Isso não quer dizer que a estrada não era linda. A paisagem montanhosa foi, aos poucos, dando lugar a pequenos morros com casinhas ao redor. A estrada cruza algumas cidades pequenas e todas são bem visíveis por conta de suas igrejas de torres brancas com telhados escuros e pontiagudos. Dá a impressão de andar em círculos, tamanha a semelhança entre as igrejas a beira da estrada.

Pouco mais de 100 km depois, chego na fronteira. Um posto bem semelhante ao de um pedágio e uma fila de carros. Enquanto os caminhões e ônibus eram revistados com mais rigor, os carros passavam com menos burocracia.

Quando chegou minha vez, entreguei meu passaporte ao policial esloveno, que me perguntou se o carro era meu, disse que sim e fui pegar o documento, mas ele nem quis ver, devolveu meu passaporte e me desejou boa viagem. Alguns metros a frente estava o policial croata, que olhou meu passaporte por uns 5 segundos e não disse uma palavra. Estava oficialmente na Croácia. A espera de dias pelo documento do carro se mostrou desnecessária. Mas não queria ter corrido riscos.

Chego em Zagreb por volta das 19h, duas horas após ter saído. Com o GPS, chego sem problemas até o endereço onde Mateja mora. E primeiro preciso explicar como cheguei até ela.

Quatro anos atrás, conheci Martina e sua irmã, Nina, numa rodoviária em Budva, Montenegro. Elas estavam voltando para a Croácia e eu indo para a Sérvia. Ficamos amigos e mantivemos contato pelo Facebook. Quando soube da minha viagem, Martina ficou de encontrar algum amigo onde eu pudesse passar uns dias. E assim ela o fez. Porém, com o meu atraso em Ljubljana, sua amiga que iria me hospedar teve que viajar e eu fiquei sem lugar para ficar. Comecei então a procurar pessoas no Couchsurfing meio que de última hora e Mateja foi a única pessoa que me respondeu positivamente a tempo. Apesar dela não ter nenhuma experiência com hóspedes, ela parece ser uma boa pessoa e, diante da situação, eu decido ficar em sua casa.

Pois bem, quando chego em sua rua, estaciono o carro e vou até o seu apartamento. Toco a campainha e não tem ninguém. Insisto um pouco mais e nada. Volto até o carro, coloco minhas coisas no porta-malas e vou em busca de algum lugar com internet para tentar entender o que acontece.

Bem próximo há um Shopping Center. Sento num restaurante, peço uma cerveja e o código do WIFI. Logo as mensagens começam a chegar no email, whatsapp, facebook e onde mais é possível. Ela me mandou umas cinco mensagens avisando que teve que sair de última hora, pois um amigo acabara de se formar e quis comemorar. Disse também que a chave do apartamento estava embaixo do capacho na entrada e que eu poderia entrar, tomar um banho, comer e que logo ela estaria de volta.

Apesar da bondade dela, fico um pouco intrigado com a total confiança que ela deu em mim. Vou até o apartamento e tomo um banho. Usando a internet dela, vejo que outras pessoas responderam pelo meu pedido. Uma delas, Anja, disse que estaria livre para uma cerveja e combinamos de ir ver o jogo Brasil e Sérvia onde a pouco eu estava. Aviso Mateja.

Anja é a minha primeira entrevistada croata. Ou pelo menos a primeira tentativa. Muito tímida, respondeu as minhas trocentas perguntas de uma forma bem comedida. Me contou um pouco sobre sua vida e a Croácia, mas logo tinha que ir. Havia combinado um encontro com um outro amigo no centro.

Volto ao apartamento e Mateja não demora muito em chegar. Finalmente nos apresentamos e conversamos sobre muitas coisas.

Não pude deixar de comentar sobre a confiança que ela havia depositado em mim. Ela me diz que teve uma infância sozinha e que se não confiasse nas pessoas, não teria motivos para viver. Mas vamos dormir logo, pois já é tarde.

Na manhã seguinte, enquanto tomávamos café, ela me conta um pouco sobre a infância. Seu pai era violento com ela e a irmã e por muitas vezes a agrediu, inclusive tendo que ir ao hospital por conta dos machucados. Sua mãe era complacente e nunca a ajudou. Então aos oito anos decidiu fugir de casa e ir morar com a Avó, a única que a protegia.

Sua adolescência foi marcada por ter que trabalhar e estudar, enquanto via os amigos brincando e estudando. Acostumada a ter que se virar desde cedo, perseverou e entrou numa boa faculdade. Estudou contabilidade e acabara de terminar o mestrado. Trabalha numa grande empresa e está juntando dinheiro para comprar o seu apartamento.

Me diz também que, por conta da rotina pesada de estudar e trabalhar, não conseguiu estar ao lado de sua avó quando ela ficou doente e faleceu. Como forma de homenagem, estava planejando trocar seu sobrenome pelo da Avó, a única que realmente lhe amou.

Ouvi tudo atentamente e não consegui dizer nada além de parabéns pela força que ela tinha. Ela agradeceu e disse que, após muita terapia e remédios, hoje se considera uma pessoa normal novamente.

É hora de ir conhecer a cidade. Primeiro ela me leva até o Parque Maksimir, onde acontecia um evento esportivo. Havia um palco onde um rapaz estava dando uma entrevista e algumas pessoas estavam se exercitando, mas nada parecido com um evento. Demos uma volta e fomos até o centro.

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Na praça principal, chegamos a tempo de ver uma encenação de como era feita a troca da guarda real que vinha da cidade alta até a cidade baixa. Os atores, usando a tradicional gravata croata, tocavam tambores e seguiam o líder, num cavalo garboso. Seguimos o cortejo um pouco, até que ele acabou no caminho que leva até a cidade alta.

Fomos até o mercado de frutas, subimos até a catedral, depois passamos pela parte alta e chegamos até uma rua bem gostosa, cheia de árvores e com alguns quiosques. Sentamos para conversar um pouco. Martina está a caminho para nos encontrar.

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Enquanto conversávamos, falamos sobre as “disputas” entre quem inventou tal comida, se foram os croatas e eslovenos. Mateja me pergunta se existe algo semelhante com o Brasil e comento, brincando, que nossa única briga é com os argentinos sobre churrasco, mas não quem inventou, mas sim quem faz melhor. Nisso, uma senhora que estava sentada atrás da gente pede licença e diz que precisa intervir. É argentina e começamos a “brigar”. Mateja fica sem entender um pouco, mesmo que com a conversa em inglês. Foi engraçado.

Ficamos conversando por mais um tempo, até que Martina chegou. A argentina precisou ir, pois seu marido estava no hotel, um pouco doente, e ela queria ir ver como ele estava. Nos despedimos, trocamos contatos e eu e minhas amigas descemos até a praça principal novamente.

Mateja e Martina, que não se conheciam, ficam amigas e eu vou seguindo elas. Martina não pode ficar muito, pois tem uma prova importante pela frente. Ela parte e eu e Mateja vamos almoçar antes de voltar ao apartamento.

O restaurante chama Zlatni Medo. Medo é ursinho e zlatni é dourado. Apesar do nome, para nós, parecer algo assustador, significa Ursinho Dourado. É um restaurante tradicional e eles fazem a própria cerveja, que é particularmente gostosa. Pedimos um “meio a meio”, que é um prato variado com comida de toda a Iugoslávia.

De volta ao apartamento, Mateja me diz que vai encontrar um amigo a noite. Martina me convida para ir tomar uma cerveja com uma amiga e ficamos combinados assim.

Vou tomar banho e ao fechar a cortina do pequeno banheiro, sem querer esbarro numa caixa com bijuterias. Faço uma bagunça danada, mas coloco tudo no lugar. Quando saio do banho aviso Mateja sobre a minha trapalhada. Ela ri e diz que tudo bem.

Saio e vou encontrar Martina. Sua amiga se chama Barbie. Isso mesmo, Barbie. São amigas da escola de dança. Barbie se mostra ser bastante familiar com o meu país e conversamos sobre o Brasil. Por umas quatro ou cinco vezes ela iniciou o assunto dizendo “Eu li um artigo sobre o Brasil…”. Eu e Martina, no fim, já estávamos fazendo piada sobre isso.

As duas são professoras de inglês, assim como eu fui por um tempo, e conversamos muito sobre ser professor na Croácia e no Brasil. Falamos sobre Copa do Mundo, favelas, classes sociais e tantas outras coisas. Mas, infelizmente, levei um não quando quis tentar gravar a conversa. Que pena.

De volta ao apartamento, Mateja já está dormindo. Vou dormir também tentando não acordar ela.

Acordo no domingo com ela limpando o apartamento. Ela parece um pouco nervosa. Pergunto se está tudo bem e ela diz que sim. O dono do apartamento ligara um pouco antes avisando que iria passar lá para resolver um vazamento no banheiro. Ela queria deixar o apartamento em ordem para não deixa-lo bravo. Aparentemente na Croácia, os donos dos imóveis podem expulsar os locatários sem mais nem menos, o que para mim soou completamente bizarro.

Ela diz que eu não posso estar no apartamento enquanto ele estivesse por lá. Sem problemas. Levo minhas coisas até o carro, menos o computador. Quando ela começa a organizar o banheiro, pega a caixa bijuterias que eu havia derrubado e começa a fazer cara feia para mim. Não entendo e pergunto se está tudo bem. Ela diz que não. Uma caixa de metal havia sumido.

Eu argumento que deveria estar em algum lugar no banheiro, pois eu havia devolvido tudo que encontrara de volta na caixa. Ela continua com a cara feia e eu fico completamente sem graça.

Ela fica sem falar comigo por um tempo, procurando pela caixa. Eu sinto que o tempo está ficando feio para mim e tento conversar com ela. Ela então simplesmente me diz para ir embora. Eu tento entender o que está acontecendo e ela completa dizendo que não confiava mais em mim e que eu tinha que ir embora imediatamente. Peço para que sentemos e conversemos por uns minutos, pois quero explicar e entender o que está acontecendo. Ela diz que não e que me quer fora do apartamento já.

Pego meu computador e minha câmera, que ficaram, e saio completamente sem entender o que aconteceu.

Vou até o restaurante onde havia usado o WIFI na sexta e entro em contato com Martina e Anja. Pego dois telefones de pessoas que me responderam no Couchsurfing após Mateja e peço para que elas entrem em contato por mim.

Anja liga para Hrvoje, um dos que me respondera, e ele diz que eu poderia ficar em sua casa. Ela me passa o endereço e pouco tempo depois encontro com ele em frente ao prédio.

O susto durara pouco, mas foi uma situação que eu não esperava passar. Me sentia mal por ter feito algo que, no fim das contas, eu não havia feito. Achei melhor esquecer.

Subi e deixei minhas coisas e a segunda etapa em Zagreb estava só começando.

Ljubljana, parte dois.

A marcha da maconha começaria ao meio dia, na praça em frente ao parlamento. Na noite anterior fomos dormir por volta das 5 da manhã e sabia que Boris não estava afim de ir e eu teria que me virar para ir.

Acordo meio dia e mando uma mensagem para Nikola perguntando se ele iria. Ele me responde positivamente, mas que chegaria por volta das 15h. Boris acorda mais tarde só e diz que vai visitar uns familiares, mas que me deixaria no centro.

No centro, mesmo que tarde, espero dar de cara com uma marcha, pessoas gritando, polícia ao redor olhando feio. Mas chego na praça e as poucas pessoas que foram estão sentadas no gramado, bebendo cerveja e fumando, enquanto num palco montado no centro um DJ “anima” a festa.

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Já meio decepcionado, arrumo a câmera e começo a filmar. Olho ao redor e não vejo nada de diferente entre esse protesto e um sábado a tarde normal. Penso em ir até um grupo de pessoas e fazer algumas perguntas, mas o clima era óbvio que não havia protesto nenhum.

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(A tal “Marcha da Maconha” que não era marcha)

Nikola vem ao meu encontro e comento com ele sobre a minha decepção. Ele me explica que havia 3 anos que não era realizada a marcha e que esse ano alguns patrocinadores, entre eles a Organização Estudantil de Ljubljana, deram gás ao evento, que mesmo assim não se transformou em protesto, mas sim numa festa, com pouco ou nenhum discurso político.

Decidimos dar uma volta pela cidade enquanto vou entrevistando ele. Nikola me conta sobre sua vida, a de seus pais, como chegaram até a Eslovênia e tantas outras coisas. Andamos muito e fazia muito sol. Apesar da temperatura oficialmente não ser mais que 20 graus, a sensação era bem maior.

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(Nikola)

Para dar uma refrescada, andamos pelo parque Roznik (rôjník) e depois voltamos até o centro. De volta à praça, a marcha estava em vias de acabar e o clima era o mesmo. As mesmas pessoas, nos mesmos lugares fazendo as mesmas coisas que horas antes.

Maja veio nos encontrar e decidimos ir até Metelkova para ver se lá estava mais animado.

Não estava. Apesar de ser Sábado à noite, o lugar estava quase vazio. Nem se comparava com a noite anterior. Eles me explicam que muita gente volta para suas cidades nos finais de semana e que, apesar de mais vazio que o normal, era esperado que não estivesse cheio.

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(Metelkova)

Boris vem nos encontrar, Maja vai embora, e ficamos os três por lá mais um pouco. Alexander, o fã de futebol que conheci no dia anterior, está lá e vem conversar comigo. Me apresenta outro amigo, David, que tenta me dizer que está indo à uma cidade brasileira em Agosto. Depois de umas cinco tentativas, entendo que a cidade é Pirenópolis, em Goiás. Realmente não é fácil nem para nós, quanto mais para eles falar essa cidade.

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(Alexander, à direita)

Ele toca numa banda de música tradicional eslovena e eles firmaram um acordo com um grupo artístico de Pirenópolis e farão um intercâmbio. Os brasileiros virão até a Eslovênia e eles até o Brasil. Claro que ele me pergunta sobre violência e tantas outras coisas e eu acalmo ele. Digo que vai se divertir e que poderá ter problemas somente quando for voltar, pois não iria querer.

Não demoramos muito em voltar. Deixamos Nikola em sua casa e voltamos até o apartamento. O sábado que muito prometia foi salvo pela boa entrevista que fiz com Nikola, porque a marcha em si foi fajuta demais para o meu gosto.

É domingo e Boris tem que, mais uma vez, visitar parentes. Eu havia combinado de ir encontrar Daniela, uma gaúcha que havia entrado em contato comigo meses antes, quando leu sobre minha viagem num site, e que estaria em Ljubljana mais ou menos quando eu estaria.

Encontro ela na rodoviária e damos uma volta pela cidade. Ela me conta que está viajando há mais tempo que eu ainda e que no total seriam três meses. Depois, voltaria ao Brasil por três semanas e depois iria, de mala e cuia, até Seul, onde iria dar aulas de português numa Universidade.

Aproveitamos que é o primeiro domingo do mês e muitos museus são de graça. Dica que a Maja havia me dado no dia anterior. Vamos até o Museu de Arte Moderna, que eu nunca manjei nada, e depois no Museu Nacional. Por fim, vamos encontrar Maja no museu onde ela trabalha, o City Museum.

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(Maja e Daniela)

Maja faz um tour guiado conosco, que coincide com o fim do seu expediente. Saímos os três e vem ao nosso encontro Darko, que era o rapaz que Daniela encontrou no Couchsurfing e que iria dormir em seu apartamento. Maja então nos leva até o Castelo e vai nos contando sobre a história da cidade, do Castelo e outras coisas.

No Castelo, ela encontra um amigo que também trabalha lá, Igor. Darko encontra um amigo também que, por coincidência, é amigo do Igor. Todos riem com a coincidência e alguém comenta “que mundo pequeno”. Não perco a oportunidade e solto a piadinha mais horrível possível: “O mundo não é pequeno, a Eslovênia que é”. Uns riem, outros não e eu calo minha boca.

Subimos até a torre e todos tentam nos explicar tudo possível. Até Darko e seu amigo, que não são guias.

A vista é magnífica e pudemos ver o quanto Ljubljana é uma cidade charmosa. Rodeada de montanhas, algumas ainda nevadas, a cidade tem poucos prédios altos e mantem um padrão arquitetônico. Muitos parques rodeiam a cidade também.

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(Ljubljana)

Descemos e encontramos com Miha, que também está a trabalho no Castelo. Outro que nos ajuda no tour. Mas bate às 21h e o Castelo tem que fechar. Nós sete vamos até o centro e sentamos num bar para conversarmos mais.

Darko e Daniela têm que ir. Boris me avisa que está chegando e também vamos.

No dia seguinte, eu e Daniela vamos até Bled, encontrar Greg, meu amigo russo que mora por lá. Um dia para turismo, já que nada do documento chegar ainda.

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(Bled)

Na volta, estou sem a chave e Boris me diz que não sabe quando vai voltar. Eu, Daniela e Darko, que veio ao nosso encontro, vamos jantar e experimentamos o hambúrguer de carne de cavalo. E para mim o sabor era exatamente o mesmo. Suspeito que já devo ter comido muito hambúrguer de cavalo por aí sem saber.

Darko e Daniela precisam ir e eu combino de encontrar com o Boris. Nos encontramos no bar universitário, onde está o casal de amigos dele, Urska e Jernej. Boris está de bicicleta, então eles me levam até o apartamento.

Terça havia mais um protesto a acontecer. Na semana anterior, Boris havia ligado para diversas entidades estudantis e alguns partidos políticos, convocando-os para esse protesto. O governo estava planejando acabar com o subsídio no passe mensal dos estudantes, com a desculpa de que estava ficando sem dinheiro.

Chegamos até a sede da organização estudantil, onde estava acontecendo a concentração. Não mais que 200 alunos estavam lá, esperando e comendo uns salgadinhos, oferecidos pela organização. Em pouco tempo chega um ônibus – da frota da cidade – e todos entram. Paramos próximo à sede do governo e lá marchamos, finalmente, até a rua onde fica o prédio.

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Alguns policiais, não mais que 20, estavam por perto. Os protestantes ficaram concentrados numa das calçadas e a rua em momento algum foi bloqueada – exceto quando um dos alunos foi falar o megafone e os jornalistas, que estavam em maior número que os policiais, foram filmá-lo e fecharam e atrapalharam o trânsito, praticamente inexistente, por alguns segundos.

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Gritos de guerra, apitos, faixas. Um protesto de verdade, podemos dizer. Enquanto filmava-os, uma policial veio, educadamente, pedir que eu saísse do meio da rua, mesmo que nenhum carro estivesse vindo. Obedeci.

Após uns 40 minutos de protesto, todos voltam ao ônibus, que nos deixa em frente à organização. Mais alguns salgadinhos e água e é isso aí. Boris comenta comigo que não era a melhor época para protestos, já que muitas provas finais estavam chegando e muitos alunos, especialmente de outras cidades, não quiseram participar.

Voltamos ao apartamento e combino com Boris que a noite faria um jantar para ele, Miha e Maja e que, finalmente, iria entrevista-los. Ele agradece a atitude e diz que voltaria a noite.

Vou até o mercado e compro arroz, frango, champignons frescos, umas cervejas e volto. No apartamento vou escrevendo para tirar o atraso. Sem internet não há muito o que fazer a não ser escrever. Traduzo os primeiros posts e vou escrevendo a tarde inteira.

Boris chega com Miha por volta das 22h. Começo a cozinhar e vamos todos bebendo e conversando. Maja chega logo antes de ficar pronto. Faço um strogonoff, meu primeiro, que ficou, não querendo me gabar, sensacional.

Enquanto vamos comendo, ligo a câmera e começo, aos poucos, a entrevista-los. Boris vai fazendo gin tônicas para eles e eu fico na minha cervejinha. A conversa vai rolando e conforme o álcool vai descendo, o tom vai subindo.

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Após fazer as primeiras perguntas, eles vão respondendo  e bebendo. Nem preciso mais perguntar. Eles vão falando e falando e até começam a discutir, quando o assunto chega aos colaboradores nazistas que foram assassinados sem julgamentos logo após o fim da segunda guerra.

A discussão, apesar de acalorada em alguns momentos, não criou nenhum problema. Quando o relógio bateu uma da manhã, é hora e encerrar. Poderíamos continuar por horas. Maja brinca e diz que não devia ter bebido. Boris, depois que todos vão embora, conversa comigo e insiste em seu ponto de vista. Mas logo vamos dormir.

No dia seguinte, Boris sai cedo e volta tarde. Aguardo pelo documento, mas sei que ele só deve chegar no dia seguinte ou mesmo somente na sexta. Daniela me avisa que seu ônibus para Budapeste sai a tarde e combino de ir até a rodoviária me despedir.

Antes, almoço na cidade e tento resolver umas pendências no banco. Depois vou até a rodoviária, me despeço da Daniela e do Darko e vou até o apartamento de Maja. Lá ela me ajuda com a questão do pneu do carro, que ainda não tinha resolvido.

Ligamos para umas cinco lojas de pneus e fecho negócio com a que me pareceu mais barata. No dia seguinte, de manhã, levaria o carro lá para a troca.

Uma amiga de Maja chega, vamos até o telhado, mas não por muito, pois a chuva e o vento nos afastou. Mas conto sobre minha viagem e o Brasil. Não muito depois volto ao apartamento.

Havia acordado um pouco mal e meu estômago estava estranho o dia inteiro. Não havia conseguido comer nada, mas não me sentia mal, só meio estranho. Ao voltar ao apartamento sinto um pouco de frio e decido medir minha temperatura. Estou com 38 graus de febre e não faço a menor ideia porque.

Deito e assisto um filme, quero tomar um paracetamol para ver se melhoro, mas de estômago vazio não dá. Não sinto fome ainda, muito por conta do meu estômago estar embrulhado. Só bem a noite consigo fazer um macarrão alho e óleo, só para pôr alguma coisa na barriga e então tomo o remédio e vou dormir.

E no dia seguinte acordo inteiro. Nenhum resquício da febre. Greg me liga e pergunta o que vou fazer. Digo que preciso ir até a borracharia trocar os pneus e pergunto se ele quer ir. Para minha surpresa, ele diz que sim e quer levar um amigo. Sem problemas.

Eles me encontram por volta do meio dia. Gibran é mexicano e recentemente casou com uma eslovena. Vamos o caminho até a borracharia conversando sobre a vida de um imigrante na Eslovênia.

Deixamos o carro e vamos tomar um café por perto, enquanto esperamos ele ficar pronto. Conversamos um pouco sobre política e sobre México, Brasil e Rússia e países em desenvolvimento. Mas logo temos que ir, pois o carro está pronto.

Deixo eles na rodoviária e volto até o apartamento. Pego a bicicleta de Boris e vou encontrar ele e Maja para um provável último almoço. Nastya também vem. Como ansisos que o documento chegará. Mas ele não chega.

Volto ao apartamento com a certeza que dormiria mais um dia em Ljubljana. Minha décima noite por lá. Já estava me sentindo um Ljubljanense. Já conseguia entender a língua, falar o básico e até fazer piadas.

Wojciech me avisa que rastreou o envio do documento e que ele chegaria na manhã do dia seguinte, sexta. Sei que não é sua culpa, mas peço que ele abra uma reclamação contra a empresa de envios. Pelo dinheiro pago e a previsão de entrega, eles estavam mais de 24 horas atrasados. E tempo, meu amigo, nesse caso é muito dinheiro. Especialmente o meu.

Boris não se sente bem depois da bebedeira que teve ontem. Faço um café e lhe dou uma Neosaldina. Combinação perfeita para ressaca. Logo ele melhora e me convida para um último almoço. Já com o documento em mãos e o carro pronto, era só uma questão de querer ir embora.

Vamos pela última vez ao bar universitário e, depois de tantas vezes, as garçonetes me cumprimentam, de tanto me verem. Me sinto um local. Encontramos Maja e Kaja e vamos almoçar.

Me sinto meio estranho. Depois de dez dias, me sentia parte da cidade. No dia anterior fiquei bravo que queria ir embora e não podia e hoje estava triste, pois precisava ir embora e não queria. Foi estranho.

Me despeço de Boris, que me dá um forte abraço, e Kaja e sigo com Maja de bicicleta. No caminho me despeço dela também e sigo até o apartamento. Minhas coisas já estão no carro. Deixo a bicicleta, travo e coloco a chave na caixa de correio. Vou até o carro e é hora de me despedir do meu lar provisório.

Zagreb parecia tão longe, mas estava tão perto. E em pouco tempo chegaria lá.

Ljubljana, parte um.

Boris chegou às 22h para me buscar. No carro estava Miha, seu amigo. Viemos até o apartamento, logo ao lado, e eles me ajudaram a levar as coisas nas escadas.

Expliquei a eles o motivo do atraso e os dois ficaram surpresos como eu consegui chegar até Ljubljana. Eu também ainda estava, mas agora era hora de relaxar, tomar um banho, comer alguma coisa e descansar. Pedi licença e fui tomar meu banho.

Renovado e menos fedido, encontro eles na cozinha. Boris e Miha estão fatiando cogumelos, barriga de porco e ajeitando uma carne moída. Não faço a menor ideia do que poderia ser. Pergunto se precisam de ajuda e eles dizem que não.

Vamos conversando sobre a Eslovênia e os dois, Boris linguista e Miha historiador, ambos prestes a se formarem, vão me falando muitas coisas interessantes sobre o pequeno país onde nasceram.

Da cozinha passamos para o balcão, na parte de fora do quarto de Boris. Vejo bandeiras, fotos, livros. Muita coisa sobre a Irlanda. Boris é fissurado pelo país e estudou por conta própria quase tudo relativo ao país. Reparo numa bandeira Sérvia e ele já se apressa em me dizer que não tem nada a favor dos sérvios fascistas. Noto também uma foto de Tito e, quando olho mais de perto, Miha me confirma que é ele. Não havia dúvidas     que ficaria os próximos dias na casa de uma pessoa bastante peculiar.

No balcão ele liga uma churrasqueira elétrica. A janta seria um típico churrasquinho esloveno de balcão – porque se eles tivessem laje, seria lá, sem dúvidas. Faz frio, mas estava agradável.

Logo chega Maja, a pessoa responsável por me fazer encontrar Boris. Lembram-se se Ondrej? Pois bem, ele conheceu ela em Vilnius, quando estudaram, e no nosso almoço em Budapeste ele havia ficado de falar com ela sobre a possibilidade de eu ficar em sua casa, em Ljubljana. Como sua casa estava cheia, ela contatou Boris, que aceitou. E lá estávamos todos nós, nos conhecendo.

Maja é colega de Miha no curso de História. Todos se conhecem a um bom tempo, pois fazem parte de uma organização estudantil na Universidade de Ljubljana. É praticamente a mesma coisa que o DCE deles. Miha é o presidente do DCE da história e Boris é o presidente geral do DCE da Universidade. Aproveito e faço várias perguntas sobre movimento estudantil e eles me respondem com o maior prazer.

O churrasco vai saindo, a minha pança vai enchendo e o frio vai incomodando. Estava exausto e não consegui esconder. Perto da 1h eles perceberam que já não me aguentava mais de olhos abertos e partiram. Maja mora perto e vai a pé. Miha mora um pouco mais longe e Boris o leva. Eu me despeço, combinamos de nos ver nos dias seguintes e vou dormir.

Quarta acordamos não tão tarde. Pedi a Boris que me indicasse onde ficasse um correio. Uns dois dias atrás, Wojciech me avisara que o documento permanente do carro estava pronto e que ele precisava do temporário para efetuar a troca. Antes, passamos no prédio onde está o escritório da Organização Estudantil. Boris tem que fazer umas ligações e convocar outras organizações para um protesto previsto para a semana seguinte. Me explica que o governo quer tirar o desconto na passagem mensal de ônibus e que o protesto era para pressionar o governo a não fazê-lo.

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Ele então me leva até um correio, mando o documento, gasto uma nota para que ele chegue o quanto antes e então vamos almoçar. Antes, ligamos para Maja, pois havíamos combinado de almoçar juntos. Ela diz que estava com muita fome e que teve que almoçar. Combinamos então de nos encontrar após o meu almoço.

A Eslovênia é um pouco mais cara que os países que havia visitado até então. Boris sabe disso e me leva até um restaurante mais em conta, dentro de um supermercado. Experimentei o strukli (shtrucli), uma espécie de ravióli gigante recheado com ricota. Para acompanhar, um bife estranho, que não tinha nada de tradicional nem aqui e nem em lugar nenhum.

Ele pega o mesmo, mas paga bem menos. Me explica que não há refeitório estudantil, então o governo subsidia a alimentação dos estudantes, dando um desconto de cerca de 2,70 euros. Mas nem todos os restaurantes cediam o desconto. Achei interessante.

No caminho até o encontro com Maja, passamos numa borracharia. Perguntamos sobre pneus para a Lubenica e a resposta é negativa. Ficamos de passar outro dia e procurar em outros lugares.

Vamos então para um bar estudantil, junto ao prédio da Faculdade de Artes. O ambiente é legal, o dia está bonito e a cerveja é mais em conta. Roubo o wifi do lugar e vejo as mensagens no facebook e whatsapp. Greg, um russo que havia me encontrado no Couchsurfing e que estava morando em Bled, cidade a 50 km de Ljubljana, me avisa que está na cidade e quer me encontrar. Digo para que ele venha até o bar e logo ele nos encontra.

Greg é jovem, 23 anos, mas já fez muita coisa. Formado em economia, decidiu largar tudo em Moscou e se mudar para a Eslovênia, que ele insiste em dizer que é o melhor país do mundo. Nos conta que trabalhou um tempo como perito em acidentes aéreos e que viajou a Rússia inteira assim. Depois foi trabalhar para uma fábrica de armas. Largou tudo e veio.

Boris teve que ir um pouco antes de Greg nos contar tudo isso. E logo Greg também teve que ir. Eu e Maja ficamos mais um pouco e ela também precisa ir. Ela libera uma bicicleta para que eu usasse no meu caminho de volta para o apartamento de Boris. Sigo meu caminho sem erro.

O resto do dia é mais tranquilo. Sozinho no apartamento vou escrevendo um pouco. Saio depois das 20h para comprar algo no mercado e dou de cara com ele fechado. Volto e espero Boris voltar. Quando ele volta, tomamos mais algumas cervejas e conversamos mais, antes de irmos dormir.

Na quinta levantamos mais uma vez num horário bom. Tomo a liberdade de fazer o café e depois vamos até o mesmo bar de ontem, encontrar mais uns amigos de Boris. Lá conheço Kaja e Nastya, a primeira aluna de psicologia e a segunda estuda letras. São também da organização estudantil.

Vamos até um restaurante oriental no esquema self-service à vontade. Lá vem ao nosso encontro Miha, Urska e ????, seu namorado. O buffet está meio fraco, pois já são mais de 15h. Lutamos entre nós pelo pouco que restou e fico um pouco decepcionado. Mas tudo bem, comi em quantidade boa para o preço.

Depois do almoço, Miha, Urska e ???? têm que voltar ao trabalho. Kaja precisa ir embora também. Eu, Boris e Nastya compramos umas cervejas e eles me levam até um rio, uns 15 km afastado da cidade, para conversarmos.

O lugar é legal. Um rio de águas glaciais, azuladas, corre. Ao fundo montanhas ainda um pouco nevadas. Sentamos e conversamos. Mas logo a chuva vem e temos que correr para não ficarmos ensopados.

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Boris me deixa próximo ao apartamento. Mais uma vez tinha treino e ficaria até mais tarde. Eu volto ao apartamento e percebo que minha internet no celular havia acabado, assim como meus créditos. Estava completamente sem internet, já que Boris só usava a do seu celular e o apartamento não tinha internet.

Escrevo por horas e nada do Boris voltar. Não tenho como entrar em contato com ele e vou ficando entediado. Vou ao mercado, dessa vez antes de fechar, e compro comida. Faço uma deliciosa carbonara, para variar, e espero Boris decidir voltar.

Ele chega às 23h e eu já estava quase pulando da janela de tanto tédio. Que falta faz uma internet. Ele diz que encontrou um amigo após o treino e foram tomar uma cerveja. E que nós iríamos encontrar ele novamente no centro. Faço o mesmo prato novamente, dessa vez para ele, e vamos de taxi até a cidade.

Vamos a um bar barulhento no centro. Lá encontramos Nikola, estudante de sociologia. Ele me faz várias perguntas sobre o Brasil e ele demonstra saber bastante sobre o país. Conversamos bastante sobre política enquanto esperamos mais um amigo de Boris chegar.

O bar fica mais cheio e barulhento, ainda que nós tenhamos ficado do lado de fora. Decidimos mudar de lugar. No caminho até o novo bar comento com Nikola que ele me lembra mais sérvio do que esloveno. Ele tem a pele um pouco mais escura, como a minha, e sobrancelhas mais grossas. Ele então me diz que nasceu em Montenegro, numa cidade de minoria albanesa, e que sua etnia era, na verdade, albanesa, mas que ele era esloveno.

No novo lugar converso muito com ele sobre isso. Após um tempo chega o outro amigo deles. Ele chega e se apresenta a mim como “Miha, the Communist”. Boris e Nikola se borram de rir e eu fico sem entender.

Logo Miha me monopoliza e quer me contar tudo sobre ele. Trabalha na embaixada da Venezuela. Estuda sociologia e também faz parte da organização estudantil. Conversamos mais sobre a Venezuela do que sobre a Eslovênia.

Faz frio e peço para entrarmos. Ele me conta sobre sua família, sobre seus planos e diz que irá concorrer ao parlamento nas próximas eleições. E quando ele vai ao banheiro, Boris me conta que ele está bêbado e que ele falava muito quando estava assim. Percebi.

O bar ameaça fechar e vamos embora. Antes de voltarmos, paramos para comer a tradicional “Pizza Burek”. Burek é uma comida típica dos Bálcãs. É uma torta de queijo com massa folhada. Mas na Eslovênia eles a transformaram em pizza. Enfiaram presunto e cogumelos e era a larica favorita de 9 entre 10 eslovenos na madrugada.

O sabor é gostoso, mas a quantidade de óleo é enorme. Acordo no dia seguinte com o gosto de óleo na boca. Nikola e Miha dormiram no apartamento também. Miha já havia saído para trabalhar. Nikola e Boris acordam. Nikola tem que ir preparar um seminário e eu e Boris vamos almoçar.

Vamos novamente ao restaurante no supermercado. Dessa vez nada tradicional me pareceu atraente e pedi qualquer coisa. Comemos e antes de irmos, aproveito para recarregar meu celular.

Com internet novamente, nada me deteria. Boris me deixa no apartamento e tem que sair. Passo no mercado e compro mais comida. Enquanto continuo escrevendo, vou fazendo minha janta e tomando uma cerveja. Boris, mais uma vez, demora a voltar e entro em contato com Maja, que vem me encontrar no apartamento.

Boris chega com um amigo, David. Enquanto ele vai preparando coxinhas de frango para todos, David, eu e Maja vamos conversando. A Eslovênia, apesar de pequena, tem muitas diferenças entre as regiões, como eles me disseram. Mal parece que há espaço para isso.

As coxinhas ficam prontas e estão muito boas. Depois de comer decidimos ir até Metelkova, que eu não sabia da existência até então. Maja não quer ir e volta para casa.

Vamos buscar Miha, não o comunista, e vamos os quatro até o lugar. Uma praça improvisada entre prédios semi abandonados e muito grafitados faz o lugar parecer um freak show. Punks, emos, metaleiros, skinheads, muitos estrangeiros e nós. Havia, literalmente, de tudo. Parecia que a cidade inteira, que não é nenhum exemplo de grandeza, estava lá.

Vou conhecendo mais pessoas. Boris me apresenta Rubens, que ele chama de “judeu”. Realmente o cara parece um judeu. Mas ele brinca dizendo que não é. Até agora não entendi se era ou não, mas enfim. Ele me apresenta Jure, que é estudante de arquitetura. Ele conhece muitos brasileiros e fica me falando o quanto ama Oscar Niemeyer. Mudo um pouco o tema e ele me fala de política. Tem só 20 anos e fico interessado em saber sua opinião.

Boris some e fico eu, Jure e Miha. Damos uma volta pelo lugar e encontramos Boris com outros amigos. Um dele, Alexander, me monopoliza. É fã de futebol e fica surpreso quando digo que sou Palmeirense. Diz que estava na Croácia uns meses atrás e que havia visto uma jaqueta do Palmeiras a venda, o que o deixou bem surpreso. Quando soube que eu torcia para o time, achou uma grande coincidência.

Ele me disse que seu time favorito no Brasil era o Fluminense, por conta da “heroica” arrancada que eles tiveram uns anos atrás. Explico para ele um pouco do passado e presente desse time e ele já não é mais tão fã assim.

Já são quatro da manhã e faz quatro graus. Tenho poucas blusas e fico com muito frio. Pergunto a Boris umas três vezes quando iríamos e ele responde “logo”. Como já havia percebido, a percepção de tempo dele é bem diferente da minha. Aguento firme e as cinco da manhã voltamos.

O dia seguinte teria a Marcha da Maconha da cidade e eu estava empolgado em participar do protesto. Queria dormir cedo para poder ir lá e Boris não estava nem aí.

O dia seguinte tento acordar não muito tarde, o que é inevitável. Entro em contato com Nikola, que me diz que iria também. Boris tinha que ir visitar familiares.

E a Marcha da Maconha se revelou ser uma bela de uma furada. Que eu conto no próximo relato.

O dia em que a Lubenica quase se foi.

Acordo cedo na terça, dia 27 de maio. Judit também levanta cedo, tem aula. Eu tenho estrada. Tomamos o café, pego minhas coisas e descemos. Ela está um pouco atrasada. Damos um abraço em frente ao prédio, agradeço por tudo e ela corre em direção à universidade. Eu vou mais tranquilo. Com uma mochila de 20 kg nas costas e uma de 15 kg na mão, não tenho porque ter pressa.

Pego o metrô e volto até o parque onde havia deixado minha Lubenica. Fico feliz, como sempre, ao ver que ela ainda está lá, me esperando. Abro o porta-malas, coloco a mochila grande. A mala menor coloco no banco do passageiro. Ligo o carro para ver se está tudo bem e nenhum problema acontece. Sorrio. Ligo meu GPS, coloco o endereço em Ljubljana, ligo o carro novamente e coloco o cinto.

Quer dizer, tento colocar o cinto. Ele não vem. Insisto um pouco mais e nada. Está travado. Respiro fundo e tento puxar devagar. Nada. Tento puxar com força. Nada. Fico irritado. Respiro fundo e tento mais algumas vezes, sem sucesso. Estava incrédulo. Teria que perder mais um dia por conta do cinto de segurança.

Saí do carro e abri o porta-malas. Procurei umas ferramentas, todas muito velhas, e achei uma chave sextavada. Já que o cinto estava travado, tentaria soltar ele. Após muito esforço e quase um dedo arrancado, consegui tirar o cinto. Ele foi recuando, recuando até que chegou até o fim. E nada de soltar. Respirei fundo.

Olhei para o cinto do passageiro e testei. Estava deslizando melhor que faca quente na manteiga. Pronto, já tinha conseguido soltar um dos cintos, então conseguiria soltar esse e colocar no lugar do motorista.

Uma hora se passou, quase arrebento meus dedos, mas consegui colocar o cinto do passageiro no lugar do motorista. Ficou um pouco estranho, porque não era o cinto adequado, mas estava bem preso e isso era o suficiente. Coloco tudo de volta no porta-malas, ligo o GPS e adeus Budapeste.

O caminho até a estrada é bem simples. Passo mais uma vez pelo centro da cidade, atravesso a ponte, dessa vez com a vista incrível de Buda, e chego até a estrada.

Vou seguindo nos meus habituais 90 km/h pela faixa da direita. Após uns 80 km sinto que a traseira do carro começa a trepidar. Encosto no acostamento, desço e dou uma olhada nos pneus. Está tudo ok, aparentemente. Decido seguir até algum posto ou estacionamento, mais seguro para olhar melhor.

O carro volta a trepidar em velocidades mais altas. Tento ir mais pianinho, mas os caminhoneiros vão à loucura quando encostam atrás de mim. Acho um estacionamento e entro.

Lá desço novamente e checo mais a fundo. Não havia nada, absolutamente nada de estanho, e eu já estava ficando preocupado. Balanço o carro, para ver se poderia ser amortecedor, e nada de estranho acontece.

Dois caminhoneiros começam a falar comigo em húngaro e eu não entendo nada. Eles fazem sinal de balançar e eu balanço o carro. Eles fazem que não. Não entendo. Entro no carro e eles insistem em falar comigo, fazendo o mesmo sinal de balançar. Continuo sem entender. Desço e balanço o carro de novo e eles quase riem da minha estupidez. Eles é que precisavam de ajuda. Depois de entender o que era, fui até o caminhão de um deles e ajudei a balançar a cabine, que aparentemente estava emperrada e não subia.

Volto ao carro e decido ir até um posto de gasolina, onde poderia tentar ajuda. Sigo o caminho e o carro trepida cada vez mais. Vou a 60 km/h e ainda assim o carro trepida muito.

Um caminhão cola na minha traseira e começa a me pressionar. Dou uma pisadinha no acelerador e o carro começa a escapar de traseira. Entro em pânico. Por meio segundo havia perdido o controle do carro.

Seguro forte a direção, solto o pedal do acelerador e deixo o carro desacelerar naturalmente. Consigo segurar o carro, mas o caminhoneiro atrás continua me dando sinal e luz. Mando ele à merda e ligo o pisca alerta. E o carro pulando e eu segurando o mais firme possível.

Por sorte em menos de 1 km havia um posto e eu consigo encostar. Desço do carro e finalmente entendo o que se passa. Um dos pneus traseiros simplesmente rachou e deixou a mostra uns arames, que não permitiram que ele explodisse, mas que ao mesmo tempo foram o motivo da escapada que o carro quase deu.

Pego as coisas no porta-malas e começo o processo de troca de pneu. A chave de roda é velha e os parafusos da roda também. Nenhum encaixa bem na chave e eu não consigo soltar os parafusos. Paro algumas pessoas pedindo ajuda e, para variar, quase ninguém quis me ajudar.

Por mais de uma hora insisti em tentar soltar a roda, em vão. Já tinha ido até o posto perguntar se havia algum telefone de emergência e o rapaz me informara que eles cobram 70 euros para ajudar. Que filhos da… enfim.

O tempo se passava, eu não conseguia soltar a roda de jeito nenhum e nenhuma boa alma me ajudava de verdade. Decidi que infelizmente teria que rasgar os 70 euros. Pedi para o cara ligar. Em 45 minutos eles chegaram e nem falaram comigo direito. Trocaram o pneu rapidinho e logo estavam me cobrando o dinheiro.

Antes mostrei o calombo que tinha no outro pneu, que iria no lugar do rachado, e os dois fizeram cara bem feia. Me perguntaram para onde iria e disse Ljubljana e os dois enfeiaram ainda mais a cara. Um deles me fez sinal para ir devagar e era isso ou sabe-se lá mais quanto eles me cobrariam para levar o carro para trocar o pneu.

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Paguei 50 euros e o resto completei com o pouco dinheiro húngaro que ainda tinha. Eu tinha cerca de 25 euros em Forints que planejava usar para reabastecer o carro antes de chegar até a Eslovênia. Como eles não tinham troco para os 100 euros que tentei dar, completei com dinheiro húngaro.

Peguei a estrada e vim a não mais que 80 km/h o caminho todo. Os caminhoneiros queriam me matar. Mas era ou eles, ou eu. E sou mais eu, sempre.

O tanque ia descendo e nada da Eslovênia chegar. Paro num posto e uso os 10 euros restantes para colocar gasolina. Mais oito litros e cruzar os dedos para ser suficiente para chegar até a fronteira.

O ponteiro começa a chegar no 0 e a luz da reserva ameaça piscar e nada da Eslovênia chegar. Não sabia o que estava me deixando mais nervoso, se era o pneu poder explodir a qualquer momento ou o carro simplesmente parar de funcionar. Respiro fundo, ativo os mantras budistas que minha mãe me ensinou, faço o relinchar do cavalo que minha namorada me ensinara e tento seguir o caminho sem pensar muito nisso.

De repente vejo uma placa, sem muitos avisos, que estava atravessando a fronteira. E junto à placa havia um posto. Soltei um suspiro de uns 30 segundos e parei no posto. Enchi o tanque e vi que ainda tinha uns 4 ou 5 litros restantes. Aproveito para comprar o vignette esloveno e sigo o meu caminho um pouco mais tranquilo. Agora o problema era, novamente, só o pneu. Só.

O caminho entre Budapeste e Ljubljana tem 470 km. O pneu rachou quando eu tinha rodado menos de 90 km. Foram quase 400 km a menos de 80 km/h.

A viagem, que normalmente duraria umas 6 horas, levou mais de 10. Havia chegado ao carro as 9h e cheguei em Ljubljana as 19:30h. Quando estacionei perto do prédio onde ficaria, comecei a berrar “Caralho! Caralho! Eu não acredito!”. Me senti o Ayrton Senna completando a prova no Brasil em 1991, tamanha emoção que sentia em conseguir chegar inteiro depois de tanto perrengue. Poucas vezes respirei tão aliviado quanto nesse momento.

Coloquei todas as minhas coisas no porta-malas e andei um pouco a procura de um cartão SIM para o meu celular. Boris, o cara em que eu iria ficar na casa, havia me avisado que poderia me receber antes das 18h ou depois das 21h, pois tinha compromisso. O planejado era chegar antes, mas com os perrengues, acabei chegando depois. E fui procurar o cartão para poder avisá-lo que cheguei.

Estava fedendo, com as mãos imundas de graxa, pneu velho e ferrugem. Meus braços estavam bronzeados ao estilo motorista, com as marcas da manga da camisa. Estava todo descabelado e com os braços doendo de tanto esforço, mas estava aliviado e feliz. Muito feliz.

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Achei o cartão, mandei uma mensagem e fiquei esperando no carro. Coloquei uma música e relaxei finalmente.

Boris chegou para me buscar às 22h. E a minha estadia em Ljubljana, que se revelou ser bem mais longa que o esperado, estava só começando.

E isso eu conto depois.

Ladainhas em Buda e Peste.

O caminho entre Bratislava e Budapeste tem mais ou menos 200 km. Saio de Bratislava um pouco mais tarde do que havia pretendido, mas não tento compensar o atraso e sigo a estrada no meu ritmo normal

Mais uma parada na fronteira para comprar o vignette. Dessa vez não é um adesivo, mas sim um bilhete eletrônico. Registro o carro, pago a taxa e sigo a estrada.

De um país com uma língua difícil eu chego num onde nenhuma palavra fazia sentido. Palavras gigantescas, cheias de vogais com tremas, acentos, dois acentos, quatro consoantes seguidas de seis vogais. Ler em voz baixa é impossível, em voz alta então é pedir para passar vergonha.

Perto de chegar em Budapeste, encosto num posto, envio um SMS para minha amiga Keti, que estava me esperando, avisando que atrasaria, ligo o GPS e coloco o lugar onde deveria ir. Dessa vez o GPS funciona bem e eu não xingo ele como o xingara em Praga.
Chego em Budapeste e tenho que atravessar a cidade inteira. É hora do rush e o trânsito é um pouco chato. Nem se compara ao paulistano, mas trânsito é trânsito e eu não gostei muito de ficar parado. Aproveito para ver a paisagem da cidade. E vou o caminho inteiro de boca aberta.

Budapeste é linda e isso é um fato consumado. Se você conhece alguém que foi até lá e achou a cidade feia, pode ter certeza que falta amor na vida dessa pessoa. Você pode achar caro, a comida ruim, as pessoas feias, o tempo ruim ou o que for, mas a cidade em si é magnânima.

Atravesso a ponte e chego até o lado de Pest. Sigo até o parque Verosliget, onde Judit, a amiga de Keti e onde eu ficaria, me avisou que o estacionamento era gratuito. Sem muitos problemas chego, estaciono o carro, pego as minhas malas enormes e procuro o metrô mais próximo.

Dou uma volta maior que a necessária, mas encontro a tímida plaquinha informando a estação. Não consigo ler o que está escrito, mas a cor era amarela e era essa a linha que eu tinha que pegar. Me senti um analfabeto tendo que pegar o transporte. Não é fácil.
A minha sorte era que a estação que eu tinha que descer era a última, porque se não fosse e eu dependesse de ler o nome da estação ou ouvir o anúncio da estação, eu provavelmente estaria no metrô até agora.

Mais uma vez me perco um pouco para achar o ponto de encontro com Keti, mas chego lá. Keti é uma amiga georgiana que também conhecera em Vilnius. Ela está fazendo seu mestrado em Budapeste e veio ao me encontro. Um abraço longo. Éramos bastante amigos e a distância infelizmente nos deixou um pouco perdidos em como cada um estava com a sua vida.

Ela me leva até o apartamento de Judit, sua amiga. Chegamos, subimos e encontramos ela. Judit é eslovaca, mas seus pais são de origem húngara. Ela é colega de Keti no mestrado e enquanto elas ficaram conversando sobre os estudos, aproveitei para tomar um banho e dar uma animada.

Voltei do banho mais animado e eu e Keti decidimos sair para jantar. Judit estava escrevendo um projeto para outro mestrado que queria fazer e o prazo de entrega era segunda. Ela estava um pouco desesperada quanto à isso. Eu e Keti saímos então.
Vamos até um restaurante georgiano ali próximo. Eu visitei Keti quando fui à Geórgia em 2010 e lá me empanturrei de comida georgiana. Queria matar um pouco a saudades.

O prato não foi dos mais baratos e não era tão gostoso quanto os que eu comi por lá, claro, mas valeu a pena. Voltamos ao apartamento e Keti vai embora para o dormitório, onde mora.

Subo, converso um pouco mais com Judit, mas logo vou dormir. Estava cansado da viagem e principalmente de ficar rodando que num um imbecil a cidade com duas malas enormes a toa.

Durmo o quanto basta, acordo cedo e fico um pouco na internet. Havia combinado de ir almoçar com Keti no refeitório da universidade às 13h. Judit havia saído mais cedo para a aula e eu estava sozinho no apartamento.

Pego a câmera e vou encontra-la. No refeitório conheço alguns amigos de Keti. Dimitro, Oksana e Anastasya são ucranianos, Neida é albanesa. Judit também está lá. Comemos uma comida gostosa e barata e depois eu, Keti e Neida damos uma volta pela cidade.

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Vamos até o Parlamento, depois até uma ilha no meio do Danúbio. O tempo está muito bom, pegamos uma cerveja e sentamos. Neida me fala um pouco sobre a Albânia. Digo que vou lá mais para frente e ela promete me ajudar. Depois de muita conversa, voltamos. Keti vai para o dormitório, Neida para seu apartamento e eu para o meu. Combinamos de nos encontrar a noite com outros amigos.

Nos encontramos a noite e conheço Boris, um amigo de Keti bósnio. Dimitro e Oksana se juntam a nós e vamos até um bar onde uma amiga de Keti estava comemorando seu aniversário. Ficamos pouco. Dimitro e Oksana nem sequer entram e vão a outro lugar.
Keti diz que eu tinha que conhecer Hugo, seu amigo brasileiro e que fazia o mestrado junto com ela. Vamos até o novo lugar. Hugo demora em chegar e brinco com o pessoal dizendo que ele é o típico brasileiro atrasado.

Hugo chega e vamos todos para dentro. O lugar era incrível. A festa era dentro de um pátio de um prédio antigo. Dentro de algumas salas haviam outros ambientes com músicas diferentes. Apesar de não ser muito de festas assim, acho o ambiente legal. Converso bastante com Hugo e sobre a vida dele em Budapeste.

Já sabia que Bóris e Dimitro eram gays. Comentei com Hugo que aparentemente éramos os únicos héteros, meio que brincando, e ele me respondeu “Você é o único”. Fiquei extremamente sem graça da minha bola fora e ele disse que tudo bem. Mas me pediu para que não contasse a Keti e os outros. No Brasil ele não tinha nenhum problema com isso, mas por lá ainda não se sentia tanto a vontade para revelar.

Conversamos bastante sobre isso e sobre ser homossexual em Budapeste. Aparentemente a cidade é bem amigável com casais homossexuais. Pelo menos me pareceu mais que São Paulo, que tenta ser a cidade mais gay-friendly, digamos assim, mas que tem uma população ainda muito homofóbica.

Eu e Keti estamos cansados e decidimos ir. Ela dormiria no apartamento também. No caminho peço para pararmos num kebab e depois de tanto tempo mato minha fome com essa iguaria da culinária mundial. Infelizmente era um bem borocochô, mas era o que tinha.

Chegamos ao apartamento e Judit ainda está acordada, estudando. Enquanto ela e Keti conversam, desejo boa noite e durmo. Estava bem cansado.

Sábado acordamos todos tarde. Sem pressa, tomamos café, conversando sobre o lindo dia que fazia lá fora. E então fica decidido que iríamos dar uma volta na cidade, sem compromisso.

O dia estava tão bonito que decido sair ao melhor estilo brasileiro; de chinelo. Meus pés precisavam de ar puro e não havia usado meus chinelos até então. O meu tênis já estava todo malhado e logo vou ter que trocar, então dei um dia de folga a ele.

Saímos e o sol estava bem forte. Vamos até à praça em frente a Basílica. Uma promoção estava acontecendo por lá e uma torre gigantesca de blocos de Lego estava sendo erguida. Muitas crianças se divertindo nos estandes que a marca havia espalhado pela praça e muitos turistas, como eu, sem entender nada.

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Logo ao lado da Basílica há uma sorveteria famosa pelos seus sabores exóticos e pela forma como o sorvete é servido, em formato de flor. Elas me levam lá e a fila estava um tanto grande. Mais conversa para matar o tempo de espera e com os sorvetes em mãos, sentamos numa mesa em frente. A conversa parte para o rumo político e começo a gravar minhas amigas discutindo sobre a política em seus países, ambos ex-comunistas. Enquanto estava gravando, Neida passa ao nosso lado e me reconhece. Ela estava com Anastasya, mais uma ucraniana, e elas se juntam a nós. Judit pede licença e vai embora. Ainda tinha muito o que estudar e escrever.

Nós quatro decidimos ir até Buda. No caminho elas encontram Sabrina, uma bósnia, que segue conosco. A caminhada parece que vai ser longa, mas assim que chegamos à ponte que tem a vista para a parte rochosa onde fica a estátua, nenhum de nós pensa em desistir.

A subida não é tão difícil, mas os chinelos começam a deixar aquela deliciosa ferida na parte interior do pé. Mas a cada parada, a vista de Pest ficava mais bonita. Um passo à frente e uma nova paisagem aparece e uma nova foto eu bato. Assim se segue até alcançarmos o topo.

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No fim do nosso destino, paramos para uma cerveja. Explico a Sabrina e Anastasya sobre minha viagem e as duas oferecem ajuda em seus países. Tenho uma longa conversa com Sabrina sobre a Bósnia e muitas ideias surgem para quando eu for lá.

Voltamos a Pest andando e, claro, conversando muito. No caminho vejo um Lada azul mais antigo ainda que o meu. Dou um joia ao motorista que me pareceu bem feliz com o cumprimento.

De volta a Pest, Keti segue para o dormitório, Neida, Sabrina e Anastasya para os seus apartamentos e eu para o meu. Minhas panturrilhas doem de tanto andar. Antes de todos partirem ainda insisto em saber se haveria alguma coisa mais a noite, mas todas respondem que mesmo que haja, elas não vão. O cansaço era geral.

Passo num mercado e compro comida e algumas cervejas. Poderia até ficar sozinho no apartamento num sábado a noite, mas não iria assistir a final da Champions League sem uma cerveja.

Judit está no quarto ao lado estudando e como a narração era em húngaro, coloco no mudo e vou assistindo ao jogo enquanto uso a internet e tomo uma cerveja. O resultado estava indo tudo bem até o finalzinho do jogo. E aí foi o que foi. Como se eu me importasse. Desligo a TV, deito e não demoro a dormir.

Já era Domingo e eu não havia encontrado nenhum húngaro para entrevistar. Todos os amigos das pessoas que conheci estavam ocupados ou não queriam ser filmados. Estava começando a ficar preocupado.

Logo de manhã, Ondrej, meu amigo tcheco que me ajudou em Praga, me manda uma mensagem no Facebook comentando que estava em Budapeste com mais uns amigos. Combinamos de nos encontrarmos para o almoço.

Encontro ele e mais alguns outros amigos, um americano, um escocês, uma eslovaca, um austríaco e um húngaro. Todos haviam se conhecido quatro anos antes, em Vilnius. Eles chegaram alguns meses depois que fui embora, então não tínhamos quase nenhum amigo em comum. Almoçamos e saímos para dar uma volta.

Converso com András, o húngaro, sobre a possibilidade de entrevistar ele. Ele diz que é tímido e que não se importa tanto com política. Eu insisto e digo que não há a necessidade de ser envolvido com política para o meu documentário, mas percebo que a questão é a timidez mesmo. Pergunto então se teria como ele conversar com alguns amigos e ver se algum deles poderia falar comigo, ele diz que tentaria e seguimos o passeio.

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Vamos seguindo pela cidade até que eles decidem ir justamente até à estátua que havia ido no dia anterior. Digo que já havia ido e combinamos de nos encontrarmos a noite. Sigo o meu caminho para a cidadela de Buda, sozinho.

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O tempo começa a fechar, mas antes da chuva descer encontro um Trabant bem interessante estacionado. Uma fresta da janela está aberta, com uma peça plástica colada no vidro e uma mensagem em inglês dizendo algo como “A sua doação será usada para a minha manutenção, obrigado”. Acho engraçado, tiro umas fotos e doo 50 forint, algo em torno de 50 centavos.

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Ainda na cidadela, vejo mais dois Ladas, bem mais novos que o meu e ambos vermelhos. E vejo também um Maluch, o Polski Fiat, tão popular na Polônia. E então a chuva vem.

Me abrigo num quiosque qualquer e espero pacientemente a chuva acalmar para seguir caminho. Mais um dia que ando a beça. E na ponte antes de voltar a Pest vejo um Lada branquinho solitário estacionado na rua.

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Volto ao apartamento e Judit me relembra que uma amiga húngara dela iria me encontrar logo para uma entrevista. Tomo um banho, como alguma coisa e descanso. Logo ela chega e vamos dar mais uma volta pela cidade.

Sophie não sabia absolutamente de nada sobre mim e a minha viagem. Tudo que Judit havia dito era que tinha um amigo brasileiro em seu apartamento e que precisava de alguém para lhe mostrar a cidade. Sentamos e eu falo sobre a minha viagem. Logo de cara ela corta as minhas asas e diz que não tem como ser entrevistada. Sua idade, apesar de nem de longe aparentar, é 37 anos. Ela se lembra de muita coisa da época do comunismo e eu precisava de pessoas que não tinham quase nenhuma memória dessa época. Tempo perdido? Claro que não. Engatamos uma conversa sobre o passado e presente bem legais, mas que infelizmente não irão para o documentário.

Depois da conversa com Sophie, vou ao encontro de Keti, que está brava me esperando a quase uma hora. Peço um milhão de desculpas e vamos até o apartamento onde Ondrej e os outros estão ficando.

Não ficamos muito por lá e András me dá a infeliz notícia que nenhum amigo respondeu positivamente para uma entrevista. Digo a ele que decidi ficar mais um dia e que não iria mais embora na segunda, mas sim na terça. Ele promete que insistiria um pouco mais. Agradeço.

Nos despedimos de todos e vamos embora para o apartamento. Vou dormir bem triste pensando que estava bem perto de ir embora sem entrevistar sequer um húngaro. Sophie havia me prometido que também tentaria arranjar algum amigo e fui dormir abraçado à essas esperanças.

A segunda amanhece e estou sozinho no apartamento. Keti, Judit e sua irmã, que havia voltado de viagem à Bratislava, já haviam saído. Vou encontrar Keti no refeitório da universidade às 13h para almoçarmos. Até então nenhuma novidade sobre húngaros que queriam ser entrevistados.

Eu e Keti vamos à Basílica que, apesar dela estar lá a quase um ano, nunca havia entrado. Subimos a torre também e aproveito para tirar fotos e fazer uns vídeos da cidade. Ela logo precisa voltar, pois tinha que estudar. Nos despedimos achando que nos veríamos novamente, o que infelizmente não veio a acontecer. Mais uma grande amiga que se vai e não tenho a menor ideia de quando poderei vê-la novamente.

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Chego ao apartamento e abro o computador. Antes de sair para almoçar, havia mandado umas mensagens no Couchsurfing para vários húngaros perguntando sobre a possibilidade de serem entrevistados. Um rapaz chamado Domonkos disse que poderia. Entro em contato e fica combinado que iríamos tomar uma cerveja mais tarde e faríamos a entrevista. Fico um pouco mais tranquilo e vou tomar banho e comer. Saio do banho e vejo que ele cancelou a entrevista. Tinha compromisso já, mas havia se esquecido.

Eu pego minha câmera e decido que vou parar as pessoas na rua para entrevistar. Não era muito o que eu queria, mas era isso ou ir embora sem nada.

Vou até a praça Deák Ferenc e começo a me apresentar a alguns grupos de amigos. Os primeiros dizem que têm vergonha de serem filmados. Os segundos dizem que não falam inglês tão bem. Os terceiros usam como desculpa que já estavam indo embora. E assim se sucede por uma hora, até que eu desisto.

Decido fazer um caminho diferente para voltar para, quem sabe, numa última tentativa, encontrar alguém. Vejo um casal sentado num banco, mas levantando para sair. Pergunto a eles se falam inglês e só o rapaz diz que sim. Me apresento e falo sobre o meu projeto e ele acha legal. Diz que gostaria de dar a entrevista, mas que estava com um pouco de pressa. Digo que posso tentar filmar a entrevista enquanto caminhamos e fazemos isso pelos próximos 10 minutos, até que ele tem que ir. Foi uma conversa bem legal, mas infelizmente a gravação não ficou muito boa.

Volto ao apartamento ainda muito decepcionado. Judit me dissera que poderia ser entrevistada e sem dúvidas eu queria entrevistar ela. Apesar de ser eslovaca, tanto seu pai quanto sua mãe são de origens húngaras. Ligo a câmera e a entrevisto por mais de meia hora, até que ela precisa voltar aos estudos.

Decido ficar no computador até ir dormir. Desisto de tentar encontrar alguém. Já eram mais de 21h e eu tinha uma longa estrada pela frente no dia seguinte.

Abro o computador e lá vejo que Miklós, um amigo húngaro que conheci quatro anos atrás, quando vim a Budapeste pela primeira vez, mas que estava morando em Londres, havia me respondido uma mensagem que havia mandado sobre alguém para entrevistar. Sua irmã, Dora, poderia responder e entro em contato com ela. Ela me diz que está próximo do apartamento onde estou e que, apesar de cansada do trabalho, poderia me ajudar. Quase dou um duplo twist carpado de emoção. Aos 47 do segundo tempo finalmente alguém aparecera!

Ela vem me encontrar na entrada do prédio e vamos até um restaurante por perto, só para sentarmos e podermos conversar. Ligo a câmera, pedimos um suco e vamos conversando. Por uma hora eu pude finalmente entrevistar um húngaro – pelo menos nascido na Hungria.

A conversa poderia ter durado horas, tamanha quantidade de perguntas que eu tinha e o fato de não ter tido ninguém para responder. Mas o tempo passa e eu não posso me dar ao luxo de ir dormir muito tarde. O dia seguinte seria o mais longo da viagem. 470 km de Budapeste à Ljubljana. Encerramos a entrevista, agradeço imensamente a ela e seguimos cada um seu caminho.
No apartamento, comento com Judit quão legal foi a entrevista, agradeço a ela por tudo e desejo boa noite. Passo os vídeos para o computador e vou dormir.

Apesar de aliviado, dormi um pouco mal a noite. Algo me dizia que o dia seguinte não seria fácil e acordo muitas vezes durante a noite.

Mas durmo feliz.

Bratislava

Matěj, Eva e eu pegamos a estrada por volta das 19h. Ainda havia um pouco de sol, mas ele já estava indo descansar. A distância era curta até Bratislava, cerca de 130 km. Em menos de duas horas estaríamos por lá.

No caminho temos que parar para comprar outro vignette, o tal adesivo que o carro tem que ter para poder rodar no país. O vidro do carro já estava começando a colecionar esses adesivos.

Não demora muito e já chegamos. Não sabia bem onde poderia estacionar e nem eles onde ficariam. Vamos rodando o centro até que Matěj diz para que eu virasse uma rua, onde ele achou que poderia ter lugar de graça. Viro e uma vaga perfeita aparece. Nenhuma placa dizendo ser área residencial ou paga. Estaciono, pegamos as coisas e vamos a procura de um hostel para eles. Eu já tinha o meu lugar para ficar.

A menos de duas quadras achamos um hostel, eles entram, gostam e decidem ficar. Eu roubo o wi-fi do lugar para perguntar a Timea, a menina que eu ficaria na casa, como chegaria até ela. Ela me responde e diz que está com um amigo num bar a menos de 200m do hostel onde estávamos. Que coincidência. Tudo bem que Bratislava não é nenhuma metrópole, mas achar uma vaga de graça perto de um hostel e perto de onde minha amiga estaria foi, sem dúvidas, um golpe de sorte.

Comento com eles que iria encontrar Timea ali perto e eles se convidam para ir. Em 15 minutos já estávamos no bar.

Timea, apesar do nome húngaro – e eu aposto que você também não sabia que era húngaro, é 100% eslovaca, como me disse. Ela é jornalista e havia acabado de se demitir do jornal onde trabalhava. Foi multada em 25% do salário por ter feito comentários contra o premiê eslovaco em seu trabalho. Entenderam? Ela só comentou algo contra ele, não foi nem publicação, só comentário, e recebeu uma multa de 25% do salário. Irritada, ela e mais outros dois amigos decidiram se demitir.

Eu, Timea, Matěj e Eva vamos conversando sobre as diferenças linguísticas entre o Eslovaco e o Tcheco – quase nenhuma como eles mesmo assumiram – e sobre quão democráticos os países estão hoje em dia. Em tom irônico, claro, após a multa que Timea recebera.

O bar é bem legal, mas está vazio. Afinal, é segunda feira e apesar de por lá eles beberem muito, segunda é segunda em qualquer lugar. Entre uma e outra música brasileira – que faço questão de avisar até que eles ficam de saco cheio, chega um dos donos do bar e avisa que a área externa estava fechando e que era para entrarmos. Lá dentro ele nos avisa que é aniversário de uma das donas do bar e que a partir de então tudo seria de graça. O que mais eu precisava?

Apesar da oferta tentadora de poder beber de graça, bebemos só mais uma cerveja e vamos embora. Matěj e Eva vão um pouco antes, pois estavam cansados, e eu e Timea vamos até o apartamento dela.

Na manhã seguinte vamos até o antigo local de trabalho dela e encontramos Vlada, sua amiga que também havia se demitido. Foram acertar as contas e nunca mais aparecer por lá. Depois vamos até um parque e entrevisto as suas. Logo chega o outro amigo delas que também se demitiu, Marcej.

O tempo está ótimo. Sol, calor e um ventinho refrescante. A fome bate e vamos até um restaurante comer a tradicional comida eslovaca – e que eu tinha certeza que teria bacon e batata, ou seja, não teria como comer mal.

Depois damos uma volta e paramos num bar de estudantes. Lá eu experimento Koffola, a coca-cola tchecoslovaca. É um primor na arte da amargura. Me senti uma criança experimentando água tônica pela primeira vez, achando que era Sprite. Sabe? Aquele sabor docinho no começo que te faz feliz por meio segundo, até que aquele amargor te atinge em cheio e você quase chora de tristeza. Bem, a Koffola é a mesma coisa. Parece um Jagermeister aguado e sem álcool. E eles adoram.

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O susto inicial passa e o restante do copo até que desce tudo bem. Conversamos sobre tudo, literalmente. Desde as versões comunistas de coca-cola até desenhos animados da infância deles. Matěj e Eva estão conosco também. Marcej me pergunta muito sobre o Brasil e me diz diversas vezes que vai se mudar para lá. Ele me pergunta se eu acharia uma ideia interessante e eu falo que o Uruguai atualmente me parece mais legal que o Brasil. Logo ele muda o discurso e diz que quando for morar em Montevidéu, virá me visitar em São Paulo algumas vezes. Rimos bastante.

A noite vem chegando e ele, Matěj e Eva tem que ir. Vlada, Timea e eu damos uma volta na cidade e ela também precisa ir. Ficamos eu e Timea, que me leva até um bar chamado KGB.

O nome diz tudo. Quadros do Stálin, Lênin e outras figuras soviéticas estão espalhadas pelas paredes. Uma ou outra foto ironizando Putin. Tudo sarcástico. Tomamos a última cerveja e vamos dormir.

A quarta amanhece mais quente que o dia anterior.  Eu e Timea saímos e vamos encontrar Vlada novamente. Caminhamos o centro da cidade, que é bem pequeno e gostoso. Elas querem ir assinar um abaixo assinado promovido por um dos partidos eslovacos e que tenta oficialmente separar estado e igreja. Quem diria, não esperava que em pleno 2014 a Eslováquia ainda não era um estado laico. Mas, bem, o Brasil também é e nem por isso deixamos de colocar a religião à frente de tudo.

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Vamos até o carro pegar uma mala que Matěj havia esquecido e Timea e Vlada aproveitam para bater fotos do e no carro. Eu fico feliz de ver que ele ainda estava lá.

Encontramos Matěj pela última vez. Nos despedimos e ele me entrega um bilhete muito bonito que ele e Eva escreveram, me agradecendo e desejando sorte. Fiquei muito feliz e emocionado.

Vlada precisa comprar entradas para um festival e vamos até um Shopping Center. Marcej vai nos encontrar lá e decidimos dar uma volta de carro pela cidade. Eles me mostram Petrzalka, o maior bairro da cidade e que fora totalmente construído durante o período comunista. E a arquitetura não nega as origens do bairro. Blocos de prédios colados, campos abertos e tudo meio sujo e cinza. Realmente a sensação era de estarmos uns 30 anos atrás no tempo. Até os ônibus eram mais antigos que no restante da cidade.

Eles comentam sobre o bairro conhecido como “Oktagon”. Peço que me levem lá, mas eles dizem ter medo. Me mostram uma foto do lugar e eu entendo o porquê. Prédios enormes e horríveis em formato hexagonal ou sei lá o que, todos caindo aos pedaços. Era, sem dúvidas, um lugar interessante para ir, mas se os locais dizem não ser seguro, quem sou eu para duvidar?

Marcej nos leva de volta ao centro e vai embora. Um abraço de despedida e ele e Vlada seguem seu caminho. Eu e Timea paramos numa escadaria a beira do rio Danúbio e aproveitamos o tempo bom.

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As 18h ela queria ir até um seminário chamado “Teach for Slovakia”, onde a ideia era pegar estudantes e recém-formados em diversas áreas e coloca-los para dar aulas em escolas em regiões mais pobres do país. Ela me diz que o seminário seria em inglês, pois o público não era somente de eslovacos e eu topo ir junto.

Chegamos lá e eu sou o único estrangeiro. O seminário inteiro é em eslovaco e eu fico completamente perdido. Por mais de uma hora eu não entendi nada do que estava acontecendo e não sabia como ir embora. Foi uma experiência engraçada.

Enquanto o seminário acontecia, aproveitei para roubar um pouco do wi-fi e combinar com Mattia, um grande amigo meu italiano e que havia acabado de chegar em Bratislava, onde nos encontraríamos. Após quatro anos o veria novamente. Decidimos ir no mesmo restaurante que eu fora no almoço do dia anterior.

Timea vem conosco e, coitada, fica um pouco perdida diante das nossas conversas. Depois do jantar vamos até o KGB e terminamos a noite num outro bar chamado Valhala. Mattia precisa ir embora pois teria que uma reunião na manhã seguinte. Estava lá a trabalho. Nos despedimos, fico bem triste em deixar um grande amigo ir sem saber quando o poderia ver de novo. Mas, é a vida, não é? Já sabia que isso iria acontecer muitas vezes nessa viagem.

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Eu e Timea vamos embora. Para o dia seguinte eu havia mudado um pouco os planos. Ao invés de ir até Kosice, cidade no extremo leste da Eslováquia, decidi ir direto a Budapeste, mais perto. Como a situação na Ucrânia não é das melhores, sabia que teria que contornar o país e isso me faria passar por Kosice mais para frente. Então decidi que pararia lá quando tivesse que passar obrigatoriamente daqui uns meses.

Acordo quinta tarde, tomo um banho para reanimar, arrumo as coisas e vou até o carro. Timea me espera numa esquina próxima, pego ela e vamos até um posto de gasolina. Reabasteço, vou até o apartamento, pego minhas coisas, dou um abraço nela e antes de partir, ela me presenteia com uma sacola com doces, frutas e um red bull para o caminho. Mais uma vez fico emocionado e muito feliz. Mais uma despedida acontecia.

Ela sobe, eu entro no carro, tomo meu red bull e vou pensando. Pego a caixinha de som que Marie havia me dado em Brno, coloco uma música e coloco no shuffle. A primeira música que toca é “O Velho e o Moço”, dos Los Hermanos. Já faz uns anos que não escuto mais eles, mas ainda gosto muito. Vou cantarolando a letra e me emociono um pouco quando ele diz “Eu sei que ainda vou voltar, mas eu, quem será?”. Pois é, a cada dia um novo Renato nasce. Logo a letra canta “E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado? Ah, ora se não sou eu, quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão. Ah, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição”. Aceitei a condição, liguei o carro e segui para Budapeste.

De Praga a Brno.

Depois de pegar a Lubenica no mecânico, em Praga, tentei fazer o caminho até a estrada de cabeça. Aparentemente era bem simples. Direita, seguir reto até a avenida antes da ponte, esquerda e abraço. Seria lindo se fosse verdade. Virei numa avenida antes e de repente estava completamente perdido.

Encosto e ligo o GPS. Ele demora os seus habituais quinze minutos para me localizar e assim que me acha, coloco o endereço em Brno. Ele diz que não existe. Coloco somente Brno. Não existe. Respiro fundo, vou dando zoom out no mapa até encontrar Brno. Clico e ele me traça o caminho. Primeiro me pede se quero o caminho sem pedágios, o que acho estranho, já que não há pedágios no país. Clico não e vou seguindo.

Em três minutos o GPS perde a minha localização justamente quando eu estava num entroncamento de umas vinte avenidas ao mesmo tempo. Aquele momento que mesmo com o GPS a gente costuma errar. Quase parei no meio da rua para perguntar, mas tive que escolher um caminho e, claro, escolhi o errado. O detalhe é que as placas indicam os bairros e não as cidades. Por mais de meia hora não encontrei uma placa indicando as rodovias.

Fui seguindo pelo caminho errado até que o GPS me achasse de novo e mostrasse o caminho. Demorou, mas consegui. Depois de um rolêzinho de mais de meia hora pelas perifa de Praga, finalmente encontro a primeira placa indicando Brno. Aleluia, irmão.

A estrada é uma reta só – e o timelapse da viagem você pode ver aqui. Percebo que, diferente dos outros países que tinha ido até então, aqui os motoristas costumam ir pela faixa da esquerda, ao melhor estilo brasileiro (ou seria só paulista?). Logo entendo o porquê. Depois de uns 50 km, a faixa da direita, apesar de sem buracos, fica desnivelada. Isso faz o carro ficar saltando o tempo todo. A faixa da esquerda é boa, mas a da direita é esse rally todo. Me senti como o Ace Ventura dirigindo o seu Defender na estrada.

Não há a menor possibilidade de eu tentar seguir pela faixa da direita. A Lubenica, apesar de velha guerreira, não é rápida o suficiente. Tenho que enfrentar o pula-pula da principal rodovia tcheca até o fim.

Quando as placas indicavam 30 km até Brno, encostei num posto, liguei meu GPS novamente, encontrei o endereço certinho e segui o caminho. Em meia hora estava lá.

Antes mesmo de descer do carro, Daniela já estava me esperando. Desci, nos apresentamos e ela comentou que ouviu um barulho diferente de motor e suspeitou que era eu. E era mesmo.

Entramos no apartamento e lá estava Matěj (se diz Mátchiêi), irmão de Daniela. Sentamos e conversamos um pouco. Daniela se ofereceu para cozinhar algo e eu e Matěj fomos até um pub perto comprar uma cerveja que, aparentemente, só vende nesse lugar.

Voltamos, comemos, conversamos e bebemos a cerveja. Em breve sairíamos. Matěj queria me mostrar um bar numa região alternativa da cidade. Antes de irmos chega Marie, amiga da Daniela. E no caminho encontramos Eva, namorada do Matěj.

Nós cinco começamos a subir um morro bem no meio da cidade. Ruas estreitas e casinhas simples. Matěj me explica que nesse morro ficava a vila dos antigos funcionários da empresa estatal de mineração e que depois do fim do comunismo, ficou esquecida. De uns anos para cá, artistas começaram a se mudar e o bairro virou o centro cultural da cidade. E, claro, as casas se valorizaram.

Chegamos até um bar abarrotado de gente. E de todo tipo de gente. Me senti na Mercearia São Pedro, mas com um público um pouco mais velho.

Fazia frio e dentro do bar todos, literalmente, fumavam. Entre passar frio e ficar cheirando cigarro, eu, Daniela e Marie tentamos a primeira opção. Matěj chega com umas cervejas e vamos conversando.

A banda começa a tocar. É meio mixuruca, mas são todos “moradores” do bairro. Continuamos conversando até que o frio começa a machucar e decidimos defumar dentro do bar. Nem bem entramos e Matěj me puxa para fora e diz que tem que me mostrar um lugar. Subimos o restante do morro e chegamos até uma pedra onde havia uma vista bem legal da cidade. Bato umas fotos e voltamos logo.

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Matěj vai fumar com um grupo de amigos e nisso um cabeludo vem falar comigo e disse que ficou sabendo da minha viagem. Ele comenta que tem um Fusca verde e conversamos um pouco. Seu nome era Matoej ou algo assim. Esses nomes tchecos não são os mais fáceis de se escrever.

Depois de defumarmos por um bom tempo, aviso as meninas – que não estavam tão a vontade nesse bar – que poderíamos trocar de lugar, já que aparentemente Matěj ainda iria longe em sua noite e nós não estávamos com esse pique todo. Nos despedimos e descemos o morro.

No centro de Brno, Daniela e Marie vão me mostrando alguns prédios e ruas. Logo chegamos a um bairro residencial com cara de chique onde fica um bar de cervejas regionais. Tomamos uma última cerveja conversando sobre a vida em Brno e logo voltamos ao apartamento.

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Antes de dormir, Daniela faz uns ovos mexidos e vamos conversando mais um pouco antes de cada um ir para sua cama. No dia seguinte decidimos que iríamos até a cidade de Marie, Ochoz u Brna, próxima a Brno e que tinha uma igreja sei-lá-o-que.

Durmo o quanto quero e preciso e acordo tarde, obviamente, no dia seguinte. Daniela está acordada a um bom tempo em seu quarto e Marie saiu para encontrar um amigo. Tomo café e logo Marie volta e vamos, com ela dirigindo, até sua cidade. A estrada não é a melhor de todas e Marie não é das mais seguras no volante. Eu e Daniela rimos um pouco disso, mais para evitar mostrar o medo que estávamos sentindo do que realmente por ser engraçado.

Chegamos até a cidade e realmente a igreja é imponente. Parece não fazer parte do resto da cidade, ou melhor, a cidade parece não fazer parte da grandiosidade da igreja. Alguns turistas estão por lá também e damos uma entrada para ver. Conversamos um pouco sobre religiosidade no país e quão religiosos são os jovens no país e não me surpreendo ao saber que a República Tcheca é um dos países menos religiosos do mundo.

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Saímos e vamos até a casa de Marie. Lá sou introduzido às “vices” (lê-se vítsês) da região. São as bebidas destiladas que eles fazem com tudo quanto que é tipo de fruta que eles tenham no quintal. A mais famosa é a slivovice, que é feita de figos. Tem também a calvados, de maça, e a merunkovice de damasco. Enquanto experimento e tento diferenciar algum sabor de fruta no meio de tanto álcool – fingi ter sentido, pra não pegar mal, mas na verdade pra mim era tudo puro álcool – vamos conversando sobre essa relação mundialmente famosa dos tchecos com o álcool. Como pude ver, a cerveja é o orgulho nacional, mas eles não ficam só nela. Os vices da vida são também fortes na cultura, especialmente nas cidades pequenas, e, como pude ver mais tarde, o vinho também é muito presente. Ou seja, esse papo de não misturar não é com eles.

Um dos irmãos de Marie, Vlaclav, chega e também participa da conversa. Ele é um kitesurfer, o que é bem improvável num país sem praias. Me conta sobre suas viagens até a Polônia para poder praticar o esporte e como vem tentando virar profissional.

O sol se põe e é a “noite dos museus” em Brno. Quase uma virada cultural deles. Voltamos à cidade então e Marie devolve o carro ao amigo, não sem antes nos dar mais alguns sustos. O tempo está horrível e não para de chover. Tentamos andar pela cidade com essa garoa chata nos perseguindo e depois de tentar, sem sucesso, pegar algum museu legal, decidimos ir até um bar.

O bar era bem interessante. Chamava-se “De Pé” e a ideia era justamente essa. Mesas espalhadas pelo bar só para que as pessoas apoiassem a cerveja ou a comida, mas nenhuma cadeira. Depois de mais algumas cervejas regionais e mais conversas sobre a vida em Brno, voltamos ao apartamento.

Matěj havia voltado durante a tarde e sumido novamente. Daniela me diz que já nem tenta mais descobrir onde o irmão anda e eu fico feliz de ter ficado com elas e não com ele. Sabe-se lá onde estaria a essa hora. Vamos dormir.

No Domingo de manhã, Martina, uma amiga de Daniela e que originalmente era em sua casa onde ficaria, liga dizendo que gostaria que fôssemos visita-la em sua cidade, Straznice (strájnitsê), próxima à fronteira com a Eslováquia. Combinamos que sim e vamos os três de Lubenica para lá.

Não queria pegar a rodovia principal, então fomos por uma secundária. Passamos por diversos vilarejos, um mais impronunciável que o outro e depois de quase duas horas, chegamos.

Martina nos espera na porta. Faz caretas engraçadas ao ver o carro. Ela já sabia, mas ainda assim ficou surpreendida ao ver minha Lubenica.

Entramos e dou de cara com sua irmãzinha mais nova que nem me dá bola. Martina nos faz um café e vamos conversando. Logo ela nos leva até a garagem e nos apresenta as bicicletas que usaríamos para dar uma volta pela região.

A primeira parada foi num vilarejo próximo chamado Petrov. Lá encontramos uma amiga de Martina, Šárka (shárka). Ela nos convida a entrar na adega subterrânea de sua família e nos fala sobre como é feito o vinho e sobre a tradição vinícola da região. Aproveitamos para experimentar o vinho branco e tinto. Eu bebo meia taça de cada, pois dirigiria mais tarde. As meninas aproveitam para beber mais.

Martina diz que se o tempo melhorasse poderíamos ir até a Eslováquia de bicicleta. Eram poucos quilômetros. Fico empolgado com a ideia de atravessar uma fronteira assim. Jamais imaginaria que poderia fazer isso um dia.

Felizmente o sol aparece e decidimos ir até Skalica (se diz skálitsa). Não percorria mais de 300m de uma vez numa bicicleta havia uma boa década. E os poucos quilômetros que Martina dissera se revelaram ser quase dez. Para ir e mais dez para voltar.

Chegamos em Skalica e a cidade se mostrou ser muito charmosa. Demos uma volta pela cidade, bati algumas fotos e tomamos um sorvete. Pois é, sorvete. Elas ficaram com dó de mim que iria dirigir e pediram sorvete também.

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Na volta paramos na fronteira e batemos algumas fotos com as placas indicando a mudança de país. Eu não era o único ali que atravessava uma fronteira assim pela primeira vez.

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Ao chegarmos de volta à casa de Martina minhas coxas estavam em brasa. Que falta faz um esporte. E lá estavam os pais dela, que até então não haviam aparecido. Sua mãe, Pavlina, arriscava um pouco de inglês e engatou uma conversa comigo, super animada em ver um brasileiro viajando seu país num Lada, carro que ela fez questão de dizer que não via fazia anos. Já seu pai, Ivo, respondia uma ou outra pergunta e fazia algumas também, mas por não falar inglês ficou mais reservado.

Tínhamos que voltar e já começava a ficar tarde. Ainda havia 80 km de estrada pela frente e já estava quase escuro. Após comentar que havia gostado da Slivovica, habssih me traz uma garrafa que ele mesmo havia feito. Agradeço o mimo, abraço os dois, batemos uma foto com a irmãzinha de Martina e, infelizmente, partimos.

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Na volta paramos novamente na casa de Marie para jantar antes de voltarmos de vez ao apartamento. Em Brno foi mais difícil achar uma vaga e rodamos um tempo até achar uma, bem longe do prédio. O tempo ainda não colaborava. Deixo minhas coisas arrumadas para o dia seguinte. Matěj e Eva queriam ir a Bratislava também e combinamos que iríamos juntos.

A Segunda amanhece com o tempo bem melhor. Finalmente, desde que cheguei em solo Europeu, estava calor. Matěj havia saído cedo. Era dia de entregar a sua tese de mestrado. Marie havia saído ainda mais cedo, pois daria uma aula de francês. Acordei quando Daniela voltou de uma prova que havia feito.

Marie estava dormindo um pouco mais e assim que os três ficamos prontos, saímos para encontrar Matěj e Eva, que estavam num restaurante nos esperando.

Na rua pude sentir o verão chegando. Não é a toa que os europeus num geral amam os países tropicais. Sol, calor, pessoas sorrindo, bermudas, saias, camisas de manga curta. Ainda não era aquele calor tropical, mas eu poderia tranquilamente ter saído de bermuda. Depois que peguei a primeira sombra com ventinho percebi que a calça não foi uma má ideia, afinal.

O restaurante tinha cara de ser tradiça. Quando você vê potes de conserva maiores que o seu abdome espalhados pelo lugar e o menu deles é um prato só, você tem certeza que o pessoal não tá de brincadeira. A especialidade era um gigantesco e suculento joelho de porco. O acompanhamento era ou uma cerveja grande ou uma pequena. Arroz e outras coisas eram para fracos. Como iria dirigir algumas horas mais tarde, pedi uma cerveja pequena.

Quase desmaiando de prazer, comi quase a metade do joelho enquanto todos me olhavam meio com medo. Não tava nem aí. Sempre adorei joelho de porco e esse, especialmente, estava sensacional. No fim, Matěj me pediu um tempo para resolver algumas coisas antes de irmos e eu, Daniela e Marie decidimos dar uma última caminhada pela cidade.

Consigo então conhecer a cidade, afinal. O tempo ruim estava me deixando uma má impressão, mas com o sol pude ver que a cidade é bonita e gostosa. Prédios antigos, ruas largas, florestas ao redor.

Martina está de volta em Brno e vem nos encontrar. Tomamos um café esperando Matěj avisar quando estivesse pronto. O tempo passa e nada dele dar notícias. Peço para Daniela ligar e ele pede mais um tempinho. Não queria dirigir a noite.

Voltando ao apartamento me despeço de Martina. Chegamos e deixo minhas coisas prontas. Matěj chega só no final da tarde e já tinha certeza que teria que dirigir sem luz. Tudo bem, pelo menos iria acompanhado.

Antes de partir, Daniela me presenteia com um Medovina, uma bebida tradicional tcheca feita com mel. Agradeço, emocionado e então Marie vem com o seu presente. Uma mini caixa de som que eu poderia usar para ouvir música enquanto dirigia, já que o rádio do carro estava quebrado – isso se um dia chegou a funcionar. Fico sem palavras, agradeço muito as duas e vamos todos até o carro.

No carro ajeitamos as malas, dou um último abraço em Daniela e Marie e partimos. Mais umas buzinadinhas de tchau e em poucos minutos estávamos eu, Matěj e Eva indo a um novo país e mais uma nova etapa da viagem.

E essa etapa, claro, eu só conto no próximo relato.

A praga em Praga

Na terça, dia 13, acordei tarde. Arrumei minhas coisas com toda calma do mundo. Anotei tudo certinho o endereço onde tinha que ir, avenidas próximas, como chegar e tudo mais. Não queria ter dor de cabeça.

Fiz meu café, comi meu sanduíche e preparei outros mais para a viagem. Tava tudo muito lindo, tudo muito bom.

Peguei tudo e saí com tempo de sobra para chegar em Praga às 20h, conforme o combinado.

Vou até o carro e dou de cara com dois jipezinhos familiares. Achei que eram os Candangos, mas depois descobri que na verdade são jipes militares feitos pela Volkswagen e que nunca vieram ao Brasil. Em todo caso, fiquei sabendo que são bem raros e encontrar logo dois de uma vez faz disso uma situação ainda mais inusitada.

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Coloco as coisas no carro e, mais uma vez sem GPS, bora procurar as placas e seguir mais ou menos o que eu havia visto na internet antes. E dá tudo certo. Abasteço ainda antes de sair de Berlim e logo estou na estrada.

A estrada é boa, mas o tempo está péssimo. Chove praticamente o tempo todo e em alguns momentos a chuva foi bem forte e a visibilidade ficou horrível. Ligo a ventilação no máximo para evitar que os vidros embacem e vou pianinho atrás de um caminhão, dando uma bela distância.

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Quando o tempo resolveu dar uma melhorada, senti que as rotações estavam mais baixas que o normal. Antes a 100km/h o carro estava em 4000rpm e agora estava em menos de 3500rpm. Ao mesmo tempo o limpador de para-brisa estava mais lento. Devagar-quase-parando.

Resolvo parar num estacionamento, muito comum nas AutoBahns. Desligo o carro e dou uma olhada nas luzes. Tudo parece OK. Vou ligar o carro e… nada. A bateria descarregou completamente.

Pergunto a uma pessoa aqui, outra ali. Ninguém tinha o cabo. Depois de uns 10 minutos sem saber o que fazer, empurro o carro para tentar pegar no tranco. Não consigo ganhar muita velocidade, até porque o terreno não era dos mais planos, e não consigo. Um cara vem me ajudar, mas só a colocar o carro de volta na vaga do estacionamento.

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(Essa sequência de fotos diz tudo)

Logo chega um rapaz e conto a minha história. Ele não falava inglês e nem eu o alemão, mas a mímica é uma língua universal e agradeço aos meus amigos que insistiram em jogar Imagem e Ação comigo, porque eu jamais saberia fazer a mímica de uma ligação direta – ou no nosso linguajar, a chupeta. E ele tinha o cabo e nunca o havia usado. Tampouco eu. Mas deu tudo certo.

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Sigo pela estrada e sinto que a bateria não recarrega. As luzes estão fracas e começo a ficar com medo de até ser parado pela polícia.

Na fronteira com a República Tcheca, tenho que parar novamente para comprar o Vignette, que é um adesivo que o carro precisa ter. É um jeito diferente de cobrar pedágio. E ao parar no posto para comprar o adesivo acabo deixando o carro morrer. Me sinto o motorista mais incompetente do mundo. Quase um Andrea De Cesaris.

Vou comprar o adesivo e procurar mais alguém para me ajudar. Pergunto à um senhor num Twingo malhado que estacionou ao meu lado e ele disse que sempre carregou esse cabo com ele e que inclusive o usou uns dias atrás, mas que o carro estava uma bagunça – e estava mesmo – e que ele precisaria achar. Depois de quase 5 minutos procurando, achamos. Liguei o carro, agradeci e jurei que iria levar a Lubenica até Praga, custe o que custasse.

Rezei para que não voltasse a chover, porque o carro estava rodando completamente sem bateria. Estava sem luz, limpador ou setas. Foi perigoso, eu sei, mas não poderia ficar parado no meio da estrada.

O GPS volta a funcionar na República Tcheca, mas não consigo encontrar o endereço. Encosto num posto e, sem deixar o carro morrer dessa vez, tenho que ir abrindo o mapa até achar o lugar certinho para que ele trace o caminho. Descubro que já havia passado a entrada e o carro já estava ficando com pouco combustível. Já era mais de 20h e estava praticamente escuro.

Sigo com uma luz praticamente inexistente e com a seta ora funcionando, ora não. Mas chego. Estaciono o carro aonde consigo e ali ele ficaria até que eu conseguisse encontrar uma solução para o que estava acontecendo. Vou até o prédio e encontro Anezka (lê-se Aniêjka).

Anezka é uma amiga de uma amiga minha. Por conta dos dias que perdi esperando as lentes, cheguei 4 dias depois do planejado em Praga e a pessoa que iria inicialmente me hospedar acabou hospedando outra pessoa. Meio que de última hora encontrei ela e foi uma situação que tinha tudo para ser estranha, mas foi bem legal.

Fizemos uma janta juntos e aproveitei e já liguei a câmera e fui entrevistando ela. Ela estava muito cansada do trabalho e logo foi dormir. No dia seguinte trabalharia das 8h as 20h, como têm sido quase todos os dias daquela semana, como ela me disse.

Antes de dormir checo na internet que o lugar onde o carro está estacionado é residencial e exigiria um adesivo comprovando que é um carro de morador, o que eu não tinha. A pena para quem estaciona assim é desde uma presilha que é colocada na roda, exigindo o pagamento de uma multa para retirar, até mesmo o carro ser guinchado. Entro em pânico.

Durmo, mas durmo mal pensando que o carro a essa altura já estaria em algum pátio da polícia, com uma multa milionária a ser paga. Acordo e vou até lá, praticamente de pijama ainda. Ele ainda está lá. Ufa. Volto e tomo café ao mesmo tempo procurando qualquer pessoa que pudesse me ajudar em Praga.

Entro na página no Facebook a respeito de Ladas, carros comunistas e até no Lada Clube tcheco. Já sabia que o problema deveria ser no alternador, mas de qualquer forma, como levaria o carro até um mecânico?

Vejo que tem algumas pessoas com nomes aparentemente tchecos. Entro em contato com alguns. Um me responde, mas usando o tradutor. Tudo bem, vamos tentando nos falar. Ele me passa uns endereços de mecânicos especializados em Ladas. Eu peço para Anezka entrar com contato com eles, mas ela está muito ocupada com o trabalho. Começo a ficar mal.

Ainda estava sem um centavo de dinheiro tcheco no bolso, louco de preocupação com o carro e numa das cidades mais lindas da Europa. Decidi que precisava sair e me perder pela cidade sozinho.

Dei uma volta de quase quatro horas pelo centro histórico e voltei. O carro ainda estava lá. No apartamento faço um almoço improvisado e continuo a minha procura por alguém para me ajudar com o carro.

Anezka volta às 20h e vai dormir logo em seguida. Estava exausta. Ela é uma garota muito legal e me ajudou muito, mas infelizmente ela não tinha muito como me ajudar com o carro. E eu continuo no Facebook e Google procurando alguma solução.

Eis que quase 23h, um amigo lituano entra em contato me perguntando como estava. Digo onde estava e da minha situação e ele me passa o perfil de um amigo tcheco dele. Logo entro em contato e ele, Ondrej (lê-se ôndjêii), me diz que o irmão e um amigo poderiam vir até a mim na manhã seguinte e tentariam me ajudar.

No dia seguinte acordo mais uma vez ansioso. Dormi um pouco melhor, mas ainda sonhei com o carro sendo guinchado e a multa impagável para tê-lo de volta. Vou até o carro antes mesmo de sequer lavar a cara e fico aliviado ao ver o verdinho ali parado. Abro o porta-malas e coloco o triângulo bem em cima do volante para mostrar que o carro estava quebrado. Quem sabe assim a polícia teria dó de mim e não me multaria.

Volto, tomo café e como alguma coisa. Havíamos combinado as 12h30 e ainda eram 10h. Na noite anterior havia encontrado uma loja de peças e produtos automotivos e decidi que iria lá comprar o cabo. Não sabia que ônibus pegar, então fui a pé. Quatro quilômetros para ir e mais quatro para voltar. Chego às 12h, cansado e eles só chegaram às 13h. Desci e os encontrei. Prokop, irmão de Ondrej, e Lukas, seu amigo. Fomos até o carro.

Com o cabo em mãos, conseguimos religar o carro. A gasolina estava bem baixa e antes de irmos até um mecânico, tínhamos que passar num posto. Eles vão à frente e eu vou indo atrás, sempre tentando não deixar o carro morrer.

Entramos num túnel e o carro começou a dar uma engasgada. Parei no farol e puxei um pouco do afogador. Quando ficou verde, o carro não quis ir e começou a fazer uns estouros. Gelei. A sorte é que era descida e consegui embalar o carro, apesar do buzinaço que ficou no meu ouvido. A minha buzina mesmo não funcionava mais e por isso não consegui avisar meus amigos que seguiam à frente. No final do túnel encontrei eles parados e parei o carro em frente a eles. Prokop veio até mim e perguntou o que estava acontecendo, pois ouvira os estouros. Disse que o carro estava sem potência e que não ia. Mesmo assim ele ainda estava ligado. Dei uma acelerada forte, engatei a primeira e ele foi. Lukas veio logo atrás e me passou para voltar a me conduzir.

Poucos minutos depois, numa avenida, o carro morreu. Enfiei a cabeça pela janela e gritei por eles. Prokop, mais uma vez, veio correndo, enquanto as pessoas atrás desviavam. Pedi que ele me empurrasse e pela primeira vez na vida consegui fazer um carro pegar no tranco. Quanto orgulho.

Chegamos no posto, abasteci e Prokop me ajudou a empurrar o carro. Pela segunda vez consegui fazer pegar no tranco e seguimos até o mecânico.

O mecânico na verdade era um funcionário de uma concessionária Lada em Praga. A concessionária tinha um Lada 2101 verde que me deixou de queixo caído. Quase abri mão do meu amor pela Lubenica, que estava ali a poucos metros.

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O senhor veio até o carro, abri o capô e ele enfiou a mão no alternador. Ele havia caído. Ele tirou as porcas e me mostrou. Estavam velhas e haviam espanado. O alternador mesmo estava inteiro. Ele nos passou outro mecânico próximo que o colocaria de volta no lugar.

Mais uma vez religamos o carro e fomos até o novo mecânico. Lá ele deu uma olhada e enquanto ia falando ao Lukas o que era, Lukas comentou com ele sobre a minha viagem. Ao falar que era brasileiro, ele não conseguiu evitar e soltou uma gargalhada. Depois veio e me cumprimentou. Disse que me invejava e que a minha ideia era muito legal. Fiquei feliz.

Deixamos o carro e Lukas me trouxe de volta ao centro. Combinamos de nos encontrar a noite para que eu pudesse entrevista-los.  Antes de voltar até o apartamento, comprei umas cervejas e comida. Agora podia finalmente relaxar.

Fiz minha janta, tomei um banho e passei as fotos e vídeos para o computador. Anezka tinha um encontro com um rapaz, disse ela, e voltaria tarde, então nem me preocupei em avisá-la que também sairia. Me arrumei e fui.

No bar estavam Lukas, Prokop e Péta (se diz Piêta). Ondrej estava a caminho. Liguei a câmera e conversamos muito sobre tudo, especialmente sobre o carro e a vida deles. Péta, no entanto, não quis participar muito e acabei filmando só os rapazes. Um pouco mais tarde Ondrej chegou e a conversa fluiu muito bem.

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(Prokop, Ondrej, Lukas, Péta e Eu)

Antes do último metrô, fomos todos embora. De volta ao apartamento, Anezka já estava dormindo e eu fui dormir logo em seguida. O dia seguinte ainda seria longo, pois teria que ir buscar o carro e dirigir até Brno.

Anezka me acorda para se despedir. Estava indo ao trabalho e não voltaríamos a nos ver. Agradeço pelo sofá de última hora que ela me arranjara e ela vai embora. Durmo um pouco mais, mas não há cortinas no quarto e o sol bate na minha cara. Levanto e tomo banho.

Arrumo as malas e fico esperando Lukas me avisar quando o carro estivesse pronto. Não demora e ele me manda um whatsapp dando o OK. Pego minhas coisas e vou até o mecânico sozinho. Ele não está lá.

Ligo para o Lukas, que liga para o mecânico, que avisa o Lukas, que me diz que ele já estaria voltando. Enquanto ele não chega, aproveito a chave extra para abrir o carro e ir colocando as coisas. Ligo e está tudo OK. Ele chega, eu pago, nos cumprimentamos e vou embora.

O caminho até Brno não era longo, mas havia uma cidade inteira para atravessar até pegar a estrada.

E isso eu conto só no próximo relato.